“No lixão da República, na véspera da urna, as latas fizeram assembleia. Latas têm esse dom: quanto mais vazias, mais ressoam

Mauro Gaglietti *

Uma garrafa PET subiu ao palanque e prometeu transparência a todos os vidros. Os vidros, que de transparência entendiam, acharam graça e não disseram nada.

A sacola amarela vaiava. A sacola vermelha aplaudia. Depois o vento trocou-as de lugar, e elas continuaram, muito dignas, a vaiar e a aplaudir o que o vento mandasse.

De um lado, os restos de amarelo gritavam que o lixo era vermelho. Do outro, os restos de vermelho juravam que o lixo era amarelo. Nenhum reparava que o caminhão da intolerância, que não tem partido nem ouvido, recolhia todos os sacos na mesma carroceria e os despejava no mesmo aterro de pó.

Foi quando o pneu velho, que de tanto rodar eleição ficou com a memória redonda, perguntou devagarinho, como quem desenterra uma minhoca:

— E se o problema não for a cor do saco, mas o que a gente anda botando dentro?

Fez-se um silêncio de chinelo caído.

A barata, sobrevivente profissional de todos os governos e doutora em migalhas, levantou a antena:

— E o pão?

Responderam-lhe com um jingle.

Então chegou o Juiz. Não trazia bandeira, nem vermelha nem amarela. Trazia uma Constituição debaixo do braço e um apito no bolso, como quem leva pão e sal.

— Juiz não entra em campo para torcer — disse. — Entra para que a regra seja a mesma para o canarinho e para o cágado.

Mas os bichos desconfiaram. Bicho desconfia de tudo o que não cheira a si mesmo.

— De que lado você está?

— Do lado da Constituição.

Aí o lixão descobriu a sua maior esquisitice: havia bicho querendo que o árbitro vestisse a camisa do seu time. Uns queriam o apito soprado contra o adversário. Outros, soprado a favor dos seus. Ninguém queria apito: queriam corneta.

Entre jornais velhos e santinhos desbotados, a Constituição, esquecida, parecia perguntar com sua voz de papel:

— Desde quando a Justiça precisa de arquibancada?

No fundo do lixão, alguém achou rabiscada num papel amassado a frase:

“Todos os animais são iguais.”

E mais adiante, em outro papel, de outra letra:

“Mas alguns são mais iguais que os outros.”

Ninguém soube quem escreveu o segundo. Talvez fosse esse o perigo: a letra que cresce de noite, sem assinatura, no rodapé das leis.

Porque quando a lei ganha cor, o cidadão ganha medo. Quando o juiz parece vestir camisa, a arquibancada desaprende de ouvir o apito. E quando a Constituição vira só flecha contra o adversário, deixa de ser Constituição e vira cartaz de poste.

Eu, aprendiz de lesmas, fiquei olhando. A lesma tem a vantagem de enxergar devagar. E viu que o Brasil talvez não precisasse escolher entre dois lixões. Talvez precisasse capinar o terreno e deixar nascer uma coisa com raiz.

Vermelhos e Amarelos podem continuar discordando. Devem. Democracia não é coro de iguais, é orquestra de afinadores brigados. Mas há uma coisa maior que as cores e suas bandeiras, maior que qualquer ministro do STF e TSE: a República. E a República com sua magistratura, com seus poderes, não nasceu para ter partido. Nasceu para colocar a Constituição na vida diáriada população, como o rio nasce para ter margem.

No fim, a barata voltou:

— E o pão?

Desta vez ninguém respondeu com slogan. Alguém, ao fundo, ficou um tempo calado, que é a forma mais antiga de pensar.

Porque talvez a revolução comece quando o povo perceber que não veio ao mundo para escolher entre cores. Veio para escolher quem o represente e para exigir que, acima de todos, fique de pé a lei amparada na Constituição, a única coisa que não deve ter dono. Na República todos são iguais dentro da lei.

O Brasil é maior que seus extremos. E talvez seja a hora de sairmos todos do lixão das certezas e voltarmos a respirar, de boca aberta como criança, o ar sem dono da democracia republicana com os Poderes Legislativo, Executivo, Judiciário e Ministério Público independentes e harmônicos entre si.”

(* Mauro Gaglietti tomará posse na Academia de Letras de Balneário Camboriú no dia 30 de outubro)