Há uma idade em que o tempo, depois de tanto levar, encontra uma mulher ainda capaz de lhe oferecer um jardim.
Aos 90 anos, Adélia Prado recebe o Prêmio Literário Biblioteca Nacional 2026, na categoria poesia, pelo livro “O jardim das oliveiras”. Publicado em 2025, a publicação guarda 25 poemas escritos ao longo de uma vida; entre um livro e outro, mais de uma década. O silêncio também tem raízes. E, às vezes, floresce.
Penso nela, apresentada a mim pela poeta Márcia Helena Saldanha Barbosa (UPF), diante da página. O corpo conhece o cansaço, mas algo, nela, ainda, se espanta. Uma claridade atravessa a cozinha. Alguém abre os olhos. Em sua poesia, a fé tem corpo, o desejo tem alma, e Deus pode ser pressentido entre os afazeres de uma casa. A mulher que ama, envelhece, duvida e prepara o alimento carrega perguntas que nenhum altar consegue encerrar.
Agora, recuperando-se de uma queda doméstica, ela recebe a notícia. Imagino-a entrando em casa, encontrando os objetos de sempre, pousando entre as delicadezas e as dificuldades de continuar vivendo.
Seria injusto ler esse livro como quem procura uma despedida. Aos 90 anos, uma mulher tem direito ao futuro: ao verso que ainda não chegou, à alegria sem explicação, à manhã que pede apenas para ser vivida.
Há uma liberdade comovente em continuar criando. Entregar ao mundo o que ainda não existia, quando o mundo já se julgava completo. Adélia escreve, e descobrimos que faltava justamente aquilo.
Talvez seja disso que precisemos: de palavras que nos devolvam o olhar capaz de ver o outro sem reduzi-lo àquilo em que acredita, ao candidato em quem votou, à opinião que sustenta. Uma pessoa é sempre maior do que a escolha que fazemos dela.
E é por isso que entristece o que se vê depois do voto. Pessoas perseguidas ou demitidas por terem escolhido outro candidato. Comerciantes expostos à humilhação. Campanhas para esvaziar lojas, afastar clientes, arruinar negócios, porque seus donos pensam de outro modo. Como se o pão de uma padaria devesse trazer, no miolo, uma preferência eleitoral. Como se a dignidade de quem trabalha dependesse da concordância de quem cruza a porta.
A História já nos deixou imagens que deveriam bastar como advertência. Na década de 1930, na Alemanha, uma estrela de seis pontas, amarela e preta, foi pintada em milhares de portas e vitrines de comerciantes judeus, ao lado da palavra “Jude”. Tinta sobre vidro: tão pouco, e tão definitivo. Não se trata de igualar épocas, contextos ou dimensões da violência. Trata-se de reconhecer um mecanismo: primeiro, faz-se de alguém um inimigo; depois, convence-se a sociedade de que ele já não merece a convivência, o trabalho, o sustento.
A intolerância raramente começa pedindo o pior. Começa pequena, quase discreta: uma lista que circula, uma porta que se fecha, uma compra que deixa de ser feita para punir quem não pensa como nós.
A democracia não nos obriga a concordar. Pede algo mais difícil: discordar sem desumanizar, contestar sem perseguir, escolher sem transformar a escolha em licença para ferir.
Que ninguém precise esconder o próprio voto para conservar o emprego. Que nenhum comerciante tenha de disfarçar suas convicções para manter abertas as portas do seu ofício. Que a liberdade que reivindicamos para nós não se converta em castigo para os outros.
O prêmio reconhece o livro. Mas a leitura acontece mais fundo: alguém abre uma página e encontra palavras para o que carregava havia anos, sem conseguir dizer.
Talvez a poesia sirva também para isso: impedir que o mundo se acostume à crueldade. Lembrar que, por trás de cada opinião, há uma vida inteira que não conhecemos. E que a humanidade não se reparte entre os que pensam como nós e os que, por isso mesmo, julgamos indignos de respeito.
Obrigada, Adélia, dirá a vida pela nossa boca.
Por teres ficado à escuta.
Por nos devolveres o cotidiano com a sua imensidão por dentro.
E por nos lembrar, mesmo sem escrever diretamente sobre política, que nenhuma sociedade floresce quando faz da diferença uma perseguição. Um jardim não exige que todas as flores tenham a mesma cor, pel e cheiro. Exige apenas que nenhuma seja arrancada por florescer de outro modo.