Fundador diz que Praia do Pinho deveria ser um patrimônio histórico de Balneário Camboriú 

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O naturismo foi implantado no Brasil há quase 40 anos, a partir de um grupo de frequentadores da Praia do Pinho, liderada por um gaúcho idealista chamado Celso Rossi. Ele abandonou a faculdade de Direito e trocou seu trabalho na empresa da família para viver ‘dentro’ da natureza e do jeito que veio ao mundo. 

Era uma filosofia de vida que na Europa existe desde os anos 30.

Com a esposa veio morar no Pinho no início dos anos 80 e em 1986 foi um dos fundadores da Associação Amigos da Praia do Pinho (AAPP).

Celso Rossi, na Praia do Pinho, quando nasceu o filho mais velho, em 1989 (Arquivo pessoal)

Ali mesmo, muitas e várias vezes a ‘novidade’ foi criticada, virou notícia, condenada por questões conservadoras ou religiosas, mas com o tempo as comunidades entenderam esse estilo de vida e conseguiram conviver.

No Pinho, escrevendo os estatutos da Federação Brasileira (Arquivo Pessoal)

Em 1988 Celso Rossi fundou a Federação Brasileira de Naturismo (FBrN) e outras praias e associações naturistas nasceram, entre elas as mais conhecidas, Pedras Altas, em Palhoça e Tambaba, em João Pessoa. 

Em 1995, implantou o Centro Naturista Colina do Sol, na gaúcha cidade de Taquara, onde morou por muitos anos.

Atualmente está aposentado e vive em um veleiro, na Lagoa dos Patos (RS).

Toda a história do naturismo está registrada no livro “Naturismo: a redescoberta do Homem: a conquista do nudismo no Brasil”, escrita pelo seu principal protagonista, Celso Rossi.

Primeira tentativa de fechar o Pinho foi há 33 anos

Celso Rossi (violão) e amigos no Pinho (Reprodução)

Nesta semana a reportagem conversou com Celso Rossi sobre o projeto do vereador Anderson. 

Ele lembrou que outros vereadores, em épocas passadas, já tentaram ‘fechar’ o Pinho. Entre eles, Rudis Cabral e Paulo Corrêa, ambos por questões conservadoristas. Mas em uma época distante, há mais de três décadas…

Sob a presidência de Paulo Corrêa, o ‘fechamento’ chegou a ser aprovado em primeira votação por 5×4 em uma quinta-feira e quatro dias depois, estava marcada a segunda votação que acabou nem acontecendo, porque Celso Rossi alertado pelo jornalista Bola Teixeira, movimentou a cidade, pedindo ajuda às autoridades, à hotelaria e à comunidade em geral. 

O plenário da Câmara lotou e os vereadores se reuniram antes da sessão e decidiram encerrar o assunto ali mesmo. Nem chegou a ser discutido na ordem do dia e a praia do Pinho continuou viva.

Imagem reproduzida do livro ‘Naturismo: A redescoberta do homem’

A reportagem também ouviu outros envolvidos diretamente na época, como o ex-prefeito Leonel Pavan, o então vereador Dado Cherem, hoje conselheiro do Tribunal de Contas do Estado, o secretário de Turismo da época, Osmar de Souza Nunes Junior (Mazoca) e o jornalista e escritor Bola Teixeira.

Opinião de Celso Rossi

“O que está por trás? Questão moral ou imobiliária?

(Arquivo Pessoal)

“O nosso movimento naturista que começou no Pinho era estritamente familiar e dentro desta ótica, nada diferente deve acontecer. A questão do comportamento na praia pode acontecer em qualquer praia ‘vestida’. 

Atentado ao pudor deve ser tratado igual, com roupa ou sem roupa. No nosso tempo, as regras eram rigorosamente cumpridas, todos seguiam um código de ética, e ainda assim, havia fiscalização lá. 

Vejo que pode haver outra questão envolvida, porque Balneário Camboriú cresceu demais e a pressão imobiliária é forte. Talvez o naturismo instalado não atinja o valor comercial, o valor desejado para acompanhar esse crescimento”.

“Que exemplo de gratidão é esse?”

