O que uma cidade descarta não desaparece quando sai de uma casa, de uma escola ou da vista de quem passa pela rua. O esgoto precisa ser coletado e tratado. Os resíduos precisam de recolhimento e destinação adequada. Quando essas etapas falham, parte do que deveria ser administrado pela infraestrutura urbana passa a circular pelo ambiente, e suas consequências podem alcançar a água, a saúde das pessoas e os animais.

Em Santa Catarina, essa conexão expõe uma contradição. O estado mantém indicadores econômicos e de emprego de destaque, mas continua longe de oferecer acesso amplo ao esgotamento sanitário. Em fevereiro de 2026, o Tribunal de Contas do Estado informou que menos de 36% dos catarinenses contavam com o serviço de coleta e tratamento de esgoto, ao mobilizar agências reguladoras para discutir o cumprimento das metas nacionais.
As consequências ultrapassam o atendimento de cada imóvel. A contaminação da água e o descarte inadequado de resíduos conectam problemas que muitas vezes são tratados separadamente: doenças, condições sanitárias nas escolas, qualidade dos rios, segurança para o banho e impactos sobre a vida marinha.
Entender como está o saneamento catarinense exige acompanhar esse percurso. Da água que chega às pessoas ao destino do que elas descartam, a qualidade de vida depende de serviços que precisam funcionar em conjunto.
Um estado que cresce também precisa ampliar sua infraestrutura
Santa Catarina continua atraindo moradores e movimentando sua economia. O portal Cidades e Estados, do IBGE, apresenta uma população estimada de 8.312.759 habitantes em 2026. No Censo de 2022, eram 7.610.361 pessoas. Os levantamentos têm naturezas distintas, um é estimativa anual, o outro é recenseamento, mas dimensionam a população que os serviços públicos precisam atender.
A migração também ajuda a explicar essa demanda. Entre 2017 e 2022, o estado recebeu 503.580 pessoas de outras unidades da Federação, enquanto 149.230 saíram, resultando em saldo positivo de 354.350 moradores, o maior do país. A liderança catarinense está no saldo entre entradas e saídas, e não no número bruto de pessoas recebidas.

Na economia, estimativas publicadas pela Fundação Getulio Vargas apontam crescimento de 2,2% do PIB catarinense no segundo trimestre de 2026, frente ao mesmo período de 2025. O resultado ficou acima dos 2% nacionais, com os serviços respondendo por cerca de 80% da expansão estadual.
O mercado de trabalho mantém resultados expressivos. Santa Catarina registrou a menor taxa de desemprego entre os estados no segundo trimestre de 2026, 2,1%, segundo a PNAD Contínua. Entre janeiro e agosto, o saldo de empregos formais foi de 66.906 vagas, conforme análise da Federação das Indústrias de Santa Catarina com base no Novo Caged.
Esses indicadores mostram a dimensão do desenvolvimento catarinense. Também colocam uma exigência sobre o planejamento: o crescimento da população e das atividades econômicas precisa ser acompanhado pela capacidade de fornecer água, tratar esgoto, administrar resíduos e manejar as águas das chuvas.
Saneamento envolve água, esgoto, lixo e drenagem
Na legislação brasileira, saneamento básico reúne quatro componentes: abastecimento de água potável; esgotamento sanitário; limpeza urbana e manejo de resíduos sólidos; e drenagem e manejo das águas pluviais urbanas. Essa definição orienta o Plano Nacional de Saneamento Básico, o Plansab.

A distinção importa porque o atendimento em uma área não garante o funcionamento das demais. Uma cidade pode ter água distribuída pela rede e cobertura insuficiente de esgoto. Pode recolher resíduos nas casas e ainda enfrentar descarte irregular em espaços públicos. Pode possuir galerias de drenagem que recebem materiais contaminados e os transportam para os corpos d’água.
Cada serviço tem indicadores próprios, mas seus efeitos se encontram no território. A avaliação do saneamento precisa considerar tanto a infraestrutura disponível quanto sua operação, manutenção e resultado ambiental.
O esgoto continua sendo uma lacuna central
A cobertura da rede é um dos principais sinais dessa distância. O alerta do TCE/SC, publicado em fevereiro de 2026, coloca o atendimento catarinense abaixo de 36% e destaca a necessidade de diagnósticos mais precisos e atuação conjunta entre gestores e reguladores. A reunião também abordou soluções alternativas já utilizadas nos municípios, cuja validação exige regulamentação.

Outro recorte aparece no estudo ‘Benefícios Econômicos da Expansão do Saneamento em Santa Catarina’, publicado pelo Instituto Trata Brasil em março de 2026, com dados de 2024. A tabela que considera a população total estadual registra 2.235.412 pessoas com acesso à coleta, aproximadamente 27,7% de 8.058.441 habitantes, e um déficit de 5.823.029 pessoas
Também é necessário separar coleta de tratamento. No mesmo estudo, SC trata 94,7% do volume coletado, mas o volume tratado corresponde a 30,4% da água consumida, indicador utilizado para dimensionar o tratamento em relação à geração estimada de esgoto. São medidas diferentes: uma descreve o destino do que entrou no sistema; a outra evidencia a distância em relação ao conjunto.
Fora da rede, a qualidade das soluções também precisa ser demonstrada
Ausência de ligação à rede pública não significa, por si só, ausência de qualquer tratamento. Sistemas individuais, como fossas sépticas adequadas, podem integrar o atendimento sanitário. A Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico distingue essas soluções do esgoto coletado sem tratamento e das situações sem atendimento.
Por isso, avaliar uma residência, escola ou comunidade exige identificar qual sistema existe e como ele funciona. A presença de uma estrutura individual precisa vir acompanhada de condições adequadas de operação e manutenção.

São Ludgero oferece um exemplo dessa discussão. O Samae apresenta o município como o primeiro de Santa Catarina a alcançar tratamento de esgoto nas áreas urbana e rural, combinando rede e sistemas individuais. Em 10 de setembro de 2026, foi publicada a Lei municipal 2.441, que institui o Projeto +Saneamento e estabelece o regime de prestação do serviço por soluções individuais em áreas não atendidas pela rede pública.
A experiência aponta para uma questão que acompanha a universalização: além de ampliar estruturas, é preciso manter o atendimento ao longo do tempo e verificar o desempenho das soluções adotadas.
Em Bombinhas, a rede na rua precisa se transformar em ligação dentro dos imóveis
A expansão do esgotamento sanitário depende de uma etapa que acontece dentro de cada propriedade. Mesmo depois da instalação das tubulações na rua, o esgoto de uma casa, prédio ou estabelecimento só chega ao sistema coletivo quando suas instalações estão conectadas corretamente à rede liberada para uso.

