Dia Mundial da Água: hora de pensar no futuro do abastecimento de Balneário Camboriú e Camboriú

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O rio Camboriú abastece hoje mais de 200 mil pessoas nos municípios de Balneário Camboriú e Camboriú. Há quase três décadas já se falava muito no crescimento da população ‘que pode comprometer o abastecimento no futuro’. 

Há alguns dias, o professor e pesquisador da Univali, Paulo Ricardo Schwingel, membro do Comitê do Rio Camboriú, esteve na Câmara Municipal de Balneário Camboriú, lembrando que há mais de 20 anos são feitas pesquisas sobre o rio Camboriú e que a hora exige tomada de decisões. 

“Temos a previsão de que a partir de 2025 teremos maior demanda, do que a disponibilidade hídrica, por isso, a importância urgente do monitoramento, para que os dados nos tragam embasamentos de como fazer a gestão adequada desse ecossistema”, alertou ele aos vereadores.

Há duas semanas, o pesquisador e professor da Univali, Marcus Polette esteve na sede da Emasa, para apresentar o Programa Estuário do Rio Camboriú 2030, desenvolvido pela Univali e coordenado por ele, que indica que está na hora da sociedade entender que o consumo na região deve ser mais ponderado, porque o limite de água é real, em função do pequeno tamanho da Bacia Hidrográfica.

Diante destes alertas, neste Dia Mundial da Água, a reportagem perguntou para o professor Marcus Polette e para o diretor geral da Emasa, Douglas Beber: 

Como estamos nos preparando para este futuro? 

Acompanhe o que eles disseram:

O que diz Marcus Polette:

Professor Marcus Polette (Foto Nina Polette)

*Dois trabalhos

“Temos dois trabalhos realizados pela Univali, um pela professora Adelita Granemann, que coloca que a disponibilidade hídrica estabelecida pelos critérios da legislação para outorga do direito de uso de recursos hídricos em SC constatou por pesquisa que a demanda para diluição de matéria orgânica, no cenário atual, já ultrapassa o limite de vazão outorgável. Toda Bacia Hidrográfica tem uma outorga, o direito de você retirar água para consumo humano. Esse limite para atender essa demanda quantitativa – é um cenário – mostra que entre os anos 2024 a 2033, existe grande possibilidade de termos falta de água na região devido a esse cenário.

Em outro trabalho feito por um acadêmico do programa de doutorado e mestrado, Adaílton Estácio, sob orientação do professor Schwingel, ele coloca que provavelmente em um cenário tendencial também, em 2043 a Bacia Hidrográfica pode entrar em um colapso hídrico”. 

*Incremento demográfico

“Realmente é uma questão bem importante de ser considerada e isso tem ocorrido pelo incremento demográfico que é muito  alto dentro da Bacia Hidrográfica. Dados que comprovam, esse crescimento demográfico: hoje Balneário Camboriú e Camboriú, possuem 210 mil pessoas vivendo aqui, população fixa, segundo IBGE. Para o ano 2030,  as projeções indicam 350 mil pessoas vivendo nesta região. Isso porque existe um crescimento demográfico de mais de 3% ao ano da população na região. Camboriú cresceu mais. Isso passa a ser um problema porque à medida que tem mais pessoas, tem mais consumo de água”. 

*Diagnóstico

Para entender o que está acontecendo, estamos fazendo esse programa, fizemos esse diagnóstico do estuário do rio Camboriú e encontramos problemas seríssimos, principalmente na questão de uso e ocupação so solo”. 

Como reverter?

“Em primeiro lugar entender que existem muitas atividades econômicas importantes nos dois municípios e precisamos orientar os setores econômicos a usar melhor a água. Essa é a grande questão. O desenvolvimento econômico tem que existir na região, temos que ter oferta de emprego, aumento de renda da população, diminuir as assimetrias sociais, que são muito importantes e é um fato gravíssimo dentro da Bacia do rio Camboriú”. 

