Medalhas na estreia olímpica motivam skatistas: conheça Ana e Nicolas, de Balneário Camboriú

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A conquista das medalhas de prata dos skatistas Kelvin Hoefler e Rayssa Leal, a Fadinha do Skate, de apenas 13 anos, na estreia da modalidade Street nos Jogos Olímpicos de Tóquio servirá como inspiração para milhares de jovens em todo o país. 

O skate tende a crescer diante da visibilidade, mas também pede por mais incentivo – tanto que o próprio Kelvin citou a importância de o Brasil investir em boas pistas para que os atletas tenham locais apropriados para treinar. Mas uma coisa ambos concordam: o esporte deve ter um crescimento merecido no país após o bom resultado dos dois, que pode ser potencializado com a estreia do Skate Park nos próximos dias. 

O Página 3 conversou com skatistas de Balneário Camboriú, incluindo dos jovens talentos, Aninha e Nicolas, que relatam sua experiência no esporte e a alegria de enfim ver o skate como esporte olímpico. Confira. 

Aninha, de 8 anos,
se apaixonou pelo esporte
ainda bebê  

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Foto: Ana sonha em ser skatista profissional e tem apoio dos pais (Arquivo pessoal/Divulgação)

Ana no campeonato, com menos de 2 anos, onde se apaixonou pelo ‘kate’ (Arquivo pessoal/Divulgação)

A história de Ana Luiza Bonini Vieira (@aninha_bcsk8), 8 anos, a Aninha, com o skate começou ainda cedo.

Segundo a mãe, a educadora física e instrutora de pilates, Ingrit Bonini Vieira, a Indy, o amor começou quando Ana ainda era bebê e foi totalmente espontâneo, mesmo sem ter um skatista em casa. 

“Eu nunca pensei que ela se tornaria uma skatista. Ela não tinha nem dois anos quando nós fomos em um barzinho onde estava acontecendo um campeonato de skate e essa menina ficou enlouquecida, ela queria entrar na pista. Era um bowl bem fundo e, depois do campeonato, tinham alguns competidores com skate, e ela corria atrás deles para andar de skate (risos)”, conta. 

Ana com o professor Thiago Língua (Arquivo pessoal/Divulgação)

Pediu um ‘kate’ aos dois anos 

Quando Aninha completou dois anos, a mãe perguntou o que ela queria de presente, e ela pediu um ‘kate’. 

“Era um de brinquedo, das princesas, e ela andava se arrastando com ele pela casa, deitada, até que começou a ficar em pé. E cada vez mais ela começou a ter interesse pelo skate. Quando passava um skatista pela rua ela corria atrás, se ela via alguém com o skate parado ela pedia para subir. Ela foi se familiarizando e, por percebermos, que ela realmente gostava, começamos a procurar na internet aulas de skate particular e, por acaso, encontrei o Skate Ensina. Ela já estava com cinco anos, foi com o ‘skatinho’ de brinquedo que ela tinha, e chegando lá só tinha meninos”, relembra. 

A única menina da turma 

O Skate Ensina é um projeto da Associação de Skate de Balneário Camboriú (BCSB), onde skatistas dão aulas gratuitas para crianças nas pistas da cidade – tendo iniciado na Barra Sul. Indy imaginava que, por ter só meninos, a filha não ia querer voltar para as aulas, já que eles até mesmo a mandavam ir para o final da fila porque ela era menina. Porém, Aninha não desistiu e se impôs, dizendo que ia andar de skate. Três anos se passaram e Ana Luiza, agora com 8 anos, continua participando das aulas do Skate Ensina. 

Ela mesma contou ao Página 3 que no começo os meninos ‘não davam muita bola’ para ela, mas que com o apoio do professor conseguiu. 

“Eu sempre gostei! Agora vou ganhar um skate novo de aniversário!”, disse. 

Aninha quer se profissionalizar, pais a apoiam

Aninha precisou ficar os últimos 45 dias ‘em pausa’ porque quebrou o braço brincando (foi pular por cima de um banco e quebrou o braço), agora está se programando para voltar. Ela tem skate profissional, capacete, cotoveleira, etc. 

A mãe salienta que o que mais gosta no projeto Skate Ensina é que ensinam muito mais do que o esporte, mas também empatia, respeito pelo próximo, acolhimento, dividir vitórias – quando um acerta, o outro fica feliz. As crianças também se ajudam e trocam experiências. 

