
(BC 62 ANOS) – O Arquivo Histórico de Balneário Camboriú que guarda a memória da cidade, há mais de três décadas, uma iniciativa do engenheiro civil Jurandir Knabben, tem hoje uma equipe técnica completa, o que representa uma garantia e segurança pelo zelo dos documentos, fotografias e mapas históricos.
Jurandir foi vereador e autor do projeto que criou oficialmente o Arquivo Histórico em 1992, para resgatar, construir uma identidade cultural e preservar o patrimônio histórico capaz de conectar gerações, de fortalecer raízes e com elas, o sentimento de pertencimento da população.
Desde então, o Arquivo Histórico passou por muitas fases, dificuldades e até hoje enfrenta desafios estruturais que ameaçam o rico patrimônio cada vez que chove na cidade. (leia aqui o histórico).
Pessoas que entendem do assunto
Uma das preocupações que Jurandir sempre manifestou era relacionada às pessoas que cuidavam do Arquivo Histórico.
“Em uma dessas fases teve coordenadores que não tinham nada a ver com história, não gostavam daquilo, fiquei chateado … sempre pedi para colocarem professores de história, pessoas que gostavam desse assunto”, disse Jurandir em entrevista ao Página 3 em 2021 (leia aqui)
Hoje essa preocupação não existe mais, porque cuidar da memória de uma cidade significa enfrentar desafios permanentes: a ação do tempo sobre os materiais que sustentam essa memória, a necessidade constante de manutenção dos edifícios, que muitas vezes já nascem com falhas, a complexidade da gestão do patrimônio cultural e a busca por recursos e soluções técnicas compatíveis com essa responsabilidade.
É, sobretudo, um trabalho coletivo e hoje o Arquivo Histórico tem uma equipe extremamente comprometida, formada por profissionais que, diariamente, dedicam seu conhecimento à preservação da história de Balneário Camboriú.
É preciso destacar que na Fundação Cultural de Balneário Camboriú, há servidores de carreira cuja atuação merece reconhecimento. No Arquivo Histórico, por exemplo, a equipe já consolidada por Lilian Martins Camargo, Karin Lodder Xavier, Marta Antunes Ribeiro e Luiz Antônio Pereira foi recentemente fortalecida com a chegada, por meio de concurso público em 2024, da arquiteta Aline Ferraz de Aquino, da arquivologista Joceli Padilha e do historiador Luis Henrique Palácio da Silva.
A ampliação desse quadro técnico representa um importante avanço para a preservação, pesquisa e difusão do patrimônio documental do município.


A função de cada um
Nesta reportagem, o coordenador João Carlos da Silva e a equipe técnica que comanda, descrevem o seu trabalho neste local, responsável por armazenar, cuidar, preservar e garantir as tradições, as raízes culturais e a história de Balneário Camboriú.
Acompanhe:
João Carlos da Silva, Coordenador de Memória e Patrimônio

“O Arquivo Histórico possui mais de 30 anos de existência e eu estou à frente da coordenação há pouco mais de um ano. Considero a efetivação da equipe técnica um dos marcos mais significativos para o setor. Esse avanço aconteceu com o ingresso dos profissionais em 2024, após concurso público. A presença desses profissionais especializados garante que as atividades do setor sejam desenvolvidas de acordo com as normas técnicas e a legislação arquivística vigente. Embora o Arquivo Histórico já contasse com um acervo organizado e cuidadosamente preservado, necessitava adequação aos padrões técnicos exigidos.
Com uma equipe altamente comprometida, gradativamente estamos atendendo as necessidades deste setor e importantes melhorias já foram realizadas neste governo, entre elas a aquisição de dois novos computadores e uma impressora, proporcionando melhores condições de trabalho à equipe; a reposição dos extintores de incêndio, que estavam com validade vencida havia 5 anos; aquisição de uma televisão 75 polegadas e de um sistema de som com caixa acústica e microfone para apoio em eventos; a adequação da calçada no entorno do prédio, garantindo acessibilidade e segurança aos pedestres; a instalação de adesivos nos vidros para evitar colisões de aves, problema que vinha causando a morte de diversos pássaros; o lançamento da licitação para reforma do telhado do prédio que resolverá um problema antigo; e a ampliação do Projeto Café com História.
Duas demandas históricas também estão sendo atendidas.
A primeira foi a aquisição de uma mapoteca para documentos de grandes formatos, recebida no último mês de junho, destinada à guarda e preservação adequada de mapas e plantas arquitetônicas.
A segunda é a implantação da gestão documental, com 70% do processo já encaminhado, que permitirá organizar a produção documental e racionalizar o acúmulo de documentos.
Esses avanços refletem nosso compromisso de proteger e valorizar o patrimônio documental, fortalecendo o Arquivo Histórico e garantindo que a memória de Balneário Camboriú permaneça acessível às atuais e futuras gerações”.
Lilian Martins Camargo, Técnica em Restauração

