Dia do Trabalhador: adolescentes, os profissionais do futuro

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Por Renata Rutes

Neste sábado (1º) é comemorado o Dia do Trabalhador – o segundo da pandemia, que gerou recordes de desemprego no país: com o número recorde para o período (em janeiro) chegando a 14,3 milhões, segundo dados do IBGE. Diante desse cenário, fala-se muito em futuro: com a vacina, há esperança de que dias melhores virão. O Página 3 seguiu essa linha e nesta reportagem especial ouviu adolescentes, procurando saber deles como veem as profissões do futuro e o que desejam fazer ‘quando crescerem’.

Em Balneário Camboriú e região há diversas oficinas e cursos focados neles – os profissionais do futuro, e nesta semana a prefeitura municipal abriu mais de 200 vagas em cursos profissionalizantes gratuitos para adolescentes a partir dos 14 anos. Na Câmara de Vereadores tramita um projeto da vereadora Juliana Pavan, que entraria em votação nesta semana, mas foi adiado, que cria o Selo Empresa Amiga da Juventude, com a finalidade de incentivar empresas instaladas em Balneário a proporcionarem condições de acessibilidade ao primeiro emprego aos jovens matriculados na rede pública de ensino da cidade

Presidente dos vereadores mirins opina:
“Esse projeto faz a diferença na vida de um jovem”

Maria Eduarda Labs, 14 anos, presidente da atual legislatura dos Vereadores Mirins de Balneário Camboriú, aluna do Colégio Margirus

Maria Eduarda durante sessão com o prefeito Fabrício Oliveira (foto Câmara de Vereadores de Balneário Camboriú)

“Eu tenho uma afeição muito grande por ler, estudar, cozinhar. Adoro conhecer novas culturas e lugares, acho que viajar é, para mim, o melhor que pode se fazer na vida! Adoro basquete, apesar de não saber jogar (risos), adoro jogar videogame, principalmente na pandemia, quando a minha rotina mudou muito, como a de todos nós. Passei de ir a escola todos os dias para não ir, o que foi uma mudança muito drástica, porque eu nunca tinha feito uma aula remota na minha vida. Foi algo que me deixou um pouco assustada no início, mas depois de tanto tempo acabei me acostumando. Neste ano as nossas aulas presenciais voltaram parcialmente, digo isso porque acabamos faltando alguns dias da semana por conta do rodízio, para evitar aglomerações, e precisa ser respeitado. As aulas presenciais terem voltado, mesmo que não 100%, é muito importante. Eu estava precisando ver o professor cara a cara, poder voltar foi algo que me deixou muito mais determinada e motivada. A minha vontade de ser vereadora mirim surgiu a partir do momento em que eu entendi que, com um projeto como esse, eu poderia ajudar as pessoas, fazer melhorias na cidade a partir de indicações e projetos de lei, e que eu faria a diferença no meio em que eu vivo. A minha escola, professores, coordenadores, diretor, me incentivaram muito. Acredito que todas as escolas do país deveriam abraçar uma causa como essa, porque faz a diferença na vida de um jovem. É o nosso segundo ano como vereadores mirins, por conta da pandemia, que impossibilitou um novo processo eleitoral nas escolas. Segundo ano fazendo indicações, projetos de lei, estamos muito animados porque é uma experiência incrível e única. Ser presidente é algo muito importante, estar ali, a frente do grupo, iniciando e encerrando as sessões. Exige muita determinação, foco e responsabilidade, mas é extremamente gratificante. Na Câmara Mirim nós discutimos sobre vários temas, desde a utilização de celulares dentro da sala de aula até sobre o SUS. Acho que o que mais temos debatido no sentido de melhorias para os adolescentes e jovens de Balneário é sobre trazer mais oportunidades a eles, por exemplo: a construção de uma quadra de basquete para a prática do esporte, de mais uma pista de skate, talvez mais oportunidades para os jovens ingressarem na política, exporem suas opiniões. Sempre temos projetos novos surgindo e estamos a todo tempo pensando em como podemos melhorar e trazer mais oportunidades. Encontramos o prefeito Fabrício Oliveira neste ano e foi algo que eu nunca vou esquecer. Sentei ao lado dele como presidente da Câmara Mirim, dirigi a nossa reunião. Ele foi super carinhoso, reconheceu o nosso trabalho como vereadores mirins, ouviu atentamente as nossas indicações, tirou nossas dúvidas sobre o cargo dele como chefe do Executivo, reconheceu o nosso trabalho… foi algo muito gratificante e que nos encheu de determinação”.