Aninha só participou de um campeonato infantil, na pista da Barra Sul, mas a família já foi assistir a alguns campeonatos. “Uma coisa muito interessante é o quanto ela confia no professor, quando ele está junto ela faz tudo o que ele disser que ela pode fazer (risos). Ela acompanha a Rayssa, a Letícia (Bufoni), tanto nas Olimpíadas quanto no Instagram. Ela gosta de ver vídeos de outros skatistas. Ficamos super felizes por ver elas crescendo no esporte, a Rayssa, tão jovem e ganhando o mundo. É uma inspiração para a Ana, que agora tem outras meninas junto com ela no Skate Ensina. Muitas perguntavam para ela se podiam participar, como se o esporte fosse só para meninos, e não é! É um esporte como qualquer outro. E eu admiro, porque a Ana no skate é destemida, corajosa e ela quer ser uma profissional do skate. Eu e o pai [o empresário Alan Vieira] dela vamos continuar incentivando enquanto for isso que ela quer, com muito orgulho da escolha dela”, completa.


Nicolas, de 12 anos, já é atleta do skate e representou Balneário na final brasileira de Bowl Park, em 2019 

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Foto: Nicolas quando começou a andar de skate (Arquivo pessoal/Divulgação)

Nicolas Falcão (@nicolasfalcaosk8) é natural de Balneário Camboriú, tem 12 anos e é da categoria Bowl, Park e Vertical do skate.

Ele conta que seu primeiro contato com o esporte foi em uma festa de final de ano na casa de amigos dos seus pais.

“Meus pais contam que eu deixei de lado os brinquedos que eu tinha levado e fiquei a tarde toda brincando com o skate. No ano seguinte, na escola, no dia do brinquedo, levei minha bike. Quando minha mãe foi me buscar, eu corri contar felizão que tinha trocado ela pelo skate do meu amigo. Andava deitado nele e remava com as mãos, me lembro como se fosse hoje, era uma sensação incrível, mas infelizmente tive que fazer a destroca”, relembra.

Nicolas na casa de Pedro Barros, onde treina (Arquivo pessoal/Divulgação)

Nicolas e Pedro Barros no CT Aktion Paz, em Floripa (Arquivo pessoal/Divulgação)

Hoje é atleta da Aktion Paz, de Floripa 

Porém, dias depois, Nicolas foi surpreendido pelos pais, que lhe deram de presente o primeiro skate. Aos finais de semana ele se reunia com os vizinhos, no Bairro Pioneiros, e iam andar de skate no estacionamento de uma concessionária que tinha no bairro, na Avenida do Estado. 

“Depois meu pai [o administrador Eduardo Falcão] começou a andar comigo na ciclofaixa da Avenida Atlântica, eu com meu skate e ele com o dele, íamos até a praça Tamandaré e voltávamos para a Barra Norte. Eu apenas remava, não sabia fazer nenhuma manobra com o skate”, diz. 

Em um desses finais de semana, quando Nicolas e Eduardo passaram pela pista de skate da Barra Sul, descobriram que lá acontecia um projeto social de skate, que era conduzido pelos skatistas: Thiago Língua, André Scheeffer, Ramon Bagnara, Gabriel Steffen, Neto Duwe e Marlon Fagundes. 

“Comecei então a participar do projeto de skate. Um desses projetos tempos depois ganhou força e passou a se chamar Skate Ensina. O Skate Ensina foi fundamental para eu criar uma base, aprendi a andar, fazer manobras, a cultura, o respeito, as regras. Uma introdução para continuar praticando a arte, cultura, estilo de vida e hoje esse esporte que amo tanto e faz parte da minha vida”, afirma. 

Em janeiro de 2018, no Édem Skatepark, que fica na Praia Brava de Itajaí, aconteceu o OI PARK JAM, evento da modalidade Park, com atletas nacionais e internacionais, etapa inicial qualificatória para as Olimpíadas de Tóquio 2020. Foi a primeira vez que Nicolas assistiu um campeonato internacional, e ele afirma que foi ‘amor à primeira vista’.

“Participei de uma oficina que teve no dia do campeonato e fiquei apaixonado pela modalidade skate park. Conheci os atletas e um dos meus ídolos hoje, Pedro Barros, que é a minha maior inspiração. Alguns dias depois do Campeonato (01/02/2018), comecei a fazer aulinhas de skate com Marcelo Kosake, tri campeão brasileiro da modalidade vertical, e não parei mais, ando de skate quase todos os dias, ando no street, bowl, park e half. Há três anos faço parte da equipe de atletas Aktion Paz em Florianópolis, onde faço meu treino físico com o educador Thiago Sartori. E tenho treinos de skate com os profissionais Affonso Muggiati na Hi Adventure, Miguel Catarina (técnico da seleção oficial brasileira de Skate Park) Allan Mequista (técnico da seleção júnior brasileira de Skate Park)”, salienta. 

“O skate é legal por isso, teus ídolos são seus parceiros de rolê!” 

Nicolas diz que está acompanhando as Olimpíadas ‘muito empolgado e feliz’, principalmente pela estreia do skate, é claro. 

