Casos de depressão e ansiedade entre adolescentes preocupa: isolamento social potencializou o problema

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Por Renata Rutes

Durante a adolescência, jovens buscam pelos amigos e por afinidades de forma intensa, mas agora, após um ano de pandemia, isso ficou bastante prejudicado. Em Balneário Camboriú, segundo especialistas, casos de depressão e ansiedade aumentaram muito – causados pelo isolamento social e principalmente pelas aulas online, já que a maioria dos adolescentes está há mais de um ano de forma muito mais frequente somente em casa.

O Página 3 ouviu psicólogos e entidades que atendem adolescentes que analisam a situação preocupante e deixam um recado aos pais: fiquem atentos aos sinais e, se preciso, procurem por ajuda especializada.

“A pandemia prejudicou bastante”

Uma adolescente de 15 anos, que preferiu não ser identificada, falou com o jornal por telefone. Ela relatou que tem ansiedade e depressão e que vai no psicólogo desde pequena.

“Meu quadro piorou, a pandemia prejudicou bastante, e meus pais me colocaram no Abraço à Vida (programa municipal que auxilia pessoas com problemas psicológicos/emocionais e combate a ideação suicida). Desde que estou vindo, notei uma melhora. Eu sentia muita falta desse contato com as pessoas. Voltar para a escola, mesmo que com as aulas online e presenciais, ajudou um pouco. Meus amigos também se sentem dessa forma, exaustos com a pandemia. Apesar de preferir ficar em casa, assistindo série, eu sentia muita falta dos meus amigos, de sair de casa”, disse.

“Procura extremamente alta”

Abraço à Vida atende moradores de Balneário, incluindo crianças e adolescentes (Divulgação/Arquivo pessoal)

A história dessa garota, moradora de Balneário Camboriú, é comum no programa Abraço à Vida, administrado pela Secretaria de Desenvolvimento e Inclusão Social da cidade. 

A secretária Christina Barichello explica que a procura pelo programa, por parte dos adolescentes e seus pais, está ‘extremamente alta’. 

“Acendeu o pânico, além dos casos de depressão e ansiedade. Os adolescentes se isolam, mas agora isso foi imposto, e já passou muito tempo. Há ainda a pressão dos pais, a aula online. Eles não têm mais ânimo para ficar vendo aula pelo computador, as escolas não estavam preparadas para a aula online, eles não querem mais ficar assistindo, já que não tem o mesmo estímulo da convivência presencial”, analisa. Pensando no contexto escolar, a Secretaria de Inclusão, junto com a Saúde e Educação, estão capacitando colaboradores gerais das escolas para que todos consigam perceber mudança no comportamento dos alunos, já que esse olhar atento pode literalmente salvar uma vida.

“Estão esgotados mentalmente e com medo”

Christina, que também é psicóloga, analisa que os adolescentes que, em sua maioria, preferem o contato virtual, estão percebendo o quanto o presencial também é importante.

“Eles se sentem perdidos, a pandemia atacou diretamente. O adolescente demorou um pouco para ser afetado, mas agora foram atingidos profundamente. Eles têm esse lado social que é totalmente importante, gostam de andar em turma, e agora estão esgotados mentalmente e com medo”, diz. 

A secretária conta ainda que aumentaram os casos de automutilação, e que o aumento em 40% dos atendimentos do programa (nos últimos meses) se deu exatamente pela procura mais intensa por parte dos adolescentes. 

Para que menores de idade sejam atendidos, os pais e/ou responsáveis precisam assinar um termo de compromisso.

“Nesta semana atendemos um menino de 11 anos, e isso exige que a gente reavalie o programa, porque é diferente atender uma criança de 11, 12 anos, e um jovem de 18. Precisamos de profissionais focados nessa faixa etária. Os pais estão apavorados, muitos chegam até nós com cartas de despedida que os filhos escreveram, outros compartilham até despedidas nas redes sociais”, explica.

“Não podemos projetar nossos sonhos não realizados neles”

Christina comenta que uma das principais reclamações dos adolescentes é a idealização por parte dos pais – principalmente quanto ao futuro dos filhos, voltado para o lado profissional. Um caso que a marcou envolveu uma adolescente que estava fazendo cursinho para passar em Medicina e não conseguia entrar na faculdade – que era o sonho da mãe. 

A garota sonhava em cursar Direito e por essa pressão e idealização materna, desenvolveu problemas psicológicos.

“Temos que entender que nossos filhos são do mundo, eles têm suas escolhas. A menina estava em depressão profunda, não queria mais viver. Não podemos projetar os nossos sonhos não realizados neles. Podemos orientá-los, mas não obrigá-los. Às vezes, durante os atendimentos, vemos que o adolescente é o mais são da família, e aí entra a importância de atender todo o grupo familiar”, comenta.