Adolescentes relatam suas rotinas com a pandemia e visão de futuro

(Ricardo Augusto)

Sara Kerber, 15 anos, estudante – “Nessa pandemia aproveitei pra praticar mais esportes, principalmente o surf, comecei um curso de maquiagem profissional e fui estudando, enfim ocupando meu tempo com coisas produtivas sem aglomerar”.

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(Arquivo pessoal)

Isabela Teixeira de Melo, 14 anos, estudante – “Eu tento ao máximo estar fazendo algo para preencher meu tempo, como ver filmes, me exercitar, estudar, brincar com meus cachorros e gata… estou treinando todos os dias e isso para mim está sendo muito legal, ocupando meu tempo praticando o meu esporte favorito [stand up paddle], tento sempre aprender algo novo como receitas culinárias, receitas para o cabelo, pele…”

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(Arquivo pessoal)

Eduardo André Nardes, 15 anos, estudante – “Eu ajudo o meu avô no trabalho, ele faz serviços na área de construção civil, e eu já tenho um salário! É um dinheirinho bom. É uma experiência boa, gosto de trabalhar, e inclusive entre meus amigos sou um dos poucos que pensa assim, e acho muito triste. Agora em maio vou começar a estudar em uma escola federal, o IFSC, de Itajaí, onde vou fazer o Ensino Médio e o curso técnico em Mecânica. É um sonho realizado estudar em uma escola tão boa como essa. Espero conseguir, a partir desse colégio, uma boa profissão futuramente, mas o meu grande sonho, desde pequeno, é ir para o Exército. Espero conseguir realizar”.

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Bernardo gosta de desenhar e já sabe que quer trabalhar com o mundo dos games (Arquivo pessoal)

Bernardo Siqueira Amaro, 15 anos, aluno do Colégio Cenecista Pedro Antônio Fayal e da codeBuddy – “Desde pequeno eu gosto muito mesmo de desenhar. Gosto de pegar traços de animes, enfim. E sempre tive o sonho de inserir os meus desenhos em jogos, desenhos animados, mas mais voltado para os jogos. Criava um personagem e ficava imaginando como seria um jogo com aquele personagem. Estou pensando em trabalhar com algo relacionado aos jogos, para inserir minhas ideias no mercado e tentar chegar ao máximo de entretenimento que eu conseguir levar para as pessoas. Eu gosto bastante de jogar no computador, videogame, assistir animes – é a partir disso que consigo minhas inspirações para os jogos. Em questão da pandemia, senti falta das aulas presenciais, pois fico mais focado nas presenciais, mas tirando isso não senti muita diferença, só a vontade de sair de casa, dar uma andada pela cidade”.

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(Arquivo pessoal)

Henrique Minatti Baião, 14 anos, aluno do Colégio Cenecista Pedro Antônio Fayal e da codeBuddy – “Um dia meu primo me contou sobre um curso na codeBuddy e me perguntou se eu queria me inscrever com ele, então eu aceitei. Isso foi há quatro anos, eu já passei pelo mundo da Lógica e Matemática, Games, Web e atualmente estou fazendo o mundo dos Apps. Desde que eu comecei venho sempre adquirindo novos conhecimentos sobre o mundo da programação. Eu adoraria trabalhar na área da tecnologia, mas isso requer mais estudo nesse tipo de coisa. Eu me interesso bastante na criação de sites e aplicativos pois mexe bastante com a aparência e funcionalidade. Eu gosto de ficar buscando inspiração em jogos, simplesmente procurando por algo inovador ou que se destaque. Eu jogo bastante no computador e não costumo desenhar muito, não tenho muito experiência em desenho, mas às vezes faço umas pixel artes. A pandemia interferiu na questão do distanciamento, estamos tendo aula longe dos professores, mas fazer as aulas não é um problema, pois já fazíamos em um computador mesmo, mudou um pouco apenas as aulas do mundo Maker que utilizava fios e mexia com sistema de energia, agora usamos um aplicativo diferente para substituir. As aulas a distância me deixam com um pouco de saudade de como era alegre o ambiente em que tínhamos aula.