Em Bombinhas, essa diferença está no centro da campanha “Ligação certa, cidade protegida”, promovida pela Águas de Bombinhas nos bairros Centro e Quatro Ilhas. A iniciativa combina orientação e inspeções nos imóveis para verificar as conexões e identificar situações que precisam de adequação.
Segundo a concessionária, os moradores cujas propriedades apresentam ligação correta recebem um certificado de conformidade. Nos demais casos, as equipes orientam sobre as intervenções necessárias. A certificação verifica a conexão do imóvel; não substitui a avaliação do desempenho do sistema de tratamento.
Joana Andreazza Claudino, gerente de planejamento da Aegea, explica que a fiscalização busca conferir o caminho percorrido pelo esgoto desde sua origem.

“Muita gente acha que só passar a rede na rua já é o suficiente. Não é. Precisa dar a ligação adequadamente, separar o que é drenagem do esgoto”, afirma.
A visita a cada propriedade permite verificar uma condição que os números de expansão da infraestrutura, sozinhos, não demonstram: se o esgoto produzido ali está efetivamente entrando na rede coletora.
O problema pode aparecer longe de onde o esgoto foi produzido
Na avaliação de Joana, o desconhecimento sobre as instalações dos imóveis ajuda a explicar parte das conexões que ainda precisam ser regularizadas. Em propriedades que já utilizavam sistemas individuais, o morador pode não perceber um problema imediato diante da própria casa.

“Ele não vê aquele impacto direto na frente da casa dele, mas ele vê o impacto direto duas, três quadras ali na frente da praia”, comenta.
A gerente relata a existência de imóveis com esgoto direcionado à drenagem, situação que pode transportar os efluentes para rios, córregos e praias. A implantação da rede coletora precisa, portanto, ser acompanhada da correção dessas instalações.

Bombinhas também enfrenta uma particularidade das cidades turísticas: propriedades que permanecem fechadas durante parte do ano e recebem moradores ou visitantes na temporada. Segundo Joana, essa ocupação dificulta o contato com alguns responsáveis e pode atrasar as adequações.
“Às vezes a casa está fechada por vários meses”, diz.
Ela explica que há proprietários que só descobrem a necessidade de intervenção quando retornam ao município. Se a obra interna é adiada para depois das férias, o imóvel pode continuar sendo utilizado durante o período de maior movimento sem a conexão adequada.
Por isso, a concessionária orienta os clientes a manter os cadastros atualizados e acompanhar os comunicados, inclusive nas faturas eletrônicas, mesmo quando não residem permanentemente na cidade.
A tubulação instalada não significa que a ligação já está liberada
Outro ponto de atenção é o momento de conectar a propriedade. A passagem de uma frente de obras pela rua não significa, necessariamente, que todo o sistema esteja pronto para receber o esgoto.
Além das redes coletoras, o funcionamento depende de outras estruturas, como estações elevatórias, responsáveis por transportar o esgoto nos trechos em que ele precisa ser bombeado, e da estação de tratamento.

“Não é que passou a rede que todos os pontos já estão ligados”, explica Joana.
Segundo ela, a concessionária comunica quando o imóvel está apto à conexão e informa o cliente com 30 dias de antecedência. A orientação é aguardar essa liberação e esclarecer eventuais dúvidas pelos canais de atendimento.
A partir daí, cabe ao responsável pelo imóvel providenciar as adequações internas para encaminhar o esgoto à caixa de inspeção disponibilizada pela empresa. Joana afirma que a duração dos serviços depende das características da propriedade: prédios e instalações com dificuldades técnicas podem exigir intervenções mais complexas.
Esgoto e água da chuva precisam seguir caminhos separados
As inspeções também procuram identificar ligações de água da chuva à rede de esgoto. A separação deve funcionar nos dois sentidos: o esgoto doméstico precisa seguir para a rede coletora, enquanto a água pluvial deve ser encaminhada à drenagem.
Na entrevista, Joana aponta ainda problemas relacionados ao descarte de resíduos nas instalações sanitárias e à ausência ou falta de limpeza das caixas de gordura.
A campanha inclui orientação sobre esses cuidados porque a conexão correta não encerra a responsabilidade pelo uso das instalações. A manutenção e o descarte adequado também fazem parte do funcionamento do sistema.

A presidente da Casa do Empresário de Bombinhas, Andressa Ferreira, que participou de reuniões sobre a iniciativa, reforça a importância de atender às notificações recebidas pelos proprietários.
“Se o proprietário recebeu uma notificação, é fundamental não deixar o assunto parado. A orientação é entrar em contato com a Águas de Bombinhas para entender o que precisa ser corrigido e regularizar a situação”, afirma.
Segundo Andressa, a entidade também auxilia no acesso a profissionais capacitados pelo Senai para executar as adequações.
Depois da conexão, a orientação é desativar a fossa
Para os imóveis do Centro e de Quatro Ilhas já corretamente interligados ao sistema coletivo, a Águas de Bombinhas orienta a desativação das fossas individuais.
A recomendação é específica para as propriedades com rede disponível, liberada e conexão concluída. A ligação deve encaminhar o esgoto diretamente à rede coletora, seguindo as orientações técnicas, sem utilizar a antiga fossa como passagem.
“O morador não deve ligar a fossa à rede de esgoto. O correto é fazer a interligação do imóvel diretamente à rede coletora e, depois disso, realizar a desativação da fossa”, explica Daniel Machado, coordenador de operações da concessionária.

Joana também destaca que os sistemas individuais exigem manutenção e limpeza periódicas. Sua preocupação está nas situações em que essas estruturas funcionam sem os cuidados necessários ou apresentam destinação inadequada dos efluentes.
A avaliação precisa considerar as condições de cada instalação. A existência de uma fossa, por si só, não demonstra tratamento adequado nem permite concluir que todo o esgoto esteja sendo lançado diretamente no ambiente.
Expansão prevê R$ 180 milhões e universalização em 2029
Segundo informações divulgadas pela Águas de Bombinhas, o conjunto de investimentos no esgotamento sanitário do município soma R$ 180 milhões.
A concessionária também informa a instalação de mais de 15 quilômetros de novas tubulações no período citado em seu balanço de obras e o avanço da preparação do terreno para uma nova Estação de Tratamento de Esgoto no bairro José Amândio, em área contígua à estação atual.

