Enéas Athanázio: “A vida de escritor é um eterno esperar”

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Marlise Schneider Cezar

Enéas Athanázio, catarinense de Campos Novos, que vive há quase três décadas em Balneário Camboriú, advogado, promotor de justiça, incansável autor de 57 livros – com mais três no ‘forno’, colunista do jornal Página 3 há mais de duas décadas, é o personagem que escolhi neste Dia Nacional do Livro, para falar sobre um assunto que domina: livros e leitura.

Tem hoje 72 obras publicadas, dos quais 57 livros, que renderam 37 prêmios. O primeiro livro ‘O Peão Negro’ foi publicado em 1973. Os últimos publicados esse ano fazem parte da coleção ‘Livros sobre Livros’: volume 2 ‘Autores Catarinenses’ e volume 3 ‘Ernest Hemingway’. O volume 1 da coleção foi premiado pela Academia Catarinense de Letras e Artes (ACLA), na categoria Ensaio, em dezembro do ano passado.

Sobre incentivar a leitura em jovens ‘fissurados’ em celular, Enéas Athanázio deixa um sábio conselho: “Não existe receita para isso. Quando os pais são bons leitores, os filhos irão na mesma direção. Deixar livros, revistas e jornais à mão, espalhados pela casa,é um bom método. Comentar livros nas reuniões familiares também chama atenção, desde que todos não estejam com celular na mão…rs”.

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JP3 – Gostaria de iniciar a entrevista dizendo alguma coisa a seu respeito?

EA – Creio que as pessoas daqui já me conhecem, mas não custa dizer que sou Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Hoje, na verdade, sou apenas escritor, uma vez que não faço outra coisa e como no Brasil escritor não é profissão, sou um homem sem profissão, como dizia Oswald de Andrade.

JP3 – Quando publicou a obra de número 50, dizia que provavelmente seria a última da carreira. Felizmente hoje são 57 livros publicados e a construção segue…

EA – Estou com 57 livros publicados e mais três em andamento, devendo chegar aos 60. Esse deverá ser o momento de parar e me entregar a ocupações mais apropriadas a um homem em provecta idade, encharcado de tempo e entrado em anos. Ir à praia, caminhar um pouco, contemplar o mar e o céu, comer milho cozido e tomar água de coco e caldo de cana. Nada mais de escritos. Mas isso ainda vai demorar um pouco porque vida de escritor é um eterno esperar. A despedida será sem tristeza porque vivi na intensidade a vida do escritor, um privilégio num país pobre e que lê muito pouco.

JP3 – Datas como o Dia Nacional do Livro (29/10) servem atualmente como uma informação histórica, já que foi criada em 1810, quando nasceu a primeira biblioteca brasileira. Ou não?

EA – Tem toda razão. A data serve para sacudir a memória nacional, sempre tida como esquecida, e homenagear o livro, repositório da cultura humana e sem o qual não chegaríamos onde estamos. O livro é um amigo inestimável a merecer todas as reverências. Merece aplausos a comemoração da data pelo “Página 3”.

JP3 – O livro é uma ferramenta de construção do indivíduo. Deveria fazer parte do crescimento, na família, na escola, na universidade. Por que as pessoas lêem pouco?

EA – Creio que a ausência do hábito da leitura vem dos tempos coloniais. Não esquecer que a metrópole proibia as gráficas e impressoras, mandando destruí-las, e perseguia os leitores. Além disso, a leitura é uma atividade a dois, exige do autor e do leitor. E isso contraria a lei do menor esforço. Mas, por sorte, existe uma parcela da população que lê bastante, como se verifica nas grandes livrarias, editoras e no crescente mercado livreiro, inclusive de livros usados Na vida cotidiana é visível a diferença intelectual dos que lêem e dos que não o fazem. Quanto a mim, creio que não poderia viver sem eles. Minha casa é uma verdadeira livraria.

JP3 – A tecnologia é considerada um avanço no mundo contemporâneo. Quais os fatores positivos que ela trouxe para a literatura?

EA – Como em tudo, ela facilitou as coisas. Divulga, permite aquisição imediata e até publica livros inteiros. Mas não deve se transformar em adversária ou substituta do livro. Não há prazer igual a abrir um bom livro e viajar pelo mundo da imaginação e da criatividade. Há quem goste de ler na tela de um aparelho mas isso violenta os meus hábitos.

JP3 – Quando começou a se interessar pelos livros?

EA – Muito cedo. O internato possuía uma biblioteca razoável e eu li toda ela. Li inclusive os livros que os padres recolhiam a outra biblioteca, talvez julgando impróprios para a nossa idade. Desde então nunca deixei de ler. O caricaturista Moura, de saudosa memória, fez uma caricatura minha, já bem velhinho, e com um livro na mão. Perguntei a ele a razão do livro e ele me respondeu que jamais me viu sem um volume sob o braço… Um pouco exagerado mas próximo da verdade.

JP3 – Quando pensou em escrever o primeiro livro?

