(EBC)

O Brasil que cabe na pergunta

Há perguntas que chegam devagar, quase sem fazer barulho. Batem à porta como a luz do fim da tarde, entram pela fresta e permanecem dentro de nós. Há outras, porém, que carregam nas costas o peso de um país inteiro.

Esta é uma delas:

Que Brasil queremos entregar às próximas gerações?

Não pergunto pelo Brasil dos palanques, dos jingles, das promessas ou das palavras cuidadosamente escolhidas para despertar medo, esperança ou raiva. Pergunto pelo Brasil que começa muito antes da urna. Começa numa sala de aula, quando uma criança aprende — ou não aprende — a ler o mundo, compreender um texto, fazer uma conta, formular uma pergunta e descobrir que pensar também é uma forma de liberdade.

O PISA nos oferece um espelho que preferiríamos quebrar. Cerca de sete em cada dez estudantes brasileiros de 15 anos não alcançam o nível básico de proficiência em matemática. Em leitura, aproximadamente metade não atinge o patamar mínimo esperado.

Isso não é apenas um problema da escola.

É um problema do país.

Uma criança que não aprende hoje será, amanhã, um adulto com menos possibilidades de trabalho, renda e autonomia. E um país que deixa seus jovens para trás acaba pagando a conta em produtividade, inovação, desigualdade e desenvolvimento.

O futuro, entretanto, não costuma pedir licença.

Enquanto ainda tentamos resolver problemas antigos, o Brasil envelhece. As projeções demográficas do IBGE apontam para uma população que deverá parar de crescer por volta de 2041. Nas próximas décadas, a proporção de brasileiros com 60 anos ou mais crescerá intensamente.

Seremos um país com menos jovens entrando no mercado de trabalho e mais pessoas precisando de saúde, previdência, cuidado e renda.

É como se o Brasil estivesse atravessando uma ponte enquanto ainda constrói os próprios alicerces. Como trocar pneus de um carro em movimento….

Por isso, a disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro não deveria se resumir à pergunta sobre quem ocupará o poder, quem indicará milhares de pessoas para cargos públicos ou quem controlará a máquina política.

A pergunta deveria ser maior que os nomes.

Como o Brasil vai viver?

Como aumentar a produtividade de quem trabalha? Como transformar petróleo, minerais estratégicos e terras raras em desenvolvimento — e não apenas em exportação de riqueza? Como construir infraestrutura para que aquilo que produzimos encontre estradas, portos, ferrovias e mercados? Como preparar trabalhadores para a inteligência artificial sem transformar milhões de pessoas em espectadores do próprio futuro?

Como oferecer segurança jurídica para quem investe? Como reduzir o peso do custo de vida sobre quem trabalha? Como ampliar o poder de compra dos salários? Como realizar reformas capazes de sustentar um Estado que envelhecerá junto com sua população?

E há uma pergunta ainda mais simples, quase doméstica:

Como fazer o trabalho de um brasileiro valer mais?

Talvez seja aí que o desenvolvimento comece.

Porque desenvolvimento não é apenas PIB crescendo numa tela. É uma criança aprendendo. Um jovem encontrando oportunidade. Um trabalhador podendo sustentar sua família. Uma empresa conseguindo produzir e inovar. Uma cidade oferecendo transporte, saúde e segurança. E uma pessoa idosa podendo envelhecer sem sentir que se tornou um peso para o país que ajudou a construir.

Desenvolvimento é quando a vida deixa de ser apenas sobrevivência e começa a adquirir futuro.

E talvez exista um sinal que a política brasileira ainda não tenha olhado suficientemente: milhões de eleitores não encontraram, no primeiro turno, uma razão para escolher. Cerca de 33 milhões sequer compareceram às urnas, enquanto outros milhões votaram branco, nulo ou não escolheram nenhum dos candidatos que disputavam a preferência.

Não é possível saber, apenas pelas estatísticas, o que existe dentro de cada ausência. Mas é possível fazer uma pergunta.

E talvez seja justamente essa pergunta que esta coluna queira perseguir.

O que está acontecendo com o eleitor brasileiro?

Ele está descrente? Cansado? Indiferente? Desinformado? Exigente? Ou simplesmente procurando uma política que fale menos de si mesma e mais da vida real?

Não tenho a pretensão de oferecer respostas prontas.

Prefiro fazer perguntas que incomodem.

Porque democracia não deveria ser uma escolha entre torcidas. Deveria ser a possibilidade de comparar projetos, confrontar resultados, reconhecer erros e escolher caminhos.

O eleitor não precisa de salvadores.

Precisa de candidatos capazes de responder.

E talvez o Brasil esteja cansado não apenas de escolher, mas de escolher sem saber exatamente para onde está indo.

É por isso que esta coluna começa com uma pergunta.

Não para encerrá-la com uma resposta.

Mas para deixar a pergunta aberta — como uma janela.

Porque, às vezes, é por uma janela que um país começa a enxergar o próprio futuro.