“Minha atuação como restauradora ocorre no Laboratório de Conservação e Restauro, um setor que se caracteriza pela diversidade dos bens culturais sob sua responsabilidade. Além dos acervos documentais, bibliográficos, museológicos e artísticos, o laboratório atua na conservação de monumentos públicos, patrimônio integrado, espaços expositivos e reservas técnicas, desenvolvendo ainda estudos técnicos preliminares, termos de referência, laudos, pareceres, fiscalização de contratos e ações de conservação preventiva.
Esse trabalho é essencialmente interdisciplinar. As decisões conservativas são construídas em conjunto por profissionais de diferentes áreas, conciliando aspectos históricos, arquitetônicos, arquivísticos, museológicos e científicos para definir as soluções mais adequadas a cada bem cultural. Preservar a memória exige conhecimento técnico, planejamento e responsabilidade, pois cada intervenção influencia diretamente a permanência desses testemunhos para as próximas gerações.
Documentos, obras de arte, monumentos, edifícios e lugares de memória são bens culturais insubstituíveis, e mais do que nos ajudar a compreender o passado, eles fortalecem nossa identidade coletiva, revelam os caminhos percorridos pela comunidade e inspiram as escolhas que fazemos para construir o futuro”.
Luís Henrique Palácio Silva, Historiador

“Como historiador do Arquivo Histórico de Balneário Camboriú, meu trabalho é pesquisar, preservar e compartilhar a história, a memória e a cultura do município. Atuo na identificação, análise e contextualização de documentos primários originais, fotografias – tanto da administração municipal quanto das doações de particulares, mapas, plantas, jornais, depoimentos e outros registros que ajudam a contar a trajetória da nossa cidade e seus moradores.
Além da pesquisa histórica, participo da organização e descrição do acervo, do atendimento a pesquisadores, estudantes, jornalistas e à comunidade em geral, orientando consultas e auxiliando na localização de informações históricas.
Também desenvolvo estudos sobre diferentes temas da história local, elaboro textos, pareceres e publicações, colaboro com exposições, projetos educativos e ações de educação patrimonial, buscando aproximar a população de sua própria memória. Um exemplo desse trabalho é o evento Café com História onde o Arquivo Histórico, junto com a comunidade local, se reúnem para identificações de fotos, debates sobre acontecimentos importantes que ocorreram por toda a história da cidade e compreender melhor temas específicos como, por exemplo, a história da hotelaria, comércio, da praia, das personalidades que denominam rua, entre outros assuntos.
Outra parte importante do meu trabalho é contribuir para a preservação do patrimônio histórico e documental, auxiliando na definição de critérios técnicos para conservação, catalogação e valorização do acervo.
Acredito que preservar a memória é preservar a identidade da cidade, permitindo que as histórias de Balneário Camboriú permaneçam acessíveis às atuais e futuras gerações.
Acredito que a função de um Arquivo Histórico se funda na proteção da memória, conservação documental e educação patrimonial. Como instituição, o Arquivo Histórico de Balneário Camboriú sempre seguiu esses princípios.
Sobre desafio, acredito que, assim como todo Arquivo, conciliar o acesso do público externo junto com a conservação pois, a cada incorporação nova – seja de fotos, jornais, mapas, documentos – é necessário passar por uma triagem de seleção, limpeza e organização, demandando um certo tempo, trabalho e esforço. Contudo, toda a equipe consegue lidar bem com esse e vários outros desafios”.
Joceli Padilha, Arquivologista

