Há imagens que não envelhecem. Em “Terra Estrangeira”, filme de Walter Salles e Daniela Thomas, uma mulher assiste pela televisão ao anúncio do confisco da poupança feito pelo governo Collor. Seu mundo desaba. Manoela morre. Na tela, não é apenas uma mulher que desaparece: é a confiança de um país que perde o chão.
Trinta e seis anos depois, a televisão continua anunciando tragédias financeiras. Mudam os bancos, os governos, os personagens. A sensação de impotência permanece.
Imaginemos uma mesa em Ciudad del Este. Três brasileiros conversam diante de um café já frio.
Lúcia, 66 anos, professora aposentada, perdeu parte das economias no confisco de 1990. Antônio, 69, pequeno empresário, passou décadas trabalhando, viu o patrimônio encolher com planos econômicos, inflação e decisões governamentais. Ricardo, 44, deixou o Brasil com a mulher e dois filhos. Vendeu o que tinha, atravessou a fronteira e abriu uma pequena empresa no Paraguai. Acreditava estar começando de novo.
— Engraçado — diz Lúcia. — Saímos do Brasil porque tínhamos medo de perder o dinheiro. Agora estamos com medo de não conseguir retirá-lo daqui.
Ricardo olha para o celular.
— Meu negócio está funcionando. Minha família está aqui. Mas meu dinheiro está preso no banco. Como pago fornecedores? Como pago funcionários? Como explico aos meus filhos que o futuro que prometi está atrás de uma senha bancária?
Antônio mexe o café.
— Em 1990, Zélia Cardoso de Mello apareceu na televisão anunciando que o dinheiro da poupança estava bloqueado. Disseram que era necessário salvar o Brasil. Salvaram o quê? O cidadão ficou olhando para o extrato como quem olha para o retrato de alguém que morreu.
— E agora? — pergunta Ricardo.
— Agora temos o Banco Master, os consignados questionados, aposentados descobrindo descontos que não autorizaram. Temos milhões de brasileiros que trabalharam a vida inteira e precisaram provar que o dinheiro retirado de suas aposentadorias não deveria ter sido retirado.
Lúcia interrompe:
— Chamam de fraude, irregularidade, investigação. Para quem vive com um salário mínimo, o nome é outro: comida que faltou, remédio que não comprou, dignidade que foi descontada.
Ricardo respira fundo:
— E o Paraguai? Vim para cá porque diziam que era mais seguro para investir. Agora o Ueno Bank está sob intervenção, os saques estão comprometidos e o presidente Santiago Peña renunciou em meio à crise. Também aqui os cidadãos precisam esperar que alguém explique onde foi parar o dinheiro.
Antônio sorri sem alegria:
— Parece que a fronteira não separa apenas países. Separa também nossas ilusões.
Lúcia olha pela janela. Do outro lado da rua, uma família atravessa carregando caixas.
— Sabe o que mais me entristece? Não é somente perder dinheiro. É perder a capacidade de acreditar. A poupança era um sonho. A aposentadoria era uma promessa. O negócio próprio era uma esperança. Em algum momento, alguém transforma tudo isso em números de uma planilha.
Ricardo fecha o aplicativo do banco.
— Não atravessei a fronteira para fugir do trabalho. Atravessei para proteger o resultado dele.
Ninguém responde.
Talvez seja essa a tragédia: o brasileiro não quer privilégios. Quer apenas que aquilo que conquistou honestamente continue sendo seu.
Um país não se mede somente pelo tamanho de suas reservas, pelo crescimento de seu PIB ou pela quantidade de bancos que possui. Mede-se também pela segurança que oferece a quem trabalha, economiza, envelhece e deposita confiança nas instituições.
Do confisco de Collor ao escândalo dos descontos previdenciários, das investigações envolvendo o Banco Master à crise do Ueno, há uma pergunta que insiste em atravessar gerações: quem protege o dinheiro de quem já não tem tempo para começar tudo outra vez?
Porque o dinheiro pode atravessar fronteiras. A confiança, quando confiscada, não encontra facilmente outro país onde morar.
Até quando o trabalhador precisará atravessar fronteiras para descobrir que não existe fronteira segura para a sua vulnerabilidade?