A estrutura foi anunciada com capacidade de tratamento de até 165 litros por segundo quando estiver totalmente implantada, utilizando a tecnologia de lodos ativados por bateladas.
Na entrevista, Joana aponta 2029 como previsão de universalização do esgotamento sanitário em Bombinhas. O prazo representa uma meta informada pela empresa, cujo cumprimento precisará ser acompanhado pela expansão, entrada em operação e atendimento efetivo dos imóveis.
A experiência de Bombinhas evidencia por que essas medidas precisam ser acompanhadas separadamente: quilômetros de rede instalada, capacidade de tratamento e ligações efetivadas descrevem etapas distintas do serviço.
Educação ambiental também entra nessa conexão
Além das visitas aos imóveis, Joana relata ações educativas nas escolas sobre o uso das instalações sanitárias. Uma das campanhas utiliza personagens chamados “vilões do esgoto” para explicar às crianças problemas como o descarte de lixo e a mistura entre drenagem e esgotamento.

Segundo ela, as iniciativas são complementares: a abordagem nas escolas trabalha a compreensão e os hábitos, enquanto as inspeções verificam as condições das propriedades e orientam intervenções.
Para a gerente, aproximar a concessionária dos moradores e dos líderes comunitários ajuda a transformar a informação em adequações concretas.
As consequências chegam à saúde
O impacto sanitário aparece em registros de adoecimento. Segundo levantamento divulgado pelo Instituto Trata Brasil em maio de 2026, com informações do Datasus presentes no Painel Saneamento Brasil, Santa Catarina registrou quase 12 mil internações por doenças de veiculação hídrica em 2024, além de 182 mortes relacionadas a essas doenças. Esses números dimensionam um conjunto de doenças associado à água e às condições sanitárias.
A vigilância estadual também mostra a dimensão das doenças de transmissão hídrica e alimentar. No Informe Epidemiológico nº 12/2026, a Diretoria de Vigilância Epidemiológica registrou 290 surtos notificados em 2025 e 148 até a semana epidemiológica 17 de 2026. O documento identifica maior concentração de atendimentos por doenças diarreicas agudas na Foz do Rio Itajaí e na Grande Florianópolis. A DIVE relaciona esse padrão, entre outros fatores, ao adensamento populacional, à circulação de pessoas e à cobertura da vigilância. Os registros abrangem diferentes formas de transmissão, e não apenas contato com esgoto.

Nas escolas, o avanço no abastecimento ainda deixa lacunas
As condições sanitárias também fazem parte da infraestrutura necessária para estudar. Água para beber, higiene e funcionamento dos banheiros precisa ser avaliada junto do esgotamento e da destinação dos resíduos.
Em março de 2026, o Ministério Público de Santa Catarina divulgou resultados do projeto Sede de Aprender, com base no Censo Escolar 2025. Segundo o órgão, o estado zerou o número de escolas públicas sem abastecimento de água, que passou de duas para nenhuma.
O fornecimento de água potável, porém, ainda apresentava déficit. No comparativo divulgado pelo MPSC, o número de escolas públicas que não forneciam água potável caiu de 69 para 12. A quantidade de alunos afetados diminuiu de 13.906 para 1.483.
Os resultados mostram avanço e uma diferença essencial: possuir abastecimento não assegura, sozinho, o fornecimento de água potável. Também não comprova a adequação de todo o saneamento escolar.
É nesse espaço entre o indicador e o funcionamento cotidiano que a realidade de cada unidade precisa ser observada: de onde vem a água, quais condições sanitárias estão disponíveis e qual é o destino do esgoto e dos resíduos produzidos.
Os rios recebem uma carga que altera a qualidade da água
O esgoto doméstico contém matéria orgânica e nutrientes. A Agência Nacional de Águas explica que a decomposição da matéria orgânica demanda oxigênio e que o lançamento de nutrientes, como nitrogênio e fósforo, em grandes quantidades pode provocar crescimento excessivo de algas, processo chamado eutrofização.
Essas alterações podem prejudicar o abastecimento, a recreação e a preservação da vida aquática. A qualidade da água depende, portanto, não apenas da existência de uma estação, mas da carga recebida pelo corpo d’água e da capacidade do tratamento de reduzi-la.

O rio conecta diferentes partes de uma bacia. A proteção de um trecho não pode ser avaliada isoladamente das descargas e das condições de ocupação ao longo de seu percurso.
Na bacia do Rio Camboriú, a infraestrutura de esgoto segue como algo pendente. Em 22 de setembro deste ano, a Prefeitura de Camboriú informou que prorrogou até o dia 30 daquele mês o prazo para a Câmara apresentar uma área alternativa para a futura ETE principal. A proposta então discutida envolvia um terreno disponibilizado pelo Instituto Federal Catarinense.

Enquanto a estrutura principal permanece em discussão, a concessionária já operava sistemas próprios em nove loteamentos, após assumir as ETEs Rio Moriah e Rio Amazonas em abril de 2026.
A balneabilidade mostra uma parte das consequências
No litoral, o monitoramento da água oferece um retrato periódico das condições para banho. No relatório de 2 de outubro de 2026, o IMA apresentou 172 pontos próprios e 88 impróprios, correspondentes a 66,2% e 33,8%, respectivamente, no quadro geral de 260 pontos. Esses percentuais se referem aos locais monitorados, não à proporção de praias inteiras ou à extensão do litoral. O documento informou ainda o início das amostragens semanais consecutivas para a temporada 2026/2027, cujo primeiro relatório está previsto para 30 de outubro.

O IMA também recomenda evitar o banho nas primeiras 24 a 48 horas após chuvas intensas, especialmente perto de canais e galerias, porque a chuva transporta materiais contaminados.
O lixo também faz parte dessa história
Resíduos sólidos entram no ambiente marinho por diferentes caminhos. O ICMBio identifica fontes terrestres, como cidades costeiras, frequentadores de praias, rios e sistemas de drenagem, além de fontes no próprio mar, como embarcações e atividades pesqueiras.

Em Balneário Camboriú, ações de limpeza de costões realizadas por mergulhadores da Univali retiraram cerca de seis toneladas de resíduos entre 2022 e 2026. Aproximadamente 40% do material foi recolhido na parte submersa dos costões. Entre os itens mais encontrados estavam plásticos e materiais relacionados à pesca, além de vidro, cerâmica, metais, tecidos e borrachas.