“Fiquei na torcida pela seleção de Street, e vibrei muito com as medalhas de prata que o Kelvin e a Rayssa ganharam. Agora estou na expectativa e na maior torcida pela seleção brasileira de skate park, que já está em Tóquio e que irá disputar nos dias 3 e 4 de agosto as Olimpíadas. Torço por toda a equipe de park, mas principalmente para três atletas que são de Santa Catarina: Pedro Barros, Yndiara Asp e Isadora Pacheco. Tanto no Centro de Treinamento Físico Aktion Paz, quanto nas pistas eu sempre encontro com eles. O skate é legal por isso, teus ídolos são seus parceiros de rolê! Pedro Barros é a minha inspiração, sou muito grato por ele abrir as portas da casa dele para que eu possa fazer meus treinos tanto no Bowlzão, quanto no Half do RTMF”, conta. 

Pais de Nicolas veem que esporte está crescendo: todos são skatistas! 

Eduardo Falcão, administrador e Aline Saraçol, financeiro

“Apesar do preconceito que ainda tange o skate em geral, particularmente vemos ele como uma ‘ferramenta inspiradora’, inclusão e assistencialismo social, lazer, transporte e esporte, inclusive agora olímpico. Skate também é um estilo de vida. Além de persistência, determinação, foco, e diversão garantida o skate proporciona muita troca, vivencia e amizade. A liberdade e pluralidade social que o skate proporciona é incrível. Nossa família vive essa experiência, ‘estilo de vida’ de corpo e alma, somos todos skateboard. O skate nos trouxe muitas amizades.  Além de socialização que é muito importante, o skate é democrático. Acreditamos que algumas mudanças irão acontecer para melhor após as olimpíadas, em todas as modalidades, principalmente nas olímpicas street e park. Esperamos que o poder público dê a devida atenção ao skate assim como aos demais esportes. Construa centros de treinamentos e pistas de skate adequadas, em espaços públicos, para acesso a todos. Que exista mais projetos sociais, assim com o Skate Ensina. Que haja mais investimento nas categorias de base, os quais muitos já representam suas cidades e estados. Preparando esses futuros atletas para representar quem sabe futuramente o país em competições internacionais e até olímpica. Sem a base, alicerce, não existe uma construção sólida e duradoura. O skate sempre foi legal e divertido, que bom que agora todos estão descobrindo isso”. 


Skatistas comemoram reconhecimento do esporte, mas veem que apoio é necessário

Representantes do skate em Balneário e em SC veem que esporte precisa de mais apoio, mas Olimpíadas foi de grande visibilidade para a modalidade (Arquivo pessoal/Divulgação)

Marcelo Scheeffer, membro da diretoria da BCSB

“Nós da diretoria enxergamos que o skate foi reconhecido como um fenômeno de transformação social. O que antes era perseguido, hoje é aceito. A sociedade enxergou o lado bom e qualitativo de praticar o skate em locais apropriados e saudáveis. Nesta linha que a BCSB tem executado suas ações desde a sua criação e fundação em 1999, necessária para reivindicar a construção do skatepark da Barra Sul inaugurado em 2000”. 

Ramon Bagnara, presidente da Federação Catarinense de Skate

“É uma vitória para o skate de forma geral. Teve muita história para chegar até aqui e ter esse reconhecimento [nas Olimpíadas]. Com certeza essa ascensão do skate abrirá muitas portas, como a valorização digna dos atletas e o aumento de incentivo dos órgãos públicos e empresas privadas aos projetos sociais relacionados ao skate como ferramenta educacional para crianças e jovens de todo o Brasil. Ter dois atletas com medalha de prata e um deles sendo uma menina de apenas 13 anos, mostra como o skate brasileiro tem potencial e precisa ser incentivado, pois em todas as cidades encontramos um fenômeno no skate que só está precisando de uma oportunidade para brilhar e inspirar outras pessoas”. 

André Scheeffer, proprietário da loja Função Skate Shop, que tem 22 anos de história na cidade

“O skate já vem crescendo faz tempo, uns 20 anos, acho que as Olimpíadas não vão influenciar muito nas vendas, vai continuar o mesmo, e vejo que o respeito pelo esporte pode melhorar. Aqui na Função temos skate de R$ 200,00 para iniciantes. As Olimpíadas foram, para o skate, um campeonato como os outros eventos que já acontecem e são muito mais prestigiados, mas foi para mostrar para as pessoas que não conheciam o skate como o esporte é. Eu faço aulas de skate gratuitas desde 2012, um projeto social feito pela Função Skate Shop e que nenhuma outra loja faz. De uns três anos pra cá, em 2018, começaram a aparecer algumas meninas no projeto. Hoje, tem mais menina que menino [nas aulas]”.


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