(Arquivo pessoal)

Mauro Gaglietti é o novo colunista do jornal Página 3.

JP3 – O Sr. assume uma coluna às vésperas de tomar posse na Academia de Letras de Balneário Camboriú. O que significa ocupar essa “terceira página” neste momento?

Mauro – Significa, antes de tudo, uma responsabilidade. Estou chegando a um jornal com 35 anos de história, ocupando um espaço que nasceu para o debate, para a reflexão, para o jornalismo de opinião. E há também uma alegria que não faço questão nenhuma de esconder.

A coincidência entre os dois acontecimentos — estrear como colunista e, poucos dias depois, tomar posse na Academia de Letras de Balneário Camboriú — me parece mais profunda do que um simples acaso. São duas portas diferentes para uma mesma casa: a casa da palavra.

Para mim, uma Academia de Letras não deve ser um lugar de vaidades, mas de pertencimento. É um espaço onde uma comunidade guarda suas histórias, suas memórias e suas vozes. Mas a palavra não foi feita para permanecer na estante. Ela cumpre seu destino quando sai do livro, atravessa a rua e encontra alguém.

E é isso que o jornal faz. A palavra do jornal está na mesa do café, na tela do celular, na conversa entre amigos, na concordância e também na discordância de quem lê. É uma palavra viva, em movimento.

Penso muito, nesse momento, em Lindolf Bell, patrono da Academia. Ele compreendeu que a poesia não deveria esperar pelo leitor; deveria ir ao encontro dele. Por isso o notamos como um verdadeiro catequista da poesia: alguém que levou o verso para a rua, para a praça, para o cotidiano.

Talvez esteja aí o sentido mais bonito deste momento da minha vida: a Academia preserva a palavra; o jornal a coloca novamente em circulação. E eu tenho o privilégio — e a responsabilidade — de estar entre esses dois movimentos.

No fundo, talvez eu esteja apenas mudando de lugar para continuar fazendo a mesma coisa: conversar com as pessoas por meio das palavras.

2. Como a sua chegada à Academia vai se refletir na coluna do Página 3? Que temas e que tom o leitor pode esperar?

Mauro – Tenho o desejo de que o leitor encontre uma coluna que compreenda a escrita como uma forma de cuidado — com as palavras, com as pessoas e com o tempo em que vivemos.

A chegada à Academia de Letras amplia meu compromisso com a literatura, a memória cultural e a palavra, mas não quero transformar isso em solenidade. A literatura que me interessa é aquela que desce do pedestal e senta conosco à mesa.

Vou escrever sobre Balneário Camboriú, Santa Catarina, o Brasil e o mundo; literatura, ciência, cultura, história, política, questões sociais, empatia e mediação de conflitos. Mas também sobre aquilo que nos atravessa enquanto estamos ocupados vivendo: encontros, perdas, envelhecimento, solidão, amor, memória, empatia e as pequenas coisas que só percebemos quando já passaram.

Quero olhar para Balneário Camboriú para além do cartão-postal: enxergar as pessoas, as histórias, os antigos moradores, pescadores, artistas, escritores e todos que ajudaram a construir a cidade. Escrever sobre a cidade que emerge entre sinais de um mundo possível.

O tom será reflexivo, às vezes lírico, até poético, quem sabe algo como uma fina mistura com temperos para todos os gostos, às vezes inquieto, mas sempre acessível. Imagino a coluna como uma conversa entre duas pessoas que se encontram por acaso: sem a obrigação de dizer tudo, mas com o cuidado de não dizer qualquer coisa. 

Balneário Camboriú vive uma transformação urbana, econômica e humana muito intensa. Que conversa você gostaria de provocar com os leitores e que contribuição espera deixar como futuro acadêmico e articulista?

Mauro – Gostaria de provocar uma pergunta simples, mas talvez incômoda: o que permanece quando tudo muda?

Balneário Camboriú cresce em altura numa velocidade impressionante. Mas uma cidade não se mede apenas pelos metros quadrados construídos, pelos edifícios que chegam ao céu ou pelos números da economia. Uma cidade também precisa crescer em memória, sensibilidade, cultura e capacidade de reconhecer a própria história.

Os edifícios podem subir em poucos meses. A identidade de um lugar, não. Ela se constrói lentamente, nas histórias que os avós contam, nos livros que alguém escreve, nos poemas que sobrevivem, nas fotografias guardadas e nas lembranças que passam de uma geração para outra.

Por isso, gostaria de conversar com o leitor sobre aquilo que talvez não apareça nos cartões-postais: quem éramos, quem estamos nos tornando e que cidade desejamos deixar para aqueles que ainda virão.

Acredito que uma cidade também é feita de palavras. E cada geração tem a responsabilidade de não deixar que o silêncio apague aquilo que o tempo ainda pode contar.

Se uma crônica fizer alguém lembrar de uma pessoa querida, se um poeta despertar o desejo de ler, se uma história provocar uma conversa ou se algumas linhas fizerem alguém olhar para Balneário Camboriú de maneira diferente, a coluna já terá cumprido sua finalidade.

E talvez não exista maneira mais bonita de chegar à Academia de Letras: chegar não como quem encerra uma trajetória, mas como quem abre uma nova conversa com a cidade.


Mauro Gaglietti é professor universitário e Mediador de Conflitos, com extensa carreira profissional. Sua formação acadêmica inclui Doutorado em História/PUCRS, Mestrado em Ciência Política/UFRGS, Graduação em Licenciatura Plena em História/UFSM e Especialização em História do Brasil/UFSM.