(FOLHAPRESS) – Em 29 de setembro de 1974, no cruzamento das ruas Malabia e Cerviño, em Buenos Aires, uma mulher tenta acionar três vezes o detonador apoiado em seu colo. Diante da falha técnica, ela passa o mecanismo caseiro ao marido, o agente americano Michael Vernon Townley, que aperta o botão e sela o assassinato do general chileno Carlos Prats, antecessor de Augusto Pinochet e fiel à legalidade constitucional de Salvador Allende, e de sua esposa, Sofía Cuthbert.
Da janela do carro, Mariana Callejas assistia à explosão com uma perturbadora mistura de espanto e dever cumprido.
O episódio abre com precisão o livro “Linhas Tortas: Um Perfil de Mariana Callejas” (Mundaréu), do jornalista chileno Juan Cristóbal Peña, e sintetiza a face mais ousada e sombria da ditadura pinochetista: a internacionalização do terror de Estado.
Enquanto a maioria dos regimes militares sul-americanos concentrava a repressão em suas fronteiras, a polícia secreta chilena, a temida Dina, montou uma engrenagem transnacional de execuções seletivas para liquidar lideranças com prestígio global que pudessem articular e liderar a oposição democrática no exterior.
A rede de extermínio da Operação Condor executou ou tentou assassinar seus alvos mais simbólicos em grandes capitais estrangeiras: Prats em Buenos Aires (1974), o democrata-cristão Bernardo Leighton em Roma (1975) e o ex-chanceler Orlando Letelier em Washington (1976), este em pleno coração diplomático dos Estados Unidos.
O aspecto mais singular revelado na rigorosa apuração de Peña reside no elo doméstico e cultural dessa engrenagem. Townley, técnico autodidata em explosivos recrutado pela Dina, operava lado a lado com Callejas. Ela, uma aspirante a escritora cuja obsessão pelas letras corria em paralelo ao fanatismo anticomunista.

Nos anos 1970, a mansão do casal no aristocrático bairro de Lo Curro, em Santiago, abrigava um duplo assombroso. No piso superior, Callejas recebia jovens autores e críticos para concorridas oficinas de contos regadas a uísque, nas quais se debatiam Flaubert, Camus e Hemingway. Nos porões, operava o laboratório clandestino onde Townley e o químico Eugenio Berríos sintetizavam armas químicas, como o gás sarin, e montavam as bombas caseiras usadas nas missões internacionais.
A força do trabalho de Peña, erguido sobre autos processuais e longas entrevistas com Callejas antes de sua morte em 2016, está em demonstrar que a literatura não era mero disfarce. Callejas pagou do próprio bolso a publicação de seus livros quando rejeitada por editoras tradicionais e perseguiu o reconhecimento artístico com o mesmo empenho dedicado às conspirações.
O pacto conjugal ruiu quando Townley, após anos de silêncio nos Estados Unidos, confessou à juíza argentina do caso Prats a cumplicidade da esposa, resultando na condenação de Callejas pela Justiça chilena em 2008.
Ao resgatar essa trama verídica que inspirou obras de Roberto Bolaño e Ariel Dorfman, “Linhas Tortas” ilumina a ousadia criminosa do terror extraterritorial e coloca um dilema moral perturbador, no rastro de Louis-Ferdinand Céline: como a sensibilidade para a alta arte pode conviver, sem ruídos, com a frieza do extermínio de Estado. É essa a chave desse fantástico livro.
Linhas Tortas: Um perfil de Mariana Callejas
Preço R$ 89 (328 p.)
Autoria Juan Cristóbal Peña
Editora Mundaréu
Tradução Bruno Cobalchini Mattos
Avaliação Muito bom