A distância entre o IDH 

“Talvez seja um dos aspectos mais graves as assimetrias sociais. Enquanto Balneário Camboriú tem um índice de desenvolvimento humano (IDH) quarto melhor do Brasil, Camboriú está em 1423…olha a distância…se for comparar na escala dos 5.750 municípios brasileiros, enquanto Balneário está em quarto lugar de um lado da BR 101, tem o município maior consumidor de água da Bacia e do outro lado tem Camboriú que também é um grande consumidor, mas é o municipio que fornece a água para a região, porque todas as nascentes estão em Camboriú. O que vamos encontrar? Da avenida Atlântica até o bairro Conde Vila Verde, onde não existe saneamento básico algum,  as realidades são muito distantes a uma distância de 5, 6 mil metros. Essas questões tem que ser melhor trabalhadas e é isso que estamos querendo desenvolver com a Emasa. Então, temos que entender o problema para que possamos ir buscar soluções conjuntas”.

*Monitoramento

“Uma das questões mais importantes é buscar primeiro um programa de monitoramento constante, para entender o que está acontecendo e se ele está melhorando a condição do rio, visto que o Masterplan que vai ser implementado pela prefeitura, é muito interessante, e traz uma novidade: a importância de revitalizar o rio Camboriú, a cidade estar em torno do rio, algo que é tendência mundial. E a outra coisa que estamos fazendo é um sistema de informações, todos os dados do monitoramento serão ali colocados para refletir com o poder público, com as empresas formas de tomada de decisão adequadas para os dois municípios. Sem educação e sem comunicação não tem como, porque muitas atitudes necessárias para mudar o comportamento das pessoas estão na educação e na comunicação. Educação formal, dentro das escolas, para alcançar as famílias, efeito multiplicador para criar uma nova consciência nas pessoas e Comunicação, através dos meios de comunicação, reportagens sobre a importância da água, do rio, com mais frequência, para que as pessoas comecem a entender que algo está sendo feito. E trabalhar com todos os setores da sociedade e entender que o consumo na nossa região precisa ser mais ponderado porque temos limite de água em função do pequeno tamanho da Bacia Hidrográfica”.

O que diz Douglas Beber

Diretor da Emasa, Douglas Beber (Foto Renata Furlaneto)

*Ações paliativas

“Temos várias ações, mas paliativas. Uma delas é a locação da área dos rizicultores para reservação de água nos meses mais críticos, que são os meses de verão, onde o consumo praticamente dobra”. 

*Produtor de Águas

Projeto Produtor de Águas

“Temos hoje dois grandes projetos que atacam essa questão a longo prazo. Um deles é o Produtor de Águas, um projeto que faz a proteção dos encostas do rio Camboriú, a Emasa paga um valor e o proprietário é obrigado a reservar uma área para servir de proteção das encostas e possa inclusive reter a água da chuva e ir repondo no rio com os passar dos dias. E também as áreas degradadas da propriedade obrigatoriamente precisam ser recuperadas”. 

*Jacamasa

Projeto Jacamasa

“Outro projeto é o Jacamasa, de educação ambiental, que trabalha com as crianças, porque estamos pensando no futuro, importância da água, da preservação dos recursos naturais, e consequentemente quando a criança chega em casa, acaba mostrando aos pais essa interação e os pais, através desta criança, acabam recebendo essa educação ambiental. São dois projetos a longo prazo”. 

*Busca por recursos: 300 milhões

“Além disso temos dois projetos contratados dentro de Emasa, um deles é de reservação de água e outro é do reuso  do efluente tratado. Hoje não temos uma grande reservação e  também hoje tratamos média de 600 litros de água por segundo e esse efluente tratado acaba sendo jogado, porém pra baixo da nossa captação ou seja, ele não é reaproveitado. Então esses dois projetos, um de reservação e outro de reuso, carecem agora de uma ação nossa específica, para tirá-los do papel. Ou seja: carecemos de recursos. Os dois projetos têm uma ordem de mais de R$ 300 milhões e hoje não temos a capacidade de endividamento total para buscar um empréstimo e a Emasa não tem recursos próprios com capacidade para atender essa necessidade e qualquer uma dessas ações traria um impacto significativo na conta de água”.

*Como fazer?

 Estamos trabalhando como vamos fazer a busca desses recursos de maneira que não onere nosso cliente. Eu diria que esta é hoje a grande tarefa que o prefeito nos passou, nos determinou e portanto temos que achar um caminho e esse caminho tem que trazer a possibilidade de uma injeção de R$ 300 milhões, a curto prazo, para que a gente possa resolver esse problema, o que vai ser ao longo dessa década, temos um prazo até 2030 para a situação hídrica realmente chegar ao seu colapso”.

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