Abraço atende casos de adolescentes todos os dias até às 22h – além dos emergenciais

Ivanir Maciel e Christina Barichello comandam o Abraço à Vida (Divulgação/Arquivo pessoal)

A técnica do programa, Ivanir Maciel, conta que atenderam nesta semana um caso envolvendo automutilação, onde uma mãe encontrou várias cartas de despedida da filha de apenas 12 anos. A garota escreveu que não vê mais sentido na vida e que deseja morrer. 

“A mãe nos procurou e levou a filha, mas ela não verbaliza, apenas diz que se sente dessa forma e não explica por qual motivo. Teremos que iniciar um trabalho diferenciado para conseguir escutá-la, talvez incentivá-la a escrever, já que ela escreveu cartas, ou desenhar… mas realmente quando o assunto é adolescente envolve uma metodologia diferenciada”, relata.

Assim como a secretária Christina, Ivanir vê que o isolamento social atingiu ‘totalmente’ os adolescentes, já que eles realmente estão se isolando porque isso foi imposto e não porque querem. 

“Por isso, aumentamos os nossos atendimentos voltados para os adolescentes até às 22h, fora os casos emergenciais, que chamamos de contenção, que podem ser atendidos independente da hora, e que são comuns e também acontecem com frequência”, diz.

  • O Abraço atende qualquer morador de Balneário Camboriú que está precisando de apoio emocional, de forma gratuita. Se você sabe de alguém que precisa de ajuda ou você mesmo precisa entre em contato pelo telefone (47) 99982-2322, através do aplicativo WhatsApp.

PAIS: mais de 160 pessoas na fila por atendimento

Programa Papo Reto, do PAIS, na Escola Ruizélio Cabral (Divulgação/Arquivo pessoal)
João Passos (Divulgação/Arquivo pessoal)

O fundador e coordenador da Associação de Proteção Acolhimento e Inclusão Social (PAIS), João Passos, diz que na entidade, que possui convênio com a prefeitura e também atende demandas vindas do governo municipal – além das encaminhadas pelo Judiciário como ainda pelo Conselho Tutelar e demanda espontânea, geralmente tinha cerca de 40 a 50 pessoas na fila de espera – mas hoje esse número passa de 160. 

“Houve um aumento muito grande, temos oito psicólogos atendendo, fora assistentes sociais, estamos abrindo grupos terapêuticos para atender casos mais leves, mas realmente aumentou bastante a procura, atendemos cerca de 500 casos em 2020”, conta.

João, que possui 12 anos de experiência atendendo crianças e adolescentes, vê que pelos adolescentes não estarem diariamente na sala de aula e mais em casa, perto da família, podem estar sofrendo mais – e isso pode vir através do pai, padrasto, tio, primo, com situações que podem ainda envolver abuso sexual ou psicológico, dentre outros crimes.

“Atendemos desde abuso sexual [24 casos em 2020], alienação parental, casos de ansiedade e depressão, baixa autoestima, ideação suicida, bullying, conflitos familiares, crises de pânico, estresse, negligência, violência física e psicológica, automutilação”, explica. 

Uma forma de conseguir ter mais acesso aos jovens se dá pelo programa Papo Reto – que acontece nas escolas estaduais da cidade, já que é nelas onde há alunos do Ensino Médio, na faixa etária entre 14 e 17 anos. 

“Com o retorno das aulas aumentou as denúncias vindas dos professores, pois são eles que conversam e identificam os casos de problemas psicológicos ou outros tipos vindos dos alunos. Com o Papo Reto, os alunos se sentem mais à vontade para conversar conosco, levamos psicólogas e ao final das palestras eles podem conversar diretamente com elas, e sempre surgem casos quando vamos até os colégios”, afirma.

Segundo o fundador do PAIS, é preciso melhorar o contato entre pais e filhos, já que, em sua visão, muitos adultos não sabem dialogar com os adolescentes. 

“Atendemos muitos casos envolvendo problemas familiares. Por exemplo, o adolescente vive com a avó, que o proíbe de sair, isso gera conflitos. Atendemos ainda muitos casos de alienação parental, quando o pai ou a mãe usa da criança para atingir o outro (em casos de divórcio). Abusos sexuais são os que mais nos marcam, e a maioria acontece dentro de casa, com o agressor sendo pessoa próxima, como o padrasto, avô, tio. É triste, pois a criança ou o adolescente está sofrendo violência sexual justamente por parte de quem deveria estar cuidando dela/dele”, comenta.