Outro exemplo é o Rio Camboriú – anualmente uma ação de limpeza é realizada nele, e neste ano de 2026 (no Dia Mundial da Água, 22 de março) mobilizou mais de mil voluntários em 10 pontos de Balneário Camboriú (nove) e Camboriú (um).
Além do rio principal, a ação contemplou o Parque Linear de Camboriú, o Rio Marambaia (Rua Julieta Lins e nascente dentro do Colégio Vereador Santa, com plantio de 15 árvores frutíferas), Bairro da Barra (Praça do Pescador), Rio das Ostras, Rio Peroba (extensão da Sexta Avenida), Estaleirinho (nascentes Ribeirão Estaleirinho), Taquaras, Estaleiro (limpeza ao lado do lago da Mariquinha e na parte Sul da Praia do Estaleiro) e Beira Rio (Avenida Normando Tedesco).
Em 2025, foram retirados somente do Rio Camboriú duas toneladas de lixo, neste ano com a ampliação e mais pontos, foram retiradas 5,9 toneladas de resíduos.

Um dos destaques da ação de limpeza foi a área de invasão encontrada em uma trilha em uma das margens do rio, em um terreno com acesso pela Rua Barra Velha, no Bairro dos Municípios, onde havia muito lixo e até mesmo casas sendo construídas em cima de árvores, indicando que o local poderia ser um ‘acampamento’ de pessoas em situação de rua, por conta da presença de materiais possivelmente furtados/roubados.

A prefeita de Balneário Camboriú, Juliana Pavan, esteve presente no momento e não escondeu o choque e disse que a situação é ‘inaceitável’ e ‘preocupante’. Ela afirmou que é preocupante porque grande parte do lixo que estava lá, se não fosse recolhido, iria para o Rio Camboriú ou ficaria no local poluindo. “Eu não sei se a palavra que define o que sinto seria revolta ou preocupação, porque é de conhecimento que se poluir nossos rios irá afetar a sua vida. Há muitas pessoas fazendo sua parte, mas infelizmente no meio disso tudo existem pessoas podres, que não fazem a sua parte, que tentam contaminar, mas é muito importante nos conscientizarmos, sair do discurso e partir para a ação – ambas as Camboriús, como estamos fazendo. Porém, não basta mil pessoas, todo mundo precisa fazer”, disse.
O Página 3 acompanha anualmente as ações de limpeza do rio, e algo surpreendentemente comum é a presença de descartes como colchões, geladeiras (ou pedaços delas), tampas de vasos sanitários, além de muito plástico como garrafas e sacolas. Neste ano foram encontradas também muitas cadeiras, roupas e até parte de uma pia.

O prefeito de Camboriú, Leonel Pavan, também acompanhou a ação e disse que quando traçou junto com sua filha e prefeita de Balneário, Juliana, um governo integrado, definiram alguns pilares prioritários, como os acessos da infraestrutura, educação, saúde, mas entre isso se destaca a limpeza do Rio Camboriú. “O Rio Camboriú é um dos mais curtos do Brasil, mas que é o nosso pulmão. Sem o Rio Camboriú, 90% da cidade de BC está desassistida, sem o Rio Camboriú, nós também lá em Camboriú estaremos desassistidos. É fundamental essa integração para manter este rio limpo. Mas não adianta só os dois prefeitos, os governos – nós precisamos da comunidade. Esta parceria precisa ter sequência. Teve o primeiro ano, o segundo ano e que seja eternamente, cuidando daquilo que nos alimenta, que é a água do Rio Camboriú”, afirmou.
No estômago de um golfinho, o plástico mostra uma consequência do descarte
Um golfinho encontrado vivo em Itapema recebeu atendimento, foi estabilizado e transferido para Florianópolis, em uma ação conjunta com a Associação R3 Animal. Apesar dos esforços, morreu. Na necropsia, a equipe encontrou sacolas plásticas em seu estômago.

O episódio é um dos que marcaram Jeferson Luis Dick, coordenador da Unidade de Estabilização de Animais Marinhos da Univali, em Penha. Segundo ele, os exames permitiram relacionar a ingestão dos resíduos à morte do animal. “Quando a gente fez a necropsia desse animal, a gente descobriu que ele estava cheio de sacola plástica dentro do estômago”, relata.

O caso dá uma dimensão concreta ao destino do lixo que chega ao mar. Para a fauna, materiais descartados podem provocar lesões, aprisionamento e problemas digestivos. Alguns danos aparecem rapidamente; outros se desenvolvem à medida que os resíduos permanecem no organismo e comprometem sua saúde.
Jeferson explica que animais também podem ficar presos em cabos, sacolas e artefatos de pesca abandonados, conhecidos como pesca fantasma. Nas situações de ingestão, o problema pode evoluir por um período prolongado até se tornar irreversível. O que parece um objeto sem utilidade para quem descarta pode se transformar em um obstáculo à sobrevivência de um animal.

O monitoramento investiga as causas de cada ocorrência
A Univali desenvolve atividades de resgate e reabilitação de fauna marinha em Penha desde 1995, segundo Jeferson. Em 2015, a entrada do Projeto de Monitoramento de Praias da Bacia de Santos, o PMP-BS, ampliou a estrutura e a possibilidade de estudar os animais encontrados no litoral.
O projeto integra uma condicionante do licenciamento ambiental federal das atividades de produção e escoamento de petróleo e gás da Petrobras na Bacia de Santos, conduzido pelo Ibama. Seu trabalho acompanha aves, tartarugas e mamíferos marinhos, com atendimento aos animais vivos debilitados e avaliação dos mortos.

Na área acompanhada pela equipe, entre Governador Celso Ramos e Barra Velha, Jeferson estima aproximadamente duas mil ocorrências anuais, com variações que podem chegar a três mil, dependendo do ano. Segundo ele, cerca de 90% envolvem animais encontrados mortos. As carcaças em condições adequadas para exame passam por necropsia. A análise permite observar órgãos, lesões, presença de resíduos e outros sinais para investigar a condição de saúde e a causa da morte.
Essa investigação também evita atribuir todos os encalhes à poluição. Jeferson explica que os animais podem apresentar doenças, deficiência nutricional, exaustão durante deslocamentos ou outras condições sem relação identificada com atividades humanas.