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(Arquivo pessoal)

Bernardo Müller Brandão, 12 anos, estudante – “Para o meu futuro eu desejo fazer intercâmbio e depois morar nos Estados Unidos. Eu vou lutar para conquistar isso, vou trabalhar, vou estudar. Antes da pandemia eu ficava no celular, mas também tinha a escola, natação. Depois eu tive que parar a natação e não tive mais aulas presenciais na escola, e sobrou só o celular, onde passo a maioria do meu tempo vendo vídeos, jogando, no Instagram. Quando anunciaram a pandemia eu fiquei ‘ah, vai ser legal ficar um tempo sem aula’, aí depois, no meio do ano, fiquei com saudade dos meus amigos e queria que a vida voltasse ao normal. Mas a pandemia teve suas coisas boas, me reaproximei da minha irmã (ela morava fora e voltou a morar com a família), aprendi a andar de bike. A aula online foi horrível, não dava para aprender muito. Agora que voltou a presencial eu fiquei mais feliz, e vi que o mundo já está voltando mais ao normal e que já estamos superando um pouco a pandemia”.

Educação: “Escola é essencial”

Marilene Cardoso, secretária de Educação de Balneário Camboriú

“Temos equipe multidisciplinar que acompanha as atividades nas escolas, como assistente social, psicóloga e fonoaudióloga, que acompanham todas as unidades. Retornamos com toda a segurança com o projeto Oficinas, com 815 alunos ao total, aumentamos o número de oficinas e com mais aulas, para assim dividir os alunos, pois entendemos que não poderíamos interromper o projeto, já que a arte é uma forma importante de desenvolvimento, com a dança, música e também com o esporte, todos eles facilitam o desenvolvimento também na escola. Estamos com licitação para compra de material sobre inteligência emocional, e iremos trabalhar o assunto inicialmente no CEM Dona Lili e CAIC (projeto piloto), para no ano que vem abrangermos para todas as unidades. Vemos que é muito importante trabalhar o emocional de nossos alunos, pois os adolescentes foram diretamente afetados pela pandemia. O bullying também é uma preocupação que temos, trabalhamos em todas as unidades a questão do respeito e ética, respeito a si e ao outro, indiferente de cultura, físico… está no currículo de nossas escolas e é discutido com frequência. Vejo que a escola é essencial, o online continua, de forma híbrida, mas entendemos que o acompanhamento presencial e o olhar do professor é fundamental. Depois da família, a escola é onde o adolescente passa a maior parte do tempo, por isso é tão importante que os professores estejam atentos a sintomas e atitudes que possam indicar sinais de abusos ou problemas psicológicos, por exemplo. O professor é em quem o aluno tem mais confiança. Por isso, estamos montando um comitê de escuta especializada, articulando com toda a rede, pois precisamos debater de que forma os servidores da rede devem proceder nesses casos. Nosso objetivo é que, até no final do ano, todos os nossos servidores estejam capacitados quanto a isso. Balneário é referência e diferencia pela rede de apoio que temos, como o PAIS, Abraço a Vida… o apoio psicológico tem sido realmente cada vez mais importante. Vejo que os pais também precisam dedicar um tempo de qualidade aos seus filhos, desde as crianças como adolescentes, nem que seja 30 minutos por dia, mas largar tudo, olhar no olho, conversar, mostrar que está a disposição. Ao mesmo tempo que a tecnologia contribuiu muito, ela também afastou, pois hoje fica cada um na sua TV ou celular, e é importantíssimo ter tempo de conversar, interagir. Saiba do que o seu filho gosta, se ele gosta de videogame, interaja com ele sobre isso. O adolescente precisa sentir que pertence à família, que é importante, assim ele se sente seguro e pode se abrir”.