João aproveita para lembrar que os pais e/ou responsáveis devem ficar atentos a mudanças de comportamento de seus filhos e estes variam, com o adolescente podendo ficar mais calado ou então mais agitado. 

“No caso de crianças, elas podem voltar a fazer as necessidades na cama. Se o comportamento mudou, é indicativo de que algo pode estar acontecendo. E é muito raro o problema ser só a criança ou o adolescente, normalmente precisamos tratar a família toda e quando conseguimos normalmente o resultado é muito positivo”, acrescenta, lembrando de um caso que o marcou e que aconteceu há oito anos – uma menina, que fazia oficina de bordado, estava sem ver a mãe há um ano, mesmo ambas morando em Balneário. “A mãe não via os filhos porque havia se divorciado do ex-marido, com quem os filhos estavam morando. Conseguimos ajudar a juntar a família, mostramos que o problema dos pais não pode afetar os filhos, hoje eles têm guarda compartilhada e conseguimos evitar problemas maiores”, completa.


Psicóloga analisa:
“Adolescente não gosta muito de diálogo, mas é preciso exercitar isso”

Josiane Hoepers, psicóloga da Associação de Proteção Acolhimento e Inclusão Social (PAIS)

A psicóloga Josiane (Divulgação/Arquivo pessoal)

“Os adolescentes vivem essa fase, que é mais introspectiva, no mundo deles. A vida virtual ajudou muito, agora durante a pandemia. Tenho uma filha de 15 anos que se adaptou super bem, pois realmente o mundo deles já estava muito online. As crianças foram muito mais afetadas, porque precisam de espaço, querem brincar. Os adolescentes conseguiram se socializar pelas redes sociais, porém os pais se preocupam muito com eles estarem muito tempo no quarto, fechados. Mas claro que hoje o adolescente tem muito mais ansiedade e depressão, exatamente por essa falta de socialização presencial. Os adolescentes precisam do grupo, buscam pela identificação – seja no modo de se vestirem, comportamental. Eles conseguiram se refazer através do online, a tecnologia ajudou muito, mas a falta do presencial, dos ‘rolês’ (risos), realmente também interfere. A falta da escola, dos colegas, dos professores. O colégio é o lugar de fala deles. Muitos perderam familiares para o Covid, o desemprego afetou os pais, e essas mudanças bruscas também os atingem. No adolescente tudo é muito intenso, e eles estão fragilizados. Se os pais pressionam, são duros, eles podem sofrer muito, mas os adolescentes também precisam viver a frustração, pois impedir que eles passem por isso é impedir que eles tenham essa experiência, que também é de grande aprendizado e servirá como lição no futuro. Não gosto de fazer comparações porque cada geração é diferente, mas houve uma mudança rápida, a educação mudou, a forma de educar, mas a necessidade de haver respeito e firmeza por parte dos pais precisa continuar. O mundo oferece mais coisas, nunca devemos nos comparar. Antes se falava ‘não aceite carona de estranhos’, e hoje há o Uber. Os pais precisam se colocar no lugar de seus filhos adolescentes e tentar entendê-los, mas estipular horários para estudar, controlar o uso do computador e celular. Regras precisam existir, os adolescentes precisam de limites. A adolescência é rebeldia, ‘quero tudo’, inconsequência, a parte hormonal e química a mil, transformação do corpo. Cada família tem um jeito de convivência diferente, mas sempre digo que os pais precisam incluir seus filhos adolescentes em suas vidas, ir no quarto, conversar, criar vínculos. O adolescente não gosta muito de diálogo, mas é preciso exercitar isso. Dar uma volta em família, mostrar que quer a companhia dele mesmo se ele se mostrar resistente, jogar videogame com ele, assistirem séries juntos, cozinhar, ouvir música. É preciso ter algo que vincule o pai com o filho, buscar coisas em comuns, afinidades. O vínculo de confiança é fundamental para o desenvolvimento para a vida adulta. E se você acha que não conseguirá isso sozinho, procure ajuda profissional [psicólogo e/ou psiquiatra], isso pode ser o diferencial. Há muitos recursos hoje, como terapia online, para não ficar no sofrimento – que existe, mas não deve ser permanente. A tristeza é inerente do ser humano, e não pode estar alinhada ao ‘ter’ para ser feliz. O materialismo nem sempre supre tudo, e aí vem a depressão e a ansiedade”.