Um episódio que marcou a equipe foi o encalhe de uma baleia viva em Barra Velha, em 2017. Com peso estimado entre dez e 12 toneladas, ela mobilizou embarcações, equipamentos e pessoas em duas tentativas de devolução ao mar. O animal voltou a encalhar e morreu. Segundo o coordenador, não foram identificados indícios de interação humana naquele caso.
Interação humana não significa apenas lixo ingerido
Durante a entrevista, Jeferson estimou que entre 30% e 50% dos animais examinados apresentavam algum tipo de interação com atividades humanas. A faixa é uma estimativa do coordenador e reúne situações diferentes. Ela não corresponde ao percentual de animais com plástico no estômago nem significa que todas essas interações tenham causado a morte. Pode incluir ingestão de resíduos, emaranhamento e outras ocorrências, com diferentes graus de dano. “Tem interações com lixo, por exemplo, que às vezes o animal vai expelir aquele lixo depois”, explica.

Em outros casos, como o do golfinho encontrado em Itapema, os danos são graves e a investigação permite identificar uma consequência fatal.
Para Jeferson, parte dessas ocorrências poderia ser evitada com melhor gestão dos resíduos. Ele destaca que o material não precisa ser lançado diretamente na praia para alcançar o oceano: resíduos deixados em quintais e outros espaços podem ser espalhados pelo vento ou transportados pela água até canais e rios.
A reabilitação busca devolver os animais à natureza
Os animais encontrados vivos passam por avaliação veterinária e recebem cuidados de acordo com suas necessidades. O atendimento pode envolver medicação, alimentação, exames e espaços adequados, incluindo piscinas.
Segundo Jeferson, aproximadamente 200 a 300 animais ingressam anualmente em reabilitação na unidade, e cerca de metade consegue se recuperar para retornar à natureza. Os números foram apresentados como médias aproximadas e variam conforme as ocorrências e a gravidade dos casos.
A dificuldade começa na condição em que muitos chegam. Animais silvestres podem permanecer no ambiente até um estágio avançado de debilidade, quando já não conseguem nadar ou se alimentar adequadamente. O tratamento também pode ser longo. No caso das tartarugas, a recuperação pode levar meses, conforme o quadro clínico. “A Univali tem como objetivo a reabilitação para soltura, a devolução desse animal para a natureza depois”, afirma o coordenador.
Nem todo animal encontrado na areia, porém, precisa ser recolhido. Jeferson explica que lobos, leões e elefantes-marinhos utilizam também o ambiente terrestre e podem sair da água para descansar. A avaliação da equipe permite diferenciar esse comportamento das situações que exigem intervenção.

A poluição também pode afetar as condições de saúde
Além dos danos provocados por resíduos, os entrevistados destacam a importância da qualidade do ambiente em que os animais vivem. A bióloga Isabela dos Santos Davi, assistente técnica do PMP, cita a fibropapilomatose, doença que provoca tumores em tartarugas marinhas, ao abordar os possíveis efeitos da degradação ambiental.

A relação exige uma distinção: a doença está associada a um herpesvírus, e seu desenvolvimento envolve múltiplos fatores ainda investigados. A NOAA, agência norte-americana de oceanos e atmosfera, aponta estudos que sugerem relações com a poluição e outras alterações ambientais. Isso não permite afirmar que o esgoto, isoladamente, cause os tumores.

Jeferson também observa que a perda de qualidade ambiental pode tornar os animais mais suscetíveis a problemas de saúde. Na sua avaliação, o saneamento precisa ser tratado como uma questão que aproxima a proteção da fauna e a saúde das pessoas. “Acho que saneamento básico é algo que devia estar em primeiro lugar nas mesas dos administradores públicos”, afirma.
Da necropsia à sala de aula: os sinais do descarte ajudam a ensinar
Parte das evidências encontradas no trabalho com os animais também chega aos estudantes. Nas atividades de educação ambiental do PMP, resíduos retirados durante necropsias ajudam a mostrar o que pode acontecer depois que o lixo deixa o campo de visão de quem o descartou.

Segundo Isabela, a proposta é aproximar a rotina das pessoas das consequências para o ambiente marinho. “Às vezes as pessoas não têm essa ligação das nossas rotinas diárias e como isso pode impactar o ambiente marinho. E isso está diretamente ligado”, afirma.
As visitas à estrutura da Univali em Penha são gratuitas e organizadas por agendamento. A atividade dura aproximadamente uma hora a uma hora e 20 minutos, começando pela sala temática, com exposição de animais, e seguindo para o auditório. Ali, os estudantes conhecem o funcionamento do projeto, histórias de animais que passaram pela reabilitação e situações de interação com atividades humanas. Isabela relata que a apresentação dos resíduos encontrados nos exames provoca uma reação particular nos visitantes: eles passam a perguntar o que podem mudar no próprio cotidiano para reduzir os impactos.
O cuidado com o mar começa também longe da praia
A bióloga ressalta que a responsabilidade pela poluição marinha não se limita a quem mora no litoral ou frequenta a praia. Os rios conectam municípios do interior à costa e podem transportar resíduos ao longo desse percurso. Ela descreve um caminho possível: o lixo fica espalhado na rua, é carregado pelo vento ou pela chuva, alcança a drenagem e segue até o mar.

Por isso, a educação ambiental inclui ações anteriores ao descarte. Isabela destaca a redução do consumo de plástico e a separação dos resíduos em casa, com atenção às pessoas que trabalham na coleta e na reciclagem. Ao falar sobre os materiais recicláveis, ela propõe que os estudantes reconheçam também seu valor para outras famílias: o que foi descartado por uma pessoa pode se tornar fonte de renda para outra, quando separado e encaminhado adequadamente. “A educação ambiental é uma ferramenta muito fundamental para a gente aproximar a sociedade e a comunidade da questão do meio ambiente”, diz.

Para a professora, ver as consequências ajuda a compreender o problema
A professora Liziane Tamara Téo, da Escola do Mar, em Barra Velha, considera que a abordagem visual e lúdica facilita a compreensão dos estudantes sobre poluição e ações humanas na natureza. Ao conhecer os animais e os resíduos encontrados pela equipe, as crianças conseguem relacionar o descarte à vida de outras espécies. “Eles acabam entendendo que o lixo vai parar no convívio desses animais e eles não conseguem diferenciar para se alimentar”, comenta.

Para ela, a atividade oferece uma oportunidade de construir hábitos de cuidado. A professora também aproxima o debate sobre lixo da necessidade de esgotamento sanitário e da proteção das águas. Sua reflexão parte da conexão entre o que a sociedade descarta e o ambiente do qual depende. O material lançado inadequadamente continua circulando e pode produzir consequências em outros lugares. “Eu, como professora, preciso acreditar que eles vão ser melhores que nós”, afirma, ao falar sobre as novas gerações.
Recolher os resíduos precisa vir acompanhado de impedir novas entradas
Jeferson reconhece a importância de iniciativas que retiram lixo de rios e do oceano, mas ressalta que elas precisam ser acompanhadas pela redução da quantidade de material que chega ao ambiente. “Não adianta ficar tirando plástico do oceano se eu estou depositando plástico no oceano”, resume.