EA – Na minha juventude, um escritor era um ente etéreo, distante, intangível. Uma família vizinha, chegada do Rio Grande do Sul, tinha um garoto de minha idade. Ele me contou que conhecia Érico Veríssimo e o via todos os dias quando o escritor saía a espairecer. Comecei a ver o garoto com outros olhos: imagine, ele conhecia Érico Veríssimo em carne e osso! Quando um morador da cidade se atreveu a publicar um livro (“Convém casar?” – era o título) foi objeto de todas as chacotas. Vejam só que despautério – diziam – aquele negociante da esquina se meter a escritor! Ora, ora! Num cenário assim, pensar em escrever um livro seria uma temeridade. (Para minha surpresa, encontrei referências a esse livro numa obra recente de Celestino Sachet). Mas o desejo de escrever meu livro permaneceu submerso, até que me decidi.

JP3 – Qual foi a motivação?

EA – No convívio profissional e diário com o povo do Planalto e dos Campos Gerais, fui armazenando o linguajar e os causos que ouvia e sentia o impulso de colocar aquilo tudo no papel. Ao ler os autores catarinenses percebi que a região estava ausente na nossa literatura. Então comecei a escrever meus contos e guardá-los na gaveta. Até que um dia concluí que já tinha material para o primeiro livro. Publicar aqui era impossível, existia uma única editora que só publicava figurões. Então, num ato de coragem, coloquei os originais sob o braço e fui a São Paulo. Lá encontrei o Péricles Prade, juiz federal na capital, e ele me apresentou à Editora do Escritor. Aí tudo começou: no ano seguinte saía meu livro de estréia, “O Peão Negro.” Foi em 1973 e eu tinha 38 anos de idade.

JP3 – Gosta de ler por prazer, para buscar informações ou para se manter atualizado? E de escrever?

EA – Há livros que leio por puro prazer. Reli há pouco o “Moulin Rouge”, biografia romanceada do pintor Toulouse-Lautrec, e um volume de memórias de Gertrude Stein, ambos fascinantes (comentei-os na minha coluna). Outros, leio por curiosidade e alguns por obrigação intelectual porque não podem ser ignorados. Quanto a escrever, é uma necessidade, uma espécie de segunda natureza. Parece que a cabeça vai explodir se não botar para fora.

JP3 – De onde vem a inspiração para escrever um livro e como cria uma relação com o leitor, sem saber quem será esse leitor?

EA – Meu processo criativo é todo mental. A ideia brota na cabeça por qualquer motivo e às vezes sem motivo algum. Baila um pouco e desaparece. Quando é boa, volta e já vem com novos ingredientes, sinal de que o subconsciente continuou a trabalhar. E assim a novela, o conto ou a crônica vai se formando. Por outro lado, não adianta forçar. Não tomo notas, não faço lembretes. No caso do ensaio, tomo algumas notas muito sumárias. Quando comento livros uso as anotações feitas nos próprios durante a leitura (algo assim: |‘). Quanto ao leitor, esforço-me para descrever com perfeição o meu pensamento. Ao perceber que ele conhece meus personagens, sinto um prazer enorme ao verificar que um ser fictício que criei habita o universo de outra pessoa.

JP3 – E inspiração para escrever mais de 50 livros?

EA – Pois é, aconteceu e até eu me espanto; Mas o fato é que já vivi bastante e trabalhei, nunca tive preguiça. Não fiquei no boteco da esquina tomando cerveja e falando mal dos colegas. A literatura é uma amante exigente e aprendi com Hemingway que na vida do escritor a disciplina é fundamental. Entre as 6 e as 14 horas ele não falava com ninguém, não atendia ao telefone e não saía da torre da Finca Vigia, em Cuba. Ali ele se entregava ao mais solitário dos ofícios, o de escrever. Simenon, por sua vez, quando estava escrevendo não recebia nem o próprio editor. Nunca cheguei a tal ponto, mas quando escrevo procuro me isolar.

JP3 – Quais os livros que mais apreciou até hoje? Qual o seu autor preferido? Por quê?

EA – Foram muitos mas existem autores que me encantam e que releio com intenso prazer; São os meus monstros sagrados, como Monteiro Lobato, Godofredo Rangel, Lima Barreto, Gilberto Amado, Humberto de Campos. Tenho predileção por escritores que foram também homens de ação, como Jack London, Ernest Hemingway (sobre quem escrevi um livro), George Orwell e o nosso Lobato. Neles, a literatura é mais que vida porque é a vida aumentada no coração do artista.

JP3 – Como define hoje o mercado literário no Brasil?

EA –– Eu diria que existem dois mercados literários no Brasil, paralelos. Há o oficial, das grandes editoras e livrarias, e o outro que corre à margem e publica grande quantidade de obras que muitas vezes passam em branco, ignoradas da mídia. Os dois mercados são crescentes. Tornou-se muito fácil publicar e coisas que não mereciam aparecem a toda hora. Cabe ao leitor separar o joio do trigo.

JP3 – Como enxerga o futuro da literatura?

EA – Radioso e brilhante. A literatura acompanha o homem desde que ele se alfabetizou e nunca o abandonou. Aconteça o que acontecer, haverá homens trabalhando com as letras e dando margem às suas criações. E também registrando os passos e os tropeços da humanidade na sua caminhada pelos tempos a fora.

JP3 – Espaço aberto…

EA – Encerro felicitando o “Página 3” pela justa e merecida comemoração do Dia Nacional do Livro.


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