“O que os jovens querem é oportunidade”: prefeitura abriu mais de 200 vagas de cursos profissionalizantes nesta semana

Guilherme Cardoso, 23 anos, é coordenador do Departamento de Assistência à Juventude de Balneário Camboriú, pertencente à Secretaria de Inclusão Social; ele já foi integrante do Conselho Nacional da Juventude (CONJUVE) do Governo Federal

Gui Cardoso levou o Fala, Jovem! aos colégios de Balneário (Divulgação)

“Quando eu assumi o departamento, o prefeito Fabrício Oliveira pediu que fizéssemos o possível para fazer uma escuta ativa junto dos jovens. A partir disso, criamos o projeto ‘Fala, jovem!’, com formulários de pesquisa online e visitas presenciais em escolas, igrejas e entidades como AMA Litoral, Apae, NAHC. Conseguimos ter conversas na hora, sobre o futuro da cidade, falamos sobre os projetos que o governo municipal possui. Através do que coletamos no ‘Fala, Jovem!’ (foram mais de 1.200 jovens que participaram, com idade entre 15 e 29 anos – faixa etária escolhida com base no Estatuto da Juventude) vamos analisar os dados para saber quais são as principais demandas – a ideia é fazer políticas públicas com base nas visões dos jovens. Eles se sentiram muito prestigiados por saberem que estão sendo incluídos e tendo voz, esperamos que seja o começo da atuação cidadã deles. O jovem precisa ser mais incluído. Percebi que o que os jovens querem é oportunidade. Oportunidade é a palavra de ordem. O nosso objetivo é fazer com que ele, o jovem, seja protagonista do próprio futuro, e a prefeitura deve dar essa oportunidade, qualificando-o para conseguir uma boa vaga de emprego. Em abril, mais de 120 jovens conseguiram cursos profissionalizantes junto ao Senac, e agora acabamos de lançar 280 vagas para 15 cursos, tudo gratuito e online, em parceria com o Instituto Mix (para adolescentes a partir dos 14 anos – saiba mais e se inscreva aqui: http://bit.ly/CursosGratuitosPMBC – há opções como digital influencer, camareira, confeitaria, bartender, redes sociais, fotografia profissional, maquiagem social, dentre outros). Nas idas aos colégios também informávamos sobre o ID Jovem e Menor Aprendiz, dois programas federais que beneficiam aos jovens. Inclusive a prefeitura tem atendimento na Rua Itália (no Centro da Convivência da Família), onde orientamos sobre esses dois temas”.

  • Acompanhe o Departamento de Assistência à Juventude pelo Instagram (@juventude.bc).

CodeBuddy, escola com unidade em Itajaí leva cursos sobre tecnologia para crianças e adolescentes

CodeBuddy atende crianças a partir dos cinco anos e adolescentes até os 16 (Divulgação)

Ricardo Paiva Garcia, diretor da codeBuddy

Fotos: Ricardo é diretor da codeBuddy (Divulgação)