“Sou graduada em Arquivologia pela UFSC e passei a fazer parte da equipe do Arquivo Histórico de Balneário Camboriú no segundo semestre de 2024.
A profissão de arquivista é regulamentada pela lei 6.546/78. Dentre as atribuições do arquivista estão o planejamento, a organização e a descrição do acervo documental. São ações que visam à conservação, acesso e difusão do acervo.
Atualmente, no Arquivo Histórico, está sendo revisto o arranjo dos documentos. Com os outros servidores analistas administrativos, a técnica em restauração e o historiador, estamos revendo os processos e procedimentos internos.
Hoje, o Arquivo Histórico possui duas salas para o armazenamento do acervo documental. Em uma ficam os mapas e documentos em grandes formatos e na outra os documentos textuais e fotografias.
Foi adquirido recentemente pela Administração Pública Municipal, para o Arquivo Histórico, um móvel destinado a armazenar mapas e plantas em grandes formatos. É um equipamento essencial para o armazenamento e a conservação desse tipo de documento.
No momento, as salas destinadas à guarda do acervo são suficientes, mas a tendência do acervo é crescer e precisar de mais espaço físico.
Futuramente, devem entrar mais documentos identificados como de valor permanente, que devem ser avaliados com a utilização de instrumentos de gestão documental. Esses instrumentos são utilizados antes do documento chegar ao Arquivo Permanente/Histórico. Com sua utilização é possível também eliminar documentos sem valor permanente e liberar espaço físico da prefeitura.
Considerando que a digitalização é um recurso que democratiza o acesso e ajuda na conservação dos originais, mas que não substitui o documento de valor permanente/histórico que foi produzido em papel.
Acredito que o grande desafio para o Arquivo Histórico nos próximos anos será ter condições físicas de abrigar o acervo atual, mais a documentação que aguarda ser recolhida ao Arquivo Permanente/Histórico e a proveniente de futuras doações da sociedade”.
Aline Ferraz de Aquino, Analista Técnica em Gestão Cultural

“Atuo como Analista Técnica em Gestão Cultural no Arquivo Histórico, um cargo que exige a formação em Arquitetura justamente pela necessidade de unirmos o planejamento técnico e espacial à preservação da memória de Balneário Camboriú.
Na prática, a minha atuação une o cuidado com o patrimônio documental ao cuidado com o patrimônio edificado. Sou responsável pelo desenvolvimento de projetos de reforma, manutenção e adequação das edificações da Fundação Cultural, garantindo que esses espaços tenham a infraestrutura e a acessibilidade necessárias para salvaguardar o acervo e receber o público com segurança. Essa atenção aos espaços também se reflete na minha participação nos processos de compras públicas, onde atuo no planejamento e especificação técnica para a aquisição de mobiliários e equipamentos especializados para o Arquivo Histórico.
Além disso, uma das atribuições do cargo é a atuação na gestão do patrimônio cultural do município, o que envolve o assessoramento em processos de tombamento, a fiscalização técnica e a orientação sobre a conservação física do acervo. Ser arquiteta nesse papel significa projetar o futuro da cidade sem abrir mão do seu passado.
Acredito que o maior desafio hoje é fazer com que a comunidade e o cidadão vejam o Arquivo Histórico não como um depósito do passado, mas como um equipamento cultural ativo e essencial para o futuro da cidade. Garantir os recursos, a estrutura técnica adequada e o espaço necessário para a conservação a longo prazo é um desafio diário.
O objetivo é fazer com que a população se reconheça nesse acervo, entendendo que preservar a história de Balneário Camboriú é fundamental para planejar o crescimento da própria cidade”.