A apuração termina. Dentro de nós, alguma coisa continua contando: uma palavra que feriu, uma amizade suspensa, o lugar vazio à mesa. Há quem acorde em festa. Há quem precise recolher do chão a esperança. E ambos terão de abrir a janela para o mesmo país.
O voto do outro pode nos parecer incompreensível. Mas antes daquela escolha houve uma vida: trabalho, perdas, medo, desejos que talvez nunca tenhamos escutado. Uma pessoa é maior que o nome que digitou na urna.
Estamos em frente a um difícil pertencimento: partilhamos um mundo que cada um enxerga de um lugar. A democracia precisa dessa diferença para respirar. Precisa também que ninguém seja expulso da condição humana por pensar de outro modo.
Agora, a vitória pede grandeza; a derrota, tempo. Quem celebra pode conter o impulso de humilhar. Quem sofre pode discordar sem desejar a ruína de todos. O governo eleito deverá governar também para quem não o escolheu. E todos nós teremos o dever de fiscalizá-lo, inclusive quando a verdade contrariar nossas preferências.
Pacificar exige coragem. Há injustiças a denunciar, direitos a defender, mentiras a interromper. A firmeza pode preservar a dignidade de quem nos escuta. O afeto pode sobreviver a uma conversa difícil.
Talvez o primeiro gesto seja pequeno: telefonar para aquela tia, prima, sobrinho. Desfazer a frase cruel antes de enviá-la. Perguntar ao amigo o que ele teme e suportar a resposta sem preparar imediatamente uma acusação. Há escutas que devolvem uma pessoa ao nosso olhar.
Na mesa do café, alguém ainda passa o pão. Nesse movimento tão antigo, uma mão oferece à outra o que sustenta a vida.
Que saibamos recebê-lo. Nossas convicções cabem à mesa. O outro também.