Há cidades que crescem para o alto. Outras, para dentro. Balneário Camboriú aprendeu a arranhar o céu com seus edifícios. Mas existe uma altura que nenhuma engenharia alcança: a profundidade humana.
De 22 a 24 de outubro, o 2º Festival Literário, sob o tema “Palavras que Inspiram”, oferece à cidade uma arquitetura invisível: a do pertencimento.
Serão mais de 60 atividades gratuitas, com escritores como Fabrício Carpinejar, Ana Paula Araújo, Léo Cunha e Eliane Debus. Mas o verdadeiro protagonista talvez seja aquele que chega silenciosamente, abre um livro e descobre que já não está sozinho.
Ler literatura é uma experiência singular. Diferentemente da leitura que apenas informa, a ficção nos permite experimentar aquilo que não vivemos. Num romance, habitamos outras existências. Num conto, reconhecemos nossos abismos. Na poesia, descobrimos que até o silêncio possui linguagem. Na crônica, o cotidiano revela seu espantoso mistério.
Quem lê literatura vive muitas vidas sem abandonar a própria. Ama com personagens que nunca existiram, sofre perdas que não aconteceram e aprende a compreender escolhas que jamais faria. A imaginação ensaia a empatia. O outro deixa de ser estranho e começa a ser possibilidade de nós mesmos.
Talvez seja esse o milagre discreto da literatura: não nos tornar necessariamente melhores, mas menos seguros de nossos julgamentos. E mais disponíveis à delicadeza.
Um Festival Literário também produz riqueza. Movimenta livros, trabalho, comércio e turismo cultural. Aproxima gerações, desperta vocações e transforma memória em identidade. Porque uma cidade não se constrói apenas com ruas e edifícios. Constrói-se com histórias que seus habitantes reconhecem como suas.
Há uma beleza particular na dedicação do Setorial de Literatura, da Academia de Letras de Balneário Camboriú, do Inspira: Cultura e Educação, da Fundação Cultural e da Prefeitura Municipal. Sua criatividade e seu envolvimento demonstram que promover cultura é também cuidar da cidade por dentro. É semear encontros cujos frutos talvez só apareçam daqui a muitos anos.
Neste território de palavras, entrego-lhes “O Espelho que Respira”. São crônicas sobre afetos, sobre silêncios, sobre a coragem, tão difícil e tão simples, de reencontrar-se. Não sei dizer a que gênero pertence. Talvez a nenhum: é um livro que se recusa ao quadrado. Nele, o cotidiano, esse ser miúdo que passa despercebido, torna-se poesia, e a existência, de repente, aprende a perguntar por si mesma.
Nos encontramos na sexta-feira, 23 de outubro, das 9h às 10h, no Teatro Municipal Bruno Nitz, para uma conversa, apresentação do livro e sessão de autógrafos. Entrada gratuita.
O espelho já respira. E Balneário Camboriú, entre o mar e o céu, talvez descubra, de repente e sem alarde, que sua grandeza não está só no que sobe em concreto e vidro, mas no que se estende, tão discreto, entre uma pessoa e outra: o envolvimento fundo, delicado, quase um segredo.
Programação completa no site Fundação Cultural de Balneário Camboriú