Para ele, contenção e recolhimento ajudam a reduzir danos já existentes, enquanto educação e gestão dos resíduos atuam sobre a continuidade do problema. No PMP, essa ligação aparece tanto nos exames quanto nas atividades com os estudantes. Os animais encontrados mostram consequências; a educação ambiental procura transformar esse conhecimento em cuidado antes que novas ocorrências aconteçam. “Os animais não podem sair do mar para pedir esse socorro, mas a gente é essa ferramenta por eles”, afirma Isabela.
Do teatro às conversas em casa: em Balneário Camboriú, educação ambiental começa com os pequenos

Não jogar lixo no rio, cuidar dos animais e entender que os resíduos precisam ter um destino adequado. No Núcleo de Educação Infantil (NEI) Bom Sucesso, no Bairro da Barra, em Balneário Camboriú, esses ensinamentos ganham personagens, histórias e espaço nas conversas das crianças.
O Página 3 acompanhou na unidade a apresentação da peça teatral A Velha Menina das Águas, uma das iniciativas da Gerência de Educação Ambiental da Empresa Municipal de Água e Saneamento (Emasa), que vem sendo apresentada em toda a rede municipal de Balneário. O trabalho aproxima o público infantil de um tema que atravessa toda esta reportagem: a conexão entre o que se descarta no dia a dia, a conservação dos rios e do mar e o funcionamento do saneamento.

Segundo Cynthia Lorga, gerente de educação ambiental da Emasa, a pauta “Lixo x Saneamento” orientou um trabalho intensivo em 2026, com o lançamento da revista Entre o Rio e o Mar: Aprendendo a Cuidar e a apresentação teatral. Nas duas iniciativas, a mascote Jacamasa ajuda a explicar o caminho dos resíduos e a responsabilidade de cada pessoa no cuidado com as águas. “Tudo o que vai para a rua e para o rio acaba chegando ao mar”, destaca a mensagem trabalhada nas atividades.

A proposta é tornar compreensível uma conexão que nem sempre aparece no momento do descarte. Um resíduo deixado na rua pode ser levado pelo vento ou pela chuva, alcançar a drenagem e seguir para os cursos d’água. Dentro de casa, materiais jogados no vaso sanitário também podem comprometer a infraestrutura que deveria transportar o esgoto até o tratamento.
O vaso sanitário também entra na história
Além das atividades sobre os rios e o mar, a Emasa desenvolveu a campanha institucional “Vaso Sanitário Não é Lixo”, com linguagem lúdica voltada especialmente às crianças.
Para apresentar o tema, foram criados o super-herói Comandante Fluxo e personagens que representam os chamados vilões do sistema de saneamento: papel higiênico, cotonetes, lenços umedecidos, absorventes, fraldas, fio dental, tufos de cabelo e preservativos. A Senhorita Lixeira completa a história, mostrando o destino desses materiais conforme a orientação da campanha.

A mensagem é que a rede de esgoto precisa receber o que foi projetada para transportar. Utilizar o vaso sanitário para descartar resíduos sólidos pode provocar problemas que ultrapassam os limites do imóvel. Segundo Cynthia, esses materiais causam obstruções, danos operacionais e aumento dos custos do sistema de tratamento quando são descartados inadequadamente. A campanha procura prevenir esses problemas a partir de uma mudança de comportamento que pode começar ainda na infância. “Desenvolver esse trabalho com o público infantil, além de gratificante, traz a segurança de estarmos formando verdadeiros agentes multiplicadores de boas práticas ambientais”, afirma.

A iniciativa evidencia uma dimensão do saneamento que depende da participação da população. A infraestrutura precisa ser acompanhada de orientação sobre seu uso: onde colocar os resíduos, o que pode comprometer a rede e por que uma atitude aparentemente pequena interfere no serviço utilizado por toda a cidade.
Uma parceria que continua depois da apresentação
Para Gabriela Mara Zandomenichi, gestora do NEI Bom Sucesso, o teatro ajuda a trabalhar assuntos que podem ser complexos até para os adultos. A parceria com a equipe de educação ambiental já acontecia em 2025, segue em 2026 e complementa as atividades desenvolvidas pela unidade. “Elas vêm trazendo todo esse conteúdo de uma forma muito lúdica, na forma de teatro, ensinando para as crianças. São temáticas que as crianças levam para as famílias, compartilham essas informações”, explica.

Segundo Gabriela, o aprendizado ultrapassa a apresentação e passa a fazer parte das conversas com a comunidade. A expectativa é manter a parceria e ampliar os temas abordados. “É uma coisa que vem agregar ao nosso trabalho pedagógico”, afirma.
A professora Raquel Ramos de Santos Rosa também destaca que o cuidado ambiental é trabalhado continuamente. O tema aparece na sala de referência, nos passeios e nas situações observadas pelas próprias crianças. “Esse trabalho é feito anualmente, é um trabalho contínuo. Não é uma vez no ano. A gente está sempre trabalhando, sempre lembrando”, conta.

Entre as atividades estão a identificação das lixeiras, a orientação sobre onde colocar os resíduos e as conversas sobre os efeitos do descarte inadequado. Os personagens ajudam a criar vínculos com essas mensagens: segundo Raquel, as crianças já associam a figura do jacaré ao cuidado com os rios e reconhecem Jacamasa de encontros anteriores.
Quando as crianças começam a cobrar os adultos
Durante a conversa com o Página 3, as crianças mostraram que a orientação para não jogar lixo no Rio Camboriú já faz parte do que aprenderam. Uma delas resumiu: “Não pode jogar lixo, se não polui”.

Outra relatou ter repreendido um primo depois que ele jogou uma caixa de suco em um rio durante um passeio. A história mostra como o aprendizado pode reaparecer longe do NEI, diante de uma situação concreta de descarte.
Raquel conta que esse olhar atento também acompanha o grupo nas saídas. As crianças percebem resíduos jogados no chão e chamam a atenção da professora. Em outro episódio, o aluno Benjamin Rosa chegou à sala indignado com o lixo acumulado ao redor de uma lixeira, questionando por que as pessoas não colocavam os materiais dentro dela. “Esse trabalho começa aqui, com os pequenininhos”, afirma a professora.

