(Foto: divulgação)

Balneário Camboriú tem até imortais. Mas o que nos torna eternos?

Aos 65 anos, Mauro Gaglietti assume a Cadeira 11 da Academia de Letras de Balneário Camboriú e descobre que a verdadeira imortalidade não está nos nomes gravados em cadeiras, mas na humanidade que despertamos em alguém.

Na Coluna Mauro Gaglietti, no Jornal Página 3, literatura, memória e empatia se encontram para revelar o que existe por dentro de nós e da cidade.

Porque não precisamos ser extraordinários para fazer diferença. Precisamos, antes, não ser indiferentes.

Leia. Reflita. Sinta-se parte dessa conversa.


DISCURSO de POSSE de Mauro Gaglietti na ACADEMIA DE LETRAS DE BALNEÁRIO CAMBORIÚ – SC

Cadeira 11 – Patrono: Alphonsus de Guimaraens

Boa noite.

Senhor Presidente, acadêmicas e acadêmicos, autoridades, familiares, colegas, alunos(as), ex-alunas(os) da Univan, amigas e amigos.

Olho para vocês e penso: se estamos aqui nesta noite, é porque, de algum modo, importamos uns aos outros. E não há presente maior do que esse.

Enquanto o mundo se incendeia em guerras, violência, ódio, feminicídios e agressões, multiplicam-se os cancelamentos e a política transforma adversários em inimigos a serem eliminados. E nós, aqui, falamos de literatura. Talvez porque ler seja aprender a habitar outras vidas sem abandonar a própria. Nos romances, nas poesias e na ficção, atravessamos espelhos, descobrimos abismos e reconhecemos a humanidade que pulsa em quem julgávamos estranho. A literatura alarga a alma e cultiva a empatia, ensinando-nos a acolher o outro como legítimo outro na diferença. Porque, quando a palavra ilumina o que nos separa, o humano pode finalmente reconhecer-se no rosto alheio.

Passei boa parte da vida procurando palavras. Hoje, diante do mar, sob uma Lua quase cheia, escondida entre nuvens, descubro que algumas das palavras mais importantes não são pronunciadas: são aquelas que nos aproximam, mesmo quando o silêncio fala por nós.

Nasci em Caxias do Sul, filho de Geny e Nelson, irmão de Charles. Trago comigo as cidades onde vivi, os livros que escrevi e, sobretudo, os alunos que me ensinaram enquanto eu acreditava estar ensinando. Estudei História para compreender as transformações e as permanências, Ciência Política para interrogar o poder e Mediação de Conflitos para aproximar pessoas. A literatura, porém, ensinou-me algo ainda mais difícil: reconhecer o outro sem exigir que ele pense e se comporte igual a mim.

Alexandra, minha filha de coração, contigo aprendi que existem laços que a biologia não explica, mas que a vida sabe criar.

Biva, meu amor, minha companheira de vida e de sonhos, Balneário Camboriú era um horizonte que desejávamos alcançar. Contigo, tornou-se casa. E agora, com esta pelerine sobre meus ombros, trazida pelas tuas mãos, sinto que há muito mais nela do que fios entrelaçados. Há o tempo que vivemos, os sonhos que ainda nos esperam e essa forma tão tua de transformar delicadeza em presença.

Tu, que conheces as artes, a dedicação na APAE e a delicadeza de acolher o silêncio de pessoas autistas, sabes também escutar a linguagem secreta do crochê. Cada ponto pede paciência, cada laçada guarda uma esperança, cada fio confia que encontrará outro para não permanecer sozinho. A pelerine está pronta, mas, para mim, haverá sempre um ponto por fazer: aquele que nenhum novelo guarda, nenhuma agulha alcança e somente o amor, em seu mistério, consegue inventar. Porque uma vida compartilhada jamais se conclui: permanece aberta, como um poema à espera de seu último verso, que talvez nunca venha. Enquanto houver tempo, haverá sempre algo a entrelaçar: uma memória que floresce, um sonho que nos chama da distância, uma ternura que, ainda sem nome, já começa a nascer entre nossos dedos.

Agradeço a Lenita Novaes, a Luciano Estevão e familiares, à família Nogari, ao Instituto de Psicologia Sentir, à ONG Anjos da Vida, aos artistas de Secção 9, ao Jornal Página 3, aos colegas professores(as) da Univali e da Uniavan, à Academia Passo-Fundense de Letras, aqui representada por Luiz Carlos Dale Nogari, com 93 anos de idade, sendo o Leiloeiro Oficial com mais tempo de atuação no Brasil e Mercosul, Confraria da Canastra, aos Amigos do Edifício Imperatriz e, sobretudo, à Academia de Letras de Balneário Camboriú. Cada um, à sua maneira, ajudou a tornar possível esta noite.

Assumo a Cadeira 11, sob o patronato de Alphonsus de Guimaraens, poeta que soube fazer da saudade e do mistério uma linguagem capaz de tocar o que não vemos, mas sentimos.

Em Ismália, a Lua do céu e a Lua do mar parecem chamar a mesma alma para destinos diferentes. Entre o alto e o profundo, entre o sonho e a realidade, também nós procuramos compreender quem somos e quem ainda podemos ser.

Ser imortal nesta Casa não significa escapar da morte. Significa confiar à palavra algo de nós que possa continuar vivo na memória de outras pessoas.

Por isso, desejo uma Academia de portas abertas à cidade. Que nela encontrem lugar todas aquelas  pessoas cujas histórias merecem ser ouvidas, mesmo que nunca cheguem às páginas de um livro.

Aos 65 anos, tenho menos certezas do que aos vinte. Mas aprendi que não precisamos ser extraordinários para fazer diferença. Precisamos, antes, não ser indiferentes.

Quando sairmos daqui, talvez olhemos para a Lua. Ela estará em sua fase minguante. Talvez escondida, talvez explícita, mas nunca esquecida. E isso não lhe roubará a beleza. Há luzes que, mesmo diminuindo, continuam iluminando.

Se alguma coisa de mim permanecer nesta Academia depois que minha voz se calar, desejo que não seja apenas meu nome gravado numa cadeira.

Que seja a humanidade que consegui despertar em alguém.

Muito obrigado.