Dia da Consciência Negra: lideranças de Balneário e Itajaí falam sobre importância da data

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O Dia da Consciência Negra é neste sábado (20), data importante que lembra a morte de Zumbi dos Palmares, um dos protagonistas na luta dos ex-escravizados por liberdade, e é uma celebração da vida negra no Brasil.

(Reprodução)

Porém, a data vem também como uma forma de reafirmar que ainda há muito a ser feito pelos negros no país, bem como em Balneário Camboriú e Santa Catarina, onde comumente são registrados casos de racismo.

O Página 3 abriu espaço para que lideranças negras da cidade e da região se pronunciassem. Acompanhe.

Combate ao racismo é a luta de toda sociedade que quer ser livre

Sayonara Siqueira é presidente da Associação Quilombola do Morro do Boi, de Balneário Camboriú.

Sayonara Siqueira (Foto Bianca Alves)

“Ter consciência negra significa que o combate ao racismo não é uma batalha somente dos negros e sim de toda sociedade que quer respeito e quer ser livre, independentemente da sua cor, sexo, classe social ou motivo que faça acreditar e lutar por seus, todos querem e merecem dignidade e respeito.

Atualmente presido a Associação Quilombola do Morro do Boi, que fica localizada em Balneário Camboriú, e que vem trabalhando a história de construção coletiva e reconhecimento há uns 14 anos.

Desde que foi fundada, já tiveram outras presidências, entre elas, minha mãe Sueli Marlete Leodoro.

Eu sou a primeira da família a ter um ensino de nível superior mas espero não ser a última.

Ao longo desses anos vi como foi e é importante para mim o papel que essa comunidade tem em minha vida, principalmente no que se refere ao resgate histórico e nas questões culturais, que foram perdidas.

Hoje buscamos manter vivas as histórias de sofrimento e resistências de meus antepassados, o artesanato através das bonecas Abayomis, a agricultura familiar e culturalmente, trabalhamos esse resgate através do grupo Maracatu Nova Lua”.


“A gente percebe o racismo no olhar, no jeito, quando fogem de nós na rua”

Allan Nascimento é um dos líderes do Coletivo Frente Negra, que atua no Vale do Itajaí. (Recentemente vítima de um ataque racista online, de um homem que o xingou por ciúmes da ex-namorada de Allan, com quem ele nem tem mais contato (o caso está com o Ministério Público e com a Polícia Civil).

Allan Nascimento (Arquivo Pessoal)

“O Coletivo nasceu em Itajaí, na Univali, mas abrange toda a região. Temos cerca de 70 membros.

Falando de Balneário Camboriú, percebo uma defasagem, porque não há políticas públicas para negros. Quando acontecem casos, como o da Casa do Rap, no Bairro da Barra, não temos a quem recorrer.

Balneário não tem hoje nem um Conselho Municipal, o apoio é isolado, com poucos vereadores do nosso lado, a exemplo do Eduardo Zanatta.

Balneário hoje é uma das cidades mais racistas, tanto explicitamente quanto de forma velada.

Há até o argumento burro, ‘consciência negra é errado, devemos falar de consciência humana’.

Novembro é um mês emblemático para a população negra, mas passa o ano inteiro e ninguém vem falar com a gente.

E não precisa ser só sobre racismo, temos figuras maravilhosas que merecem destaque.

Precisamos ser incluídos em discussões de cultura, arte, saúde…

Podemos falar sobre diversos assuntos, não somente em novembro.

Como Coletivo, tentamos visibilidade.

A primeira coisa que precisa mudar é a questão das políticas públicas, Balneário é uma cidade muito nova, mas precisa pensar em algo como a criação do Conselho Municipal. Temos figuras em Balneário que são cabeças pensantes maravilhosas, mas precisamos de estrutura e investimento.

Eu fechei com um cineasta de Santos e vou produzir um documentário na região para falar do movimento negro aqui. O racismo nunca foi embora – obviamente não posso ser hipócrita, há uma desconstrução acontecendo aos poucos.

Mas nesse atual momento parece que liberaram o preconceito, as pessoas não têm vergonha de expor seu lado ruim, ainda acham que é mimimi, que ‘é só opinião’.

Quem mais está morrendo nas estatísticas continuamos sendo nós.

Os números estão aí, no cotidiano é muito pior.

É triste falar, mas a gente percebe o racismo no olhar, no jeito, quando fogem de nós na rua.

Como diz o Mano Brown, nós temos que mostrar que somos duas vezes melhores, o que é também duas vezes mais cansativo.

Nossa vida é ralar, a gente não tem para onde correr. 20 de novembro é uma data importante, necessária e que temos que falar, mas temos que bater na tecla que pessoas pretas precisam ser vistas também fora dessa época, fora de novembro”.


“É um compromisso diário entendermos a necessidade de nos tornarmos uma cidade antirracista”

Ed Rocha Jr é ativista negro e influenciador digital (Ele também foi vítima de um caso de racismo, envolvendo um MC da cidade, que segue sendo investigado).

