“Proibir nunca é a melhor saída”: prática de skate nas praças de Balneário é alvo de debate

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Renata Rutes 

Não é de hoje que a presença de skatistas nas praças de Balneário Camboriú – antes na Tamandaré e agora na Higino Pio – é alvo de debate. Vizinhos reclamam do barulho [relembre aqui], enquanto adeptos do esporte defendem que há poucos espaços para o skate na cidade e que as praças possuem a estrutura ‘adequada’ para a prática (o piso favorece). 

O Página 3 ouviu o secretário de Segurança, Antônio Gabriel Castanheira Junior, sobre a situação, e também Ramon Bagnara, representante da BCSB (Associação de Skate de Balneário Camboriú).

BCSB orienta que atletas procurem praticar o skate em locais apropriados

Ramon é representante e já presidiu a associação

Ramon Bagnara, representante da BCSB (Associação de Skate de Balneário Camboriú) explica que, como instituição que representa o skate da cidade, orientam aos atletas que procurem praticar o skate em locais apropriados como Skate Parks (Barra Sul e Rua 10) ou ambientes mais afastados, assim como o espaço do estacionamento do Centro de Eventos que atualmente tem sido usado por muitas famílias e jovens que praticam além do skate, patins, bicicletas, patinetes etc. 

“Sabemos que o skate é um esporte barulhento, mas é uma das maiores ferramentas de transformação social que existe no esporte hoje em dia. Um jovem praticante de esporte é um jovem a menos no crime. Acho exagero a proibição da prática de esporte na praça Tamandaré, pois é um local aberto, em frente à praia e com a guarita da guarda municipal que além de oferecer um espaço perfeito para se divertir, os jovens também estariam em um local com segurança. A proibição foi com certeza um dos fatores que fizeram que alguns grupos migrassem para a Higino Pio depois da reforma da praça, que se tornou o espaço certo no lugar errado”, diz.

Em relação às reclamações feitas pela vizinhança, Ramon explica que a entidade concorda que durante a noite não é hora, devido ao barulho ‘conforme já prevê a lei municipal do silêncio’, porém, durante o dia não vêem nenhum problema na prática do esporte. 

“Desde que seja realizado com bom senso e respeito entre os cidadãos e patrimônio público. Outro ponto que gostaríamos de citar é a generalização das reclamações, visto que há prática de outros esportes no local, ruídos de cachorros, pessoas etc., mas parece que a culpa ultimamente tem sido sempre para o skate”, opina.

Pistas não suprem a demanda 

Skate Park Barra Sul, o primeiro (Divulgação/BCSB)
Skate Park da Rua 10, o mais recente (Divulgação/BCSB)

Ramon, que é publicitário e skatista há muitos anos, lembra que o skate é considerado o segundo esporte individual mais praticado no Brasil e no mundo, e que em Balneário isso também se confirma. Porém, mesmo com muitos adeptos do esporte, a cidade só conta com duas pistas. 

“As pistas de skate de Balneário Camboriú são ótimas, porém não suprem a demanda de praticantes que vem surgindo. O novo Skate Park da Rua 10 é prova disso, pois está sempre lotado”, salienta.

“Proibir nunca é a melhor saída”

O representante da BCSB conta que diversas cidades que já passaram por essa situação que Balneário vive –  um exemplo é a Praça Roosevelt em São Paulo, que se tornou um ponto de prática de skate conhecida internacionalmente. 

“Foi acertado com a prefeitura e os moradores uma série de regras, desde horário de uso, espaço, sinalização, deu certo e se tornou referência [saiba mais aqui]. As praças são espaços que precisam ser utilizadas pelas pessoas, seja para o esporte ou para o pedestre, desde que dialoguem e cheguem numa definição que seja bom para ambos os lados. Proibir nunca é a melhor saída. Por isso se tiver a possibilidade, nós como associação nos colocamos à disposição para nos reunirmos e encontrar a melhor solução”, acrescenta.

“Temos que incentivar mais a prática de esporte e repreender menos”

Evento Go Skate Day BC, 2019 (Divulgação/BCSB)
BCSB: várias gerações do skate de Balneário (Divulgação/BCSB)

Ramon aproveita para citar que o skate tem sido um dos esportes mais escolhidos pelas crianças e jovens nos últimos anos, e que, se o público procurar na internet em outras associações, federações ou confederação de skate, verão diversos depoimentos de professores e alunos que contam como o skate mudou a vida deles. 

“Contam que saíram da depressão, encontraram um novo sentido na vida, inclusive nós já ouvimos pais de alunos que nos contaram como os filhos mudaram de comportamento em casa e na escola depois que começaram a frequentar as aulas de skate. Para nós tem sido o maior presente e legado que podemos estar construindo para essa nova geração”, diz.