Conselho Tutelar alerta para trabalho infantil nos semáforos da cidade

O Conselho Tutelar de Balneário Camboriú também atendeu, em 2020, casos envolvendo possível quadro de depressão (13 adolescentes e cinco crianças), ansiedade (10 adolescentes e três crianças), automutilação/flagelo (sete adolescentes e três crianças). Os números, mesmo pequenos em consideração às outras entidades, já que não são de competência direta do Conselho, foram maiores do que 2019, onde o órgão atendeu cinco casos de depressão envolvendo adolescentes, dois de ansiedade e dois de automutilação – também envolvendo adolescentes. Chama a atenção que em 2019 não houve nenhuma criança com depressão, ansiedade ou envolvida em automutilação, já em 2020 sim.

Maurício Rafael Moreno Coelho, presidente do Conselho Tutelar de Balneário Camboriú

O presidente do Conselho Tutelar, Maurício Rafael (Divulgação/Arquivo pessoal)

“Houve um aumento bastante significativo, principalmente com adolescentes – eles são muito mais suscetíveis a falta de interação social, então a questão do isolamento aumentou esse distanciamento dos colegas de escola. A vida social para o adolescente é muito importante, porque é ali que ele está construindo a sua identidade, então o isolamento social realmente afetou muito o emocional e o psicológico dos adolescentes. A principal ocorrência que nós temos atendido na rua hoje é em relação ao trabalho infantil nos semáforos, crianças e adolescentes vendendo balinhas, enfim, o que constitui crime – crianças e adolescentes menores de 14 anos não podem trabalhar, ainda mais nessas condições, que são de extrema vulnerabilidade. A gente sabe que essas crianças e adolescentes são invisíveis para a sociedade estando nessa situação, eles também não têm noção dos perigos que eles correm estando ali. Então, se alguém falar, ‘olha, vou comprar todas as suas balinhas, mas o meu dinheiro está em casa, entra aqui no carro que eu te levo’. A criança vai entrar e ninguém nunca mais vai ver essa criança, talvez ninguém perceba que essa criança está entrando no carro de um estranho ali no semáforo, porque eles são invisíveis. Então, normalmente quando atuamos nessas ocorrências, a gente recebe alguns questionamentos, às vezes até a fala dos pais, pois levamos elas em casa, para ver se ela não está trabalhando por conta de uma exploração infantil. Muitos casos, se a criança ou adolescente chegar em casa sem o dinheiro, sem ter vendido, sem ter trabalhado, ela vai sofrer violência física. Pegamos as crianças, levamos no Conselho, para que os pais venham buscá-las aqui para que possamos adverti-los, ou levamos em casa. Em caso de reincidência, tomamos as medidas cabíveis. Fica o alerta para a população: não compre nada de crianças ou adolescentes no farol, porque isso incentiva que ela esteja ali, eles acabam fazendo muito dinheiro e isso acaba se tornando uma profissão para eles. Muitos estão fora da escola, e já podemos saber que futuro vai ter uma criança sem estudar. Criança tem que brincar e estudar, quem tem que trabalhar para supri-las são os adultos. Se o adulto está faltando, então o Estado tem que entrar para trazer a provisão, o sustento mínimo dessa família, como existem aí tantas bolsas, os programas sociais, para garantir que a criança esteja estudando. Situações envolvendo tráfico de drogas, furtos e roubos, com menores de idade são de competência da segurança pública. Eu sempre digo, usando de exemplo, que o Conselho Tutelar é o Procon das crianças e adolescentes. O que o Procon faz: garante o direito do consumidor, assim é o Conselho Tutelar, que tem responsabilidade de garantir os direitos que, se forem infringidos em situações envolvendo infrações, aí intervimos, para mudar o futuro desse adolescente. O diálogo entre pais e filhos é o principal na educação de crianças e adolescentes, essa interação é extremamente necessária, é crucial, porque se o pai e a mãe não derem a devida atenção, construindo princípios e valores, eles vão buscar isso em outros lugares, construindo de outra maneira. O que a gente mais vê, no Conselho Tutelar, são pais e mães que não dão a devida atenção, não dialogam, não criam laços com os seus filhos, que caem ‘mundo a fora’, são levados por outras influências. Os pais querem retomar, na iminência do perigo, mas não existe nada construído para ser retomado. Os pais precisam regrar, dosar as tecnologias e internet, ensinando-os o que podem e não podem, devem e não devem visitar na internet. Não pratique o abandono digital de incapazes, você está expondo ele a um perigo que você sabe que existe. A internet é um grande fator de separação das famílias hoje, cada um no seu celular, sem interação. Interrompa isso hoje, para que você não tenha distanciamento com o seu filho, com outras pessoas ganhando a confiança dele e inserindo outros tipos de valores na vida do seu filho”.


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