“Essa nova geração é diferenciada exatamente pelo contato que possui com a tecnologia. Eles têm disponível uma quantidade muito grande de informação e isso acontece de forma muito rápida. Eles, que não gostam de ser chamados de adolescentes (risos), são jovens que buscam o conhecimento e muitas vezes chegam a ser autodidatas, com muita sede de conhecimento. Eles entendem entre eles que quem sabe mais, é diferenciado e já veem, desde cedo, que as empresas também reconhecem isso. Os pais dessa nova geração também estão começando a entender que a linguagem do computador é universal, está presente seja na área de humanas, tecnologia, biológica, exatas… é importante para todos. É a linguagem mais falada do mundo. As crianças falam que querem trabalhar com aplicativos, que querem ser gamers, conversam com pessoas do outro lado do mundo. Para eles o mundo é realmente muito globalizado. Fazer coding (programação de computadores) está sendo cada vez mais comum nas escolas, seja a programação direta como as aulas de robótica, mas muitos colégios focam apenas na montagem e na codeBuddy vamos além – programamos o robô, fazemos games em cima disso. A cada semestre nossos alunos precisam desenvolver um projeto com base nos aprendizados que tiveram, e eles fazem games, aplicativos. Em 2020 o tema foi ajudar a comunidade com o Covid, e um aluno fez um app que identifica os sintomas do Covid, para saber se valia a pena fazer o teste ou não, outro fez um robô que lê a temperatura corporal e passa informações sobre o vírus através do display. Alguns já entram com foco, sabendo que querem seguir a profissão, como o Bernardo (entrevistado no início desta matéria), que sempre gostou de desenhar e quer utilizar seus desenhos e ser um game designer. Vejo que no futuro startups vão exigir que os empreendedores saibam programar. Isso já é atual: precisamos de profissionais mais completos, na hora de contratar para uma vaga de gestor, a pessoa vai precisar saber programação porque faz parte do trabalho. Sabemos também que a quantidade do tempo em que os adolescentes ficam no celular ou no computador também precisa ser dosado – pois nem todo o tempo é proveitoso. Jogar é legar, mas o tempo para fazer algo produtivo também é importante. Por isso que na codeBuddy focamos em tentar mudar o adolescente de consumidor de tecnologia para produtor dela. Os números da área de games não param de crescer e as crianças sonham com isso, mas é importante lembrar que não é nada fácil ser um jogador profissional, por isso é importante aproveitar esse entusiasmo de forma proveitosa. Na codeBuddy temos cursos para crianças a partir dos cinco anos (cinco a sete é no tablet, focado no raciocínio lógico) até os 16 anos (sete a 16 no computador, com incentivo ao ensino mais ‘livre’ e autodidata)”.

  • A codeBuddy fica na Rua Lauro Muller, 400, no centro de Itajaí. Mais informações: 3021-3856.

Alunos da Univali estão desenvolvendo game baseado no folclore brasileiro

Acadêmicos do curso de Design de Jogos Digitais da Univali, através do laboratório do curso (Lab XP) estão desenvolvendo o jogo Caruani, que foi baseado no folclore brasileiro. O game foi selecionado para participar do Brazil’s Independent Games Festival (BIG) 2021, o maior festival de jogos independentes da América Latina, que acontece de 3 a 9 de maio em formato online.

O professor Rafael Marques de Albuquerque, coordenador do projeto que deu origem ao game Caruani, que está em desenvolvimento, conversou com o Página 3, confira a entrevista abaixo:

JP3: Como foi o processo criativo por trás do game Caruani, foi tudo discutido no laboratório diretamente com os alunos?

Rafael: O projeto começou como uma iniciativa de um acadêmico, que me procurou com a vontade de envolver-se com desenvolvimento de jogos além dos jogos que já são produzidos nas disciplinas do curso, em um contexto diferente. Outros acadêmicos abraçaram a ideia, e nós amadurecemos informalmente o conceito inicial. Mais tarde, o laboratório do curso de design de jogos – chamado Lab XP – incorporou o projeto, de forma que os acadêmicos pudessem participar da produção como uma atividade formativa da universidade, como estagiários ou voluntários. 

O jogo está em desenvolvimento, e não temos um prazo definido para a publicação da versão final. Embora haja alguns estagiários, a maioria da equipe é composta e voluntários, então eles precisam sempre balancear o envolvimento na produção do Caruani com as outras atividades do curso, que é exigente. Então a produção acaba sendo lenta e sem uma previsão muito definida. Porém, estamos aproveitando esse tempo de produção. No ano passado várias artes do jogo foram expostas no Simpósio Brasileiro de Jogos e Entretenimento Digital, sendo que uma delas foi premiada a melhor arte de sua categoria (concept art). Nesse ano eu apresentei um artigo no Seminário Anual de Primavera do Laboratório de Pesquisa em Jogos de Tampere (Finlândia), discutindo o jogo, e agora vamos expor o jogo no BIG Festival. Tudo isso é muito rico para o processo como um todo.