Ed Rocha Jr (Arquivo Pessoal)

“Precisamos entender primeiramente que crescemos em uma sociedade racista, e Balneário Camboriú não escapa.

O Brasil foi erguido com mãos e sangue de pretos escravizados, e as consequências desta escravidão não apenas são vividas até hoje, como ainda estão longe de acabar!

A desigualdade racial está ligada à desigualdade social! Quando uma cidade multicultural como Balneário Camboriú nega esses fatos, não fomentando debates e fóruns através do poder público, é ignorar a existência da sua população preta! Mesmo com diversos casos de racismo que ganharam até veiculação nacional insistem em esconder um problema real: o racismo.

E deixam claro que o combate ao racismo não está em pauta através da prefeitura e Câmara de Vereadores, andando na contramão de cidades vizinhas que desenvolvem agenda para conscientizar a importância desta data e o combate ao racismo.

Precisamos assumir que o racismo está em todos nós e é um compromisso diário entendermos a necessidade de nos tornarmos uma cidade antirracista, que luta e condena atitudes, falas e insinuações racistas e também valoriza diversos grandes profissionais pretos que se destacam em diversas áreas e contribuem com o desenvolvimento da nossa cidade!”.


“Esse 56% precisa se ver como potência”

Mariana Américo é empreendedora, idealizadora da @brown_minds e representante Centra Única das Favelas (CUFA) em Camboriú.

Mariana Américo (Arquivo Pessoal)

“A Brown Minds, minha empresa, tem várias vertentes de atuação. Nesta sexta-feira (19), às 21h, vamos estar lançando o clipe musical ‘Malko’, com amostra de moda e arte, na Home Store, que fica na Praia Brava.

O clipe é do Malko, um jamaicano que mora em Itajaí, junto de dois amigos, Yuri e Dom (que é angolano), que moram em Criciúma.

Como a Brown Minds foca em produção de moda, atos artísticos, mas também em dar visibilidade aos negros, nos unimos nesse projeto, para dar ainda mais visibilidade à conscientização racial.

A Brown Minds hoje é formada por quase 30 pessoas, em sua maioria pretas, onde focamos em trazer reflexões e debates, expondo vivências, reflexões em cima de tudo que já vivemos.

Sempre que desenvolvemos trabalhos nos preocupamos em ter a maioria negra; eu fiz faculdade de Moda na Univali e era a única negra em minha turma.

Vejo que está aumentando o espaço na moda com modelos negros, mas para vender para negros, porque nas equipes ainda não temos o espaço que deveríamos.

Mas lutamos por mais espaço, queremos contar as nossas histórias, porque os brancos não sabem como é a nossa vivência – isso a Taís Araújo e o Lázaro Ramos falaram em uma entrevista para o Mano Brown.

Em SC é complicado porque aqui a colonização foi europeia, mas se formos olhar para o Brasil como um todo, 56% da população é autodeclarada negra. Esse 56% precisa se ver como potência.

Não somos inferiores ou subalternos. Na TV ainda somos o escravo, o bandido, o ruim, e essas características precisam ser quebradas.

Por isso, nosso papel é colocar negros em destaque, que as pessoas enxerguem as nossas potências, quem nós somos.

Nos colocam em uma caixa, acham que todos somos iguais e na verdade não. Temos múltiplas características, com visões de mundo diferentes.

Precisamos de mais políticas públicas e isso em âmbito nacional, estadual e municipal. O Estado precisa ver que é necessária uma reparação histórica.

O nosso país nos escravizou por mais tempo do que fomos livres de verdade.

A diferença social precisa acabar, imagina a diferença que é a vida de um menino que mora no Conde Vila Verde, que precisa trabalhar para ajudar a família, com a de um que mora na Praia Brava, que faz cursinho, e ainda passa na federal.

O do Conde às vezes nem consegue ter dinheiro para ir para Balneário de ônibus, imagina deixar a família e ir fazer faculdade em Florianópolis.

Ele nem pensa nisso. Eu morei na Noruega e lá, por exemplo, o governo subsidia valores para condicionar a criança a estar na escola, e ela é amparada até se formar na faculdade.

Há um racismo estrutural enraizado na sociedade brasileira, e às vezes nem o preto tem consciência do poder que ele tem. Estamos lutando para essa disparidade acabar, uma disparidade que muitos fingem não ver.

Somos bonitos, inteligentes, queremos que as pessoas vejam isso. Somos potência! Favela não é carência, é potência. Passam trilhões por elas.

Por isso, o trabalho com a CUFA é tão gratificante. Não entregamos apenas alimentos para quem precisa, é um movimento social e de elevação, que leva desenvolvimento cultural, arte, ensino.

Tudo o que queremos é igualdade de direitos, por isso o Dia da Consciência Negra é tão importante: para lembrarmos que construímos uma sociedade em cima de mãos escravizadas, para que a reparação aconteça.

A gente só vai mudar se falar, dar voz e trazer as pessoas negras para perto”.

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