“Nós levamos a imagem de Balneário Camboriú para o país e para o mundo. A cidade tornou-se conhecida, atraiu muitos turistas e reportagens no mundo todo.

A Praia do Pinho deveria ser reconhecida como um patrimônio histórico, mas para isso precisa de uma lei.

Agora querem fechar a praia? Que exemplo de gratidão isso representa para uma praia que levou a imagem turística de Balneário Camboriú para o mundo? Isso vai repercutir negativamente!”

MAIS OPINIÕES

(Reprodução)

“A quem interessa esse retrocesso?”

(Arquivo Pessoal)

Bola Teixeira, jornalista e escritor

“O naturismo já era praticado na Praia do Pinho antes da famosa reportagem da revista Manchete. Lembro que, trabalhando no Jornal de Santa Catarina, fomos eu e o fotógrafo (bem provável que tenha sido o Jandyr Nascimento) até a praia onde conversei com Domingos Fonseca. Lembro até hoje a foto dele publicada no Santa.

Foi no verão de 86 que houve a operação da polícia que resultou na prisão de 25 naturistas, por determinação da Secretaria de Segurança, sob o comando do delegado Edson Forneroli que relata com detalhes na sua biografia “Como Criar um Corrupto”. 

Nessa ocasião até mesmo Domingos Fonseca seria indiciado por causa da placa fixada na entrada da praia: “Daqui para frente só sem roupa”.

Logo após a prisão dos nudistas, recordo que houve um evento no Hotel Marambaia que reuniu um monte de político de primeiro escalão. 

Fomos os jornalistas Emerson Ghislandi, Magru Floriano e eu até o evento e realizamos uma enquete cujo resultado foi quase que unânime a favor do naturismo no Pinho. Claro, fizemos questão de publicar o posicionamento dos políticos famosos nas páginas do Santa.

Vereadores como Rudis Cabral e João Machado comandaram a resistência com a cumplicidade da comunidade evangélica da Barra. Diziam ser um antro de promiscuidade e perversão.

Passados praticamente 40 anos, vejo o vereador Anderson dos Santos como o novo porta voz do atraso. Desde que foi aberto o acesso público à praia que os objetivos do movimento foram desvirtuados, situação que poderia ser controlada se houvesse interesse dos governos municipais. 

Pecaram pela omissão de coibir os atos indesejáveis, inclusive o próprio Anderson negligente, porque foi subprefeito da região das praias e comprometeram a imagem de uma área conhecida internacionalmente como reduto naturista. 

É mais fácil proibir a prática do naturismo do que cumprir com as obrigações do poder público. A quem interessa esse retrocesso é que eu gostaria de saber.”


“O naturismo era praticado de forma correta lá”

(Foto Renata Rutes)

Osmar de Souza Nunes Filho, o Mazoca, hoje é secretário de Obras de Balneário, mas na época da oficialização da Praia do Pinho, era secretário de Turismo da cidade

“Ainda no início da década de 1980, naturistas já frequentavam, de forma muito tímida, a Praia do Pinho, mas então em 1984 a extinta Revista Manchete divulgou o que ali acontecia, com chamada de capa sobre ‘a praia naturista de Balneário Camboriú’. A Manchete tinha tiragem nacional de 400 mil exemplares, com isso a coisa realmente aconteceu e a Praia do Pinho foi oficializada como a primeira praia de naturismo do Brasil. 

A minha participação foi nesse começo, na época eu recebi o representante da Associação Internacional de Naturismo. Eu deixei de ser secretário, mas a praia teve um crescimento natural de forma gradativa. Tinham muitos adeptos na época e que agiam de forma muito respeitosa, com código de ética e tudo mais. Foi aumentando o número de frequentadores junto com o acesso pela Rodovia Interpraias. 

Na época, o Celso Rossi era representante da Associação da Praia do Pinho. O que eu pude fazer para colaborar com eles, também através da Santur, a qual também comandei, eu fazia. Participei também do Congresso Nacional de Turismo lá, pela Santur. A Praia do Pinho foi exemplo para outras que surgiram.

O naturismo era praticado de forma correta lá. Até tinha divisão de solteiros e famílias e não podia ter nada sexual. 