JP3: O que significa para vocês a participação no Brazil’s Independent Games Festival (BIG) 2021? O que esperam com isso?

Rafael: O Caruani possui dois objetivos. O primeiro é criar um contexto de aprendizagem complementar à formação tradicional, e o segundo é criar um jogo que possa servir como portfolio para os acadêmicos, de forma a impulsionar a continuidade de suas carreiras. A participação do BIG Festival contempla os dois objetivos: se por um lado os acadêmicos têm a experiência de participar de um festival renomado como o BIG Festival, interagindo com profissionais da área e com o público em geral, por outro é um espaço para dar visibilidade ao jogo e valorizar esse objeto que poderá compor o portfólio desses profissionais. Além disso, acredito que o tema e o enredo do jogo envolvem muitos de nós afetivamente, e ele possui um valor cultural, de forma que é muito satisfatório perceber a recepção que a proposta tem. 

JP3: O jogo será acessível para o público? Pensam em comercializá-lo futuramente…?

Rafael: Uma versão demo (uma demonstração, bem curta) ficará disponível durante o BIG Festival (de 3 a 9 de maio, poderá ser acessada aqui: https://albumarques.itch.io/caruani). Quando estiver finalizado, o plano é disponibilizar gratuitamente. 

JP3: Você vê que a participação no evento e todo o processo de criação, que é compartilhado com os alunos, os incentiva profissionalmente? E como é o campo de atuação do designer de jogos no Brasil hoje?

Rafael: Eu sempre encorajo os acadêmicos a enviarem seus trabalhos para festivais. Na indústria dos jogos, os festivais são um contexto importante, para conseguir contratos e trabalho, para conseguir visibilidade, e para formar o sentimento de comunidade entre os desenvolvedores de jogos. Produzir jogos é um grande desafio, e é muito positivo para o setor que existam esses espaços de trocas de conhecimento e de ajuda mútua. Para os acadêmicos, acredito que participar desses festivais não apenas como ouvintes, mas como expositores, complementa a formação de forma significativa, e abre novas perspectivas de atuação profissional. 

Na área de jogos, o designer de jogos é uma área profissional bem específica, em um contexto em que muitos outros profissionais atuam: artistas, programadores, produtores etc. O nosso curso, embora seja um curso de design, possui uma abordagem bastante ampla, de forma que ao longo do curso os acadêmicos podem compreender qual o tipo de carreira que pretendem cursar. Mas as possibilidades de atuação profissional não se limitam à indústria de jogos. Nosso curso oferece uma formação ampla, em áreas tecnológicas, artísticas, projetuais e comerciais. Mesmo que o curso foque em jogos, ao final o acadêmico deve ter uma bagagem capaz de encaminhá-lo para outras áreas de atuação. Acredito que isso é muito importante, porque embora a indústria dos jogos digitais esteja crescendo muito no Brasil, ela também tem suas particularidades, seu modo de funcionar e exigências profissionais, que não necessariamente é o ideal para todos os acadêmicos. Por isso é importante que eles desenvolvam competências que permitam que eles construam uma carreira na área de jogos se esse for seu objetivo e perfil, mas que abra outras possibilidades.

JP3: Considerando que o universo dos games vem se expandindo cada vez mais, com grandes eventos e até times profissionais, você vê que essa profissão, tanto de designer como de jogador de fato, ganhará mais espaço e reconhecimento?