Na Barra, a proximidade com o Rio Camboriú permite relacionar as histórias e os personagens a um ambiente presente no cotidiano das crianças. O rio deixa de ser apenas um assunto apresentado em uma atividade: é um lugar sobre o qual elas podem observar, perguntar e conversar.

A participação das famílias amplia esse alcance. Segundo Raquel, as crianças levam para casa o que aprendem sobre o descarte correto e ajudam a mobilizar os adultos.
Da nascente ao mar, um caminho que elas começam a compreender
O contato com o território também faz parte desse trabalho. Uma visita a um rancho de pescadores da cidade, com aproximação à praia e aos pescadores, ficou entre as experiências mais lembradas pela turma neste ano. “Foi o passeio que marcou a turma. Volta e meia alguém pergunta quando a gente vai ao rancho de novo, quando vai poder ir à praia”, relata Raquel.

Na entrevista, as crianças também conversaram sobre o percurso do Rio Camboriú: a água que começa nos morros, os pequenos cursos que se encontram, o rio que ganha volume e sua chegada ao mar, na Barra.
Esse percurso ajuda a dar sentido à mensagem trabalhada pela Emasa. O cuidado com o mar começa antes da praia, nas ruas, nas margens dos rios e dentro das casas. Ao reconhecer esse caminho, as crianças passam a relacionar o lugar onde vivem às consequências do que é descartado.
El Niño aumenta a preocupação com a chuva e aproxima drenagem, lixo e saúde
A perspectiva de chuva acima da média no Sul do Brasil acrescenta urgência ao debate sobre saneamento em Santa Catarina. Com o El Niño em intensificação em 2026, a capacidade das cidades de escoar a água, reduzir as fontes de contaminação e preparar a população ganha importância diante dos riscos de alagamentos, enxurradas e inundações.

O fenômeno, caracterizado pelo aquecimento das águas do Pacífico Equatorial e por mudanças na circulação atmosférica, foi confirmado em junho. No início de outubro, o quarto boletim do Painel El Niño 2026–2027, produzido por instituições federais de meteorologia, recursos hídricos e prevenção de desastres, apontou probabilidade superior a 95% de um evento muito forte no trimestre outubro, novembro e dezembro, com permanência prevista pelo menos até o início de 2027.
Para o mesmo trimestre, a previsão climática indica maior probabilidade de chuvas acima da média na Região Sul. A classificação da intensidade se refere ao fenômeno no Pacífico; seus efeitos locais dependem também das condições meteorológicas e das características de cada território.

Em Santa Catarina, o Fórum Climático Catarinense já havia indicado aumento na frequência e na intensidade dos sistemas que provocam chuvas e tempestades durante a primavera. A avaliação, divulgada pela Defesa Civil estadual em agosto, apontou possibilidade de maior frequência de alagamentos, enxurradas e deslizamentos, especialmente em episódios de chuva intensa e persistente.
A previsão sazonal indica uma tendência e exige acompanhamento dos alertas ao longo do período. Não determina, antecipadamente, quando ou onde ocorrerá cada evento.
Quando a água transporta o que ficou no território
O manejo das águas pluviais é um dos quatro componentes do saneamento básico. Em períodos de chuva, resíduos acumulados nas ruas e em outros espaços podem ser transportados para galerias, canais e rios. A obstrução de dispositivos de drenagem pode dificultar o escoamento e agravar alagamentos.

O lixo, porém, não explica sozinho as inundações. A intensidade e a duração da chuva, a ocupação de áreas suscetíveis, a impermeabilização do solo, a capacidade das redes e o comportamento dos rios também precisam ser considerados.
Há ainda um risco sanitário. Quando a água alcança locais com resíduos, esgoto ou outros contaminantes, a exposição pode ultrapassar o ponto onde o material foi descartado.
A Diretoria de Vigilância Epidemiológica de Santa Catarina explica que a leptospirose é causada por bactérias presentes na urina de animais infectados, principalmente roedores. A transmissão ocorre frequentemente em enchentes, alagamentos ou no contato prolongado com água, lama e solo contaminados.
Esse cenário conecta serviços que precisam funcionar juntos: coleta e tratamento de esgoto, gestão dos resíduos e drenagem. Também aproxima a infraestrutura urbana da educação para o cuidado e a prevenção.
Em Camboriú, estudantes aprendem sobre riscos e levam a informação às famílias
Na E.B.M. Professor Artur Sichmann, em Camboriú, a preparação para situações de emergência faz parte do trabalho desenvolvido pelo professor Antônio Carlos Mesquita Leite, biólogo formado pela Universidade Federal do Paraná, com estudantes que participam do projeto Defesa Civil na Escola.

Durante a visita da reportagem, o grupo contou sobre apresentações feitas nas turmas para explicar as diferenças entre El Niño e La Niña, orientações de prevenção e formas de se preparar para emergências.

A possibilidade de chuva intensa provoca preocupação, mas os estudantes dizem que o conhecimento também ajuda a lidar com ela. “A gente está um pouco assustado, mas a gente também já sabe como se prevenir, como se cuidar e como se preparar”, relata Maria Clara Felicio Martins, de 12 anos, que está no sexto ano da escola.
Além de Maria Clara, entre os entrevistados estão Bryan Oliveira Dias, de 13 anos, que está no sétimo ano, Juan Pietro Santana Facundes, de 13 anos e também do sétimo ano, Nycoli Santos Escandiel, de 12 anos que está no sexto ano, Gabriele Mayer, de 12 anos e do sétimo ano, Pietra Viviani Cordeiro, de 12 anos e do sétimo ano e Isadora Sofia Aczenen, de 13 anos e também do sétimo ano.
Segundo o professor, o núcleo reúne atualmente 14 integrantes. Alguns acompanham as atividades desde o início do trabalho na escola, em 2025.
Da visita à Defesa Civil às apresentações em sala
Antônio explica que os estudantes conheceram estruturas de monitoramento de cheias em Camboriú, visitaram a Defesa Civil municipal e tiveram contato com o trabalho dos bombeiros. Também receberam explicações sobre os alertas e as situações de alagamento.

Depois das visitas, o conteúdo passou a ser trabalhado na escola e compartilhado com outras turmas. Os temas incluem descarte de lixo, deslizamentos, alagamentos e preparação para emergências. Uma das apresentações ensinou a organizar uma mochila de emergência. Os alunos relatam que utilizam livros, cadernos e a sala destinada ao projeto para estudar e preparar as atividades.

