(Milton Luiz Cleve Küster *) – No estojo da pequena Bia, o Lápis de Ouro era o rei absoluto. Ele não morava junto com os outros; vivia em um berço de veludo macio e tinha uma coroa gravada em seu corpo reluzente. “Eu sou o mais importante”, dizia ele ao abrir o estojo. “Sem mim, os desenhos da Bia não teriam realeza nem valor!”
Ao seu lado, vivia o Lápis de Cor Comum, um azul-celeste que já estava bem baixinho de tanto trabalhar. O Lápis de Ouro adorava zombar dele: “Olhe para você, azulzinho. Está tão gasto que logo será apenas uma lasca de madeira. Você é comum e sem graça.”
O Lápis de Cor Comum sentia a ponta tremer de tristeza. As palavras do Ouro eram como riscos profundos que machucavam sua madeira. Aos poucos, ele parou de querer sair do estojo e se escondia atrás da borracha, sentindo-se pequeno e sem importância. O brilho do Ouro parecia apagar a alegria de todas as outras cores.
Certo dia, a professora de Bia deu um desafio especial para a turma: desenhar o “Lugar Onde Todos São Felizes”. Bia abriu o estojo e, como sempre, pegou primeiro o lápis de ouro. Ele estava radiante! Começou a desenhar coroas, moedas e estrelas por toda a folha branca. Mas logo o Lápis de Ouro percebeu um problema. Quando Bia tentou desenhar o céu infinito, o dourado não servia. Ao pintar a grama fresquinha e as flores do jardim, o Lápis de Ouro falhou.
“O que está acontecendo?”, pensou o Lápis de Ouro. O “Lugar Onde Todos São Felizes” estava ficando sem vida e solitário. Do canto mais escuro do estojo, o Sr. Apontador pigarreou: “Sabe, Ouro… ninguém consegue ver um arco-íris se ele tiver apenas uma cor. O bullying que você faz com o Azul está deixando o nosso estojo cinza. Quando você usa suas palavras para diminuir um colega, você está riscando a alma dele.”
O Lápis de Ouro sentiu uma vergonha profunda. Com cuidado, ele rolou até o fundo do estojo e parou ao lado do pequeno Lápis Azul. “Me desculpe, azul”, disse com a voz suave. “Meu dourado precisa do seu azul para que o céu pareça real. Você me ajuda a terminar o desenho?” O Lápis de Cor Comum sorriu e chamou todas as outras cores. O desenho foi o mais bonito da classe. Tinha harmonia, não apenas ouro.
“Ninguém é melhor do que ninguém por brilhar de um jeito diferente. Quando diminuímos o outro, o mundo perde uma cor. A verdadeira beleza nasce quando cada um respeita o lugar e o valor do próximo.”
(* Milton Luiz Cleve Küster, é autor dos livros “Reflexões sobre uma vida em movimento” e “Fábulas do Estojo”. É membro aprovado e ainda não empossado na Academia de Letras de Balneário Camboriú)