Rafael: Eu acho que é bom diferenciarmos entre a indústria de desenvolvimento de jogos e a indústria dos e-sports. Os dois estão crescendo e possuem possibilidades profissionais, mas são ramos distintos. Nosso curso foca no desenvolvimento de jogos, e não tanto na carreira como e-atleta, como jogador. Me parece que a carreira de e-atleta, embora possa animar o coração de muitos jovens jogadores, tenha o risco de ser uma carreira ingrata, se não conseguir realmente vingar. Suponho que seja uma lógica parecida com a lógica de atletas em outras áreas, como jogadores de futebol. No caso de desenvolvimento de jogos, me parece que se abrem mais possibilidades de carreira profissional, porque mesmo que o acadêmico perceba que não quer realmente trabalhar na indústria dos jogos, ele termina o curso com uma série de competências úteis em outros contextos profissionais, como simulações 3D, marketing, desenvolvimento de aplicativos etc. 

JP3: Muitos adolescentes gostam de jogar, tanto no computador quanto no videogame, você vê que está havendo (ou se encaminhando para) uma quebra de paradigmas quanto a profissionalização desse, até então, hobby? Acredita que os adultos estão se abrindo mais para isso?

Rafael: Eu acho importante diferenciar o jogo como entretenimento e o jogo como carreira. O jogo como entretenimento, por vezes é associado com uma série de estigmas, como a ideia de que jogos são coisa de criança, ou que são um hobby antissocial, ou que são coisas de meninos (e não de meninas), ou que são viciantes, ou que são excessivamente violentos etc. Cada uma dessas questões pode e deve ser discutida em profundidade, pois são temas que merecem nossa atenção. Porém, me parece que a tendência é que os jogos se consolidem cada vez mais como apenas um hobby que, como outros, pode tanto ser problemático (se a pessoa joga compulsivamente, por exemplo) quanto pode ser saudável. Eu sempre espero que a sociedade caminhe na direção de ter mais conhecimento e pensamento crítico, de forma a entender o que pode ser um problema na área de jogos e o que é apenas um preconceito.

Jogadores profissionais, no entanto, são uma outra questão. Me parece que os e-sports aos poucos ganham mais e mais visibilidade e respeito, o que é bom para a área. Mas não devemos confundir jogar como entretenimento e jogar como carreira. Me parece que existe um debate sobre o quanto que jogar videogames é uma perda de tempo (uma crença provável de muitos pais e mães de filhos e filhas que jogam muito) ou uma possibilidade de carreira (possivelmente uma ideia que muitos jovens usam para justificar suas muitas horas jogando videogames). Com algumas exceções, acho que o jogo não deve ser visto de nenhuma dessas formas. O jogo deve ser entendido, na maioria dos casos, como um entretenimento. Um espaço de relaxamento e diversão, que geralmente envolve socialização. Mas que, como a maioria das coisas, se for excessivo ou de forma inapropriada (como crianças jogando jogos com indicação etária de adultos), pode ser prejudicial. A vasta maioria dos jogadores utilizará os jogos apenas como entretenimento, que é para o que eles normalmente são feitos. Uma parcela minúscula construirá de fato uma carreira como e-atleta. E nesses casos, os jogadores devem buscar profissionalização; devem buscar informação sobre como funciona essa carreira, e o que é importante fazer para conseguir se lançar profissionalmente, o que isso envolve. Não é apenas ficar jogando para se divertir com uma esperança ingênua de que isso vá se transformar em uma carreira, do nada.

Por outro lado, há a produção de jogos. Me parece que a produção de jogos oferece muitas possibilidades profissionais, tanto na indústria de jogos quanto em outras indústrias que também precisam de artistas, programadores, designers diversos etc. Porém, é uma área exigente, e muito diferente de apenas jogar videogames. Por vezes a paixão pelos videogames se transforma em uma paixão por criar videogames, mas nem sempre é assim. No nosso curso, algumas pessoas entram porque amam jogar videogames, mas não tem o perfil de desenvolvedores. Felizmente, quando elas percebem isso, ainda podem construir carreiras como artistas, programadores etc., construindo a carreira em outra área e mantendo os jogos como um hobby.


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