“Geralmente a gente planeja antes, aí passa para os anos iniciais e para os anos finais”, explica Juan Pietro.
O trabalho integra uma iniciativa mais ampla. Segundo a Secretaria de Estado da Educação, o Programa Defesa Civil na Escola alcançou 1.410 escolas de 283 municípios em 2025. Voltado principalmente ao sexto e ao sétimo ano, aborda gestão de riscos, meio ambiente, mudanças climáticas, cidadania e autoproteção.

As unidades também podem constituir Núcleos Escolares de Proteção e Defesa Civil, os NEPDECs, responsáveis por atividades como planos de evacuação, simulados e ações socioeducativas.
O lixo no caminho da escola entra na discussão
Antônio utiliza situações próximas dos estudantes para relacionar prevenção e meio ambiente. Uma delas é o lixo descartado no percurso até a escola, em uma área que, segundo ele, apresenta alagamentos frequentes. Na avaliação do professor, a limpeza dos bueiros precisa ser acompanhada pela mudança nos hábitos de descarte. “Mesmo que a prefeitura esteja limpando constantemente os bueiros, enquanto as pessoas não se conscientizarem de que não se deve jogar lixo, nós vamos continuar tendo problema”, afirma.
A observação faz parte do trabalho educativo sobre fatores que podem agravar o escoamento da chuva. Ela não dispensa a avaliação das demais causas dos alagamentos ou das intervenções necessárias na infraestrutura. O professor descreve a continuidade desse esforço como um “trabalho de formiguinha”, no qual os estudantes ajudam a alcançar colegas e familiares.
Os alunos organizam as atividades e ampliam o alcance do projeto
A autonomia do grupo é um dos aspectos destacados por Antônio. Segundo ele, os estudantes recebem informações, pesquisam, organizam apresentações e elaboram questionários para outras turmas. “Eu só jogo as informações. Eles pegam essas informações, trabalham e depois vão trabalhando em sala de aula”, relata.
Para conciliar o projeto com as disciplinas, o grupo passou a organizar encontros em dias alternados, evitando perder sempre as mesmas aulas. O professor conta que os estudantes também se reúnem no contraturno por iniciativa própria.

Gabriele Mayer, apresentada pelos colegas como presidente do núcleo, foi lembrada durante a conversa por sua participação na organização das apresentações e no apoio ao grupo. O conteúdo também chega às casas. Um dos alunos relata que, depois das atividades, conversa com a mãe sobre o que aprendeu.
Além da prevenção, a participação cria vínculos entre estudantes de turmas e turnos diferentes. “Quando a gente vem no contraturno, acaba conhecendo quem não é do nosso turno, faz amizades e aprende muita coisa nova”, conta Isadora Sofia.
Na ocasião da entrevista, o professor também informou que a escola preparava um simulado de incêndio, em articulação com os bombeiros e a Defesa Civil.
O Rio Camboriú também vira assunto de aula
O rio que atravessa o território aparece nas discussões sobre lixo, esgoto e riscos de inundação. Antônio diz que trabalha o Rio Camboriú como tema transversal, aproximando os conteúdos da realidade dos estudantes.

Durante a entrevista, os alunos relacionaram a presença de resíduos no rio à necessidade de melhorar o descarte e a separação dos materiais. O professor também contou que uma das crianças questionou um vereador que visitou a escola sobre o andamento do esgotamento sanitário, que hoje depende da construção da Estação de Tratamento de Esgoto (ETE), através da concessionária Águas de Camboriú, do grupo Aegea, que busca junto da prefeitura por um terreno – hoje a principal opção é junto ao Instituto Federal Catarinense (IFC) de Camboriú, mas que enfrenta um entrave com moradores do Bairro Conde Vila Verde que são contrários.

Os moradores temem mau cheiro e desvalorização dos imóveis e questionam a ausência de estudo de impacto de vizinhança. A definição da área que receberá a ETE é uma prerrogativa do município – a prefeitura havia indicado o terreno do IFC, cuja adequação para receber a unidade já teria sido confirmada.
Para o professor Antônio, compreender o problema é uma etapa; transformar essa compreensão em participação e cuidado exige continuidade. Ele também manifestou preocupação com a impermeabilização urbana e a capacidade de escoamento das águas. Ao recordar as enchentes de 2008, defendeu a necessidade de preparar Camboriú e Balneário Camboriú para episódios de chuva intensa. As observações aproximam duas dimensões da prevenção: o aprendizado sobre como agir diante do risco e o planejamento necessário para reduzir a exposição das cidades.

Parque Inundável prevê intervenção na bacia, mas ainda depende da execução
Entre as estruturas discutidas com os estudantes está o Parque Inundável Multiuso da Bacia do Rio Camboriú, projeto voltado à redução dos impactos das cheias e à ampliação da reserva de água bruta.

Segundo comunicado da Prefeitura de Camboriú publicado em 14 de setembro de 2026, o processo licitatório tem orçamento estimado em R$ 95,2 milhões, incluindo R$ 73,3 milhões em recursos federais do Novo PAC. A abertura da concorrência foi anunciada para o próximo dia 13 de outubro, sob condução do CIM-Amfri. O prazo previsto de execução é de 31 meses a partir da emissão da ordem de início dos serviços.
O cronograma evidencia que o empreendimento não pode ser considerado uma proteção já disponível para as chuvas desta primavera. A preparação imediata continua dependendo das estruturas existentes, de sua manutenção, do monitoramento e das ações de prevenção e resposta.

Na escola, essa preparação ganha a participação de estudantes que passam a reconhecer os riscos e compartilhar o que aprendem. O conhecimento sobre a chuva se conecta ao lixo no caminho de casa, ao rio que atravessa a cidade e à necessidade de saneamento, questões que fazem parte do mesmo território.
Até 2033, a expansão precisa se transformar em atendimento
As metas nacionais estabelecem acesso à água potável para 99% da população e à coleta e ao tratamento de esgoto para 90% até 2033. Em junho de 2026, a ANA voltou a destacar o desafio de financiamento e regulação necessário para alcançar esses objetivos.
Em Santa Catarina, a distância até essa meta exige que o debate acompanhe resultados verificáveis: população atendida, sistemas em funcionamento, qualidade do tratamento e proteção dos corpos d’água.
As consequências do saneamento insuficiente ajudam a compreender o que está em jogo. O serviço que falta em um imóvel pode produzir efeitos além de seus limites; o resíduo descartado em um ponto pode alcançar outro ambiente. Nas escolas, nos rios, nas praias e no atendimento à fauna, essa ligação torna visível uma infraestrutura essencial à qualidade de vida catarinense.