“Acham que nossos filhos estão pecando, pecado é usar violência e covardia em nome de Deus”

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Kaká e Omar, os dois vereadores que fazem discursos homofóbicos, não estavam presentes durante a fala das Mães pela Diversidade.

Duas moradoras de Balneário Camboriú que integram a ONG Mães Pela Diversidade -movimento existente desde 2014 e presente em 25 estados do Brasil- Telma Cristina Issa de Freitas e Jocineia de Jesus, estiveram na Câmara de Vereadores durante a sessão de quarta-feira (3), a convite do vereador Eduardo Zanatta e soltaram o verbo.

A ida delas ao Legislativo aconteceu em um momento em que dois vereadores, Omar Tomalih e Kaká Fernandes, fazem repetidos discursos homofóbicos em redes sociais, mas eles não estavam presentes no momento: Kaká se ausentou por motivos de saúde e Omar se retirou do plenário.

Jocineia e Telma Cristina destacaram que é inadmissível que seus filhos e filhas sejam alvo de ódio e que homofobia é crime (o discurso pode ser conferido aqui: https://www.youtube.com/watch?v=ZB_41wOgg_w, a partir de 1h7min).

Políticos de Balneário Camboriú já se mostraram homofóbicos em outras ocasiões; a Parada LGBTQIA+ foi barrada por diversas vezes, precisando de intervenção do Ministério Público para acontecer.

Movimento enfrentou resistência

O Página 3 conversou com Jocineia, mãe de Gustavo Ribeiro e uma das militantes do movimento Mães Pela Diversidade. Ela disse que há anos esperava convite para ir à Câmara. Desta vez, a convite do vereador Zanatta, foi possível.

“Em outros mandatos nunca havíamos conseguido ir, inclusive com tudo o que já aconteceu envolvendo a Parada, queríamos ir para falar, mas nunca conseguimos. Neste ano, estávamos tentando ir desde setembro, jogaram para outubro, e agora em novembro não conseguiram nos barrar. Sempre tinha resistência, diziam que não tinham agenda para irmos”, contou.

Atitudes homofóbicas

Jocineia comentou a ausência dos dois vereadores homofóbicos, Omar Tomalih e Kaká Fernandes, no momento da sua fala e de Telma.

“O Omar, segundo eu soube, estava na sessão, mas na hora que fomos chamadas se retirou. Eu ia fazer uma fala direta para eles [Omar e Kaká], porque penso que devemos dizer olho no olho, tanto que tem vereador ali que tem empatia com a nossa causa e que não precisava ouvir tudo o que falamos, mas queremos dizer que não tem volta; ou eles nos aceitam ou nos aceitam”, pontuou.

“Covardes e incompetentes”

A moradora de Balneário apontou também que já ouviu de vereadores o clássico discurso de que não têm nada contra a comunidade LGBTQIA+ completando que ‘até tenho amigos que são’.

“Falam para nos agradar e é ridículo! Eu digo que ‘até tenho amigos heteros’, porque conhecendo o mundo LGBTQIA+ vejo que é muito mais divertido, alegre, colorido… Mas nós gostaríamos muito de ter acesso ao Kaká e Omar, que para mim são covardes. Ficam se embasando em fundamento religioso. Devem ser marionetes de pastores hipócritas. Queria perguntar se já tiveram algum problema diretamente com a comunidade LGBTQIA+. Balneário tem coisas necessárias e urgentes e é para isso que eu e meu filho pagamos impostos. Pagamos os salários desses incompetentes que ficam nessa hipocrisia. A única bandeira deles é essa, da homofobia, do preconceito. Eles não têm o que fazer e não sabem o que fazer”, acrescenta.

“Onde está o machão?”

Jocineia lembra que homofobia é crime e que os vereadores deveriam ser responsabilizados pelo que falam e escrevem.

“Eles deveriam ter um pingo de inteligência e pararem de ser incompetentes e perseguirem as nossas famílias. Balneário precisa de creche, de segurança. Nunca teve tantos andarilhos, arrombamentos e roubos como hoje. Deveriam fazer jus aos impostos que pagamos. Deixem de ser incompetentes e malandros. Acham que nossos filhos estão pecando, pecado é usar violência e covardia em nome de Deus. Onde está o machão? Por que não conseguiram encarar duas mães? Eu não tenho problema com o meu filho. Tenho muito orgulho dele. Mas, eu teria vergonha em ter uma pessoa assim, como eles, em minha família”, comentou.

Discussão de gênero nas escolas

Segundo Jocineia, hoje a principal defesa do movimento é trazer a discussão de gênero nas escolas, para evitar assim que os adolescentes que integram a comunidade LGBTQIA+ sofram agressões e sejam vítimas de bullying.

Joci com seu filho (Arquivo da família).

“Sei que os pais não estão preparados. Meu filho sofreu no colégio e eu fechei os olhos para isso. Hoje, não consigo entender como as pessoas se desfazem de um filho ou filha quando descobrem uma característica dele ou dela. Sei que pode ser um processo difícil, mas no primeiro momento que você desconfiar, procure para conversar, alivie o sofrimento dele, porque os jovens também têm dificuldade em se aceitarem. Diga que pode contar com você, para que ele se fortaleça”, afirma.

“Esperamos muito enfrentamento ainda”

No discurso, Jocineia e Telma destacaram o quanto é complexo o medo que pais e mães LGBTQIA+ sentem por seus filhos – de possíveis agressões e do preconceito que podem sofrer pela sociedade.

“Em Balneário esperamos muito enfrentamento ainda. Sabemos que vão tentar nos esconder, mas não vamos permitir. Já estamos nos mobilizando para fazer a Parada em 2022, vamos partir neste sábado da Parada de Florianópolis, de forma online. É uma estupidez do governo ser contra o nosso movimento, porque o turismo LGBTQIA+ é um dos mais lucrativos. O vereador Kaká, antes de ser vereador, disse que era contra porque viu peito e bunda de fora, mas não falou do colorido, da alegria, que era uma festa ordeira. Diferente da Festa dos Amigos, que era para ser festa de família e também acontecem coisas bem estranhas. E, aliás, peito e bunda tem na Avenida Atlântica todos os dias”, pontuou.

“Um dos discursos mais potentes do ano”

O vereador Eduardo Zanatta considerou a fala delas ‘uma das ações mais importantes’ que realizou em seu mandato até agora.

“É inadmissível que autoridades políticas locais e nacionais tenham esses discursos de ódio que estamos vendo, pois acabam legitimando ações de discriminação e violência nas ruas. A luta por direitos é um dos meios eixos de trabalho e vou seguir nessa defesa, inclusive estamos construindo pautas em conjunto [o vereador e a ONG Mães Pela Diversidade]”, afirmou.

Zanatta confirmou a fala de Jocineia, de que protocolou o requerimento para que o movimento fosse à Câmara ainda em julho, mas que só conseguiu trazê-las nesta semana.

“Elas têm voz e precisam ser ouvidas. Representam mães e pais, moradores com família em Balneário. Dividiram que dormem com preocupação sobre seus filhos e filhas, que sentem que seus direitos são negados, e ninguém deveria passar por isso. Fiquei feliz porque emocionou outros vereadores, que reconheceram o trabalho realizado por elas. Foi um dos discursos mais potentes do ano. Fico muito feliz mesmo por ter dado visibilidade para esse tema, afinal, a Tribuna Livre é um espaço para a população falar e para lidarmos com questões do dia a dia. Não é questão de liberdade de expressão e sim amor, respeito e igualdade. E homofobia é crime”, completa.

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