Infelizmente, houve essa série de fatos, chegou até esse ponto atual. Lamentavelmente, aconteceu um desvio, com pessoas mal intencionadas que não cumprem os preceitos, fazendo coisas indecentes, e aí perde o foco. 

O naturismo existe há muito na Europa, aqui os bons estão pagando pelos ruins, que são a minoria. 

Parece que as pessoas não querem respeitar. 

Na área pública eu sinto muito isso – acontece com o vandalismo que fazem pela cidade, com pichações, também na praia, onde não pode cachorro, mas levam.

Eu vejo que dava para estudar se é possível a polícia ficar mais ali, mas sei que não dá para barrar as pessoas porque a praia é pública. 

Não sei qual seria a solução, mas é uma pena que acabe porque foi muito importante, Balneário ficou muito famosa na época pela Praia do Pinho, foi uma dimensão inacreditável. Muitos programas de TV vinham ali. 

Foi uma mudança de parâmetros muito grande, na época para o Brasil era algo muito diferente. Faziam Carnaval, Réveillon, reunia muita gente, e com muito respeito, eram famílias. 

É lamentável isso que está acontecendo, cogitando acabar por causa da conduta de poucos que prejudicam a maioria”.


“Vai gerar uma discussão sem necessidade”

(Divulgação)

Leonel Pavan, ex-prefeito de Balneário Camboriú 

“Estão criando uma celeuma em cima de algo que já está há mais de 30 anos enraizado em Balneário Camboriú e não trouxe nenhum prejuízo econômico. Pelo contrário, fez com que Balneário Camboriú fosse ainda mais conhecida no Brasil e no exterior…e 30 anos atrás a população que aqui morava não criou maiores embates e debates sobre esse assunto, não houveram divergências rigorosas na época…

O que tinha na época era muito top less na praia central de Balneário e ali sim, as pessoas questionavam isso…e quando foi implantada a Praia do Pinho foi resolvido, quem queria fazer top less agora tinha um espaço…e nós fomos rigorosos na fiscalização, porque o top less por aqui, na praia central, foi realmente rejeitado pela população. 

A Praia do Pinho tem toda vegetação preservada, o meio ambiente correto, protegido e realmente vai gerar uma discussão sem necessidade, especialmente nesse momento em que se discute muito o que a esquerda quer, o que a direita quer…teríamos tantos outros assuntos mais necessários e urgentes…como a galeria pluvial na Atlântica, porque o escoamento da água está prejudicado e se houver uma chuva muito forte…O alargamento foi muito bom, mas é preciso discutir com urgência a necessidade de uma grande galeria, do muro de arrimo para a areia, entre outras questões…

Mas voltando ao Pinho…é algo implantado há mais de 30 anos que está tomando outros rumos ou pretendem que tome outros rumos. 

Desejo que as autoridades locais tenham discernimento e analisem qual é o prejuízo social e econômico que está dando para a cidade? 

Pelo que sei aquela é uma área privativa, a praia pode ser usada pelos costões, mas o terreno é particular…já tentaram acabar com isso na justiça, mas não comseguiram”.


“Trata-se de uma pauta conservadora hipócrita”

(Arquivo Pessoal)

Luiz Eduardo Dado Cherem, ex-vereador, hoje conselheiro do Tribunal de Contas do Estado

“Votei contra o fechamento da Praia do Pinho em 89, proposto pelo então presidente da Câmara, Paulo Corrêa. Chegou a ser aprovado em primeira votação, mas a segunda nem aconteceu, porque houve um forte movimento da população.

O vereador Anderson está combatendo a consequência e não a causa. Tomara que esse motivo não seja o conservadorismo que vem se alastrando no país. 

É uma questão cultural. Existe na Europa desde os anos 30. 

Trata-se de uma pauta conservadora hipócrita que está tentando se assoberbar hoje. Nunca em todos esses anos soube de alguma notícia que denegriu a imagem do turismo. 

Se existe problema hoje, como alega o vereador, quem está falhando é o poder público e não os naturistas.

Querem acabar com a floresta por causa de três árvores?”

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