Ramon vê que existe muita opção negativa para os adolescentes, ‘tudo na internet e a disposição para quem quiser’, por isso a BCSB defende que, quando um jovem escolhe um esporte, uma atividade cultural, qualquer opção em aprender algo saudável, é uma chance indispensável para mostrar a ele como se tornar um cidadão de bem.

“Temos que incentivar mais a prática de esporte e repreender menos. A nossa visão de adulto é bem diferente de um adolescente, por isso é preciso agir com sabedoria para aproximar ao invés de afastar”, completa.


O que diz o secretário de Segurança

Placa que proíbe a prática na praça (Divulgação/PMBC)

O secretário Castanheira tem como pauta frequente a inibição do skate nas praças – na Tamandaré há até placas que dizem que a prática é proibida, e o mesmo acontece na Praça Higino Pio, para onde os skatistas que antes ficavam na Tamandaré ‘migraram’. 

Castanheira lembra que quando a Higino Pio estava em obras, orientou que fossem feitas canaletas, pois assim o skate seria ‘inibido’. 

Abordagens na praça filmada por vizinhos (Divulgação)

“Temos muitas prioridades hoje, é importante que os vizinhos denunciem quando está acontecendo, pois assim podemos deslocar viatura para o local e resolver a situação. Se as canaletas existissem o problema seria resolvido. É realmente muito barulhento, incomoda os vizinhos, ali na região central dá muito eco e prejudica a população. Na região da Higino fica tipo uma ‘concha’, com muitos prédios ao redor, não tem como fazer acordo porque dá muito barulho”, pontuou.

Segundo ele, os skatistas não têm o que discutir sobre o tema porque simplesmente não podem andar de skate [ou bicicleta] nas praças. 

“Há um código de postura que impede, há placas nas praças dizendo que é proibido, tanto na Tamandaré como na Higino Pio. Há áreas para eles, nas praças não pode, há caso de skatistas que caíram, o skate voou longe e atingiu pessoas. Assim como a bicicleta também é proibida, pois coloca em risco o pedestre. Existe área para eles praticarem, e nas praças não pode”, diz.

“Operações em favor do menor infrator”

Vizinhos da Praça Higino Pio relatam que alguns dos skatistas usam drogas, o que acaba virando um problema de segurança, além da baderna – que seria frequente no local.

Castanheira sempre aborda o assunto em entrevistas, mostrando preocupação com os casos de menores infratores na cidade, já que não só em Balneário, como em outros locais do país, é comum que menores de idade sejam ‘captados’ para o tráfico – por exemplo, repassando drogas e ganhando uma quantidade para consumo próprio. 

“Não posso generalizar, mas entre os skatistas, muitos menores de idade, pegamos drogas, bebida alcoólica também. Não são todos, mas acontece bastante. A lei não pode existir por existir, não fomos nós que fizemos a lei, mas faremos ela ser respeitada. Por isso, fazemos operações em favor do menor infrator e não vamos deixar de agir dessa forma. Não vamos deixá-los em situação de vulnerabilidade, pois assim evitamos que eles sejam ‘presas’ de criminosos; e não vamos facilitar para os que já estão no mundo do crime. Queremos recuperá-los”, acrescenta.

O secretário de Segurança diz que o Estatuto da Criança e do Adolescente é falho e que alguns pontos ‘facilitam’ para que o menor entre no mundo do crime, e que hoje os adolescentes estão ‘sendo protegidos sem educar’. 

“Se não há impunidade, as ações se repetem. O adolescente entende que tudo bem traficar, fumar maconha, pois vai ser encaminhado à delegacia, mas logo estará livre, e assim o ciclo se repete. Sem represália ou medida educativa, vamos perder esse menor para a criminalidade. Nossos argumentos para que eles não se envolvam são, hoje, menos atrativos do que os oferecidos pelos criminosos, já que muitos vendem para seus próprios amigos e ficam com uma quantidade para consumo”, acrescenta.

Ficam sozinhos em casa e vão para a rua

Castanheira diz que percebe, nas operações e abordagens aos adolescentes, que muitos não têm acompanhamento psicológico ou presença dos pais em suas vidas. 

“Ficam sozinhos em casa, então vão para a rua. Há negligência dos pais, sim. Imagina, deixar seu filho adolescente passar a noite fora de casa, sem saber onde ele está. E isso é muito comum! Como que esses pais não enxergam que os filhos deveriam estar em casa? Assim, eles são suscetíveis a serem captados para o tráfico. Detemos com frequência muitos menores com drogas, e como o tráfico é ‘fragmentado’ a maioria cai como usuário. Para a Justiça a quantidade fala mais alto do que a evidência de que é tráfico”, afirma, citando que continuarão fazendo operações para auxiliar os adolescentes, mesmo que isso signifique repreender a presença deles nas ruas tarde da noite. 

“Nossa bandeira é informar, temos que mudar o que está acontecendo hoje, seguiremos fazendo nosso trabalho, sim, e fazendo muitas operações”, completa.


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