Crédito da imagem: gerada por IA (OpenAI/DALL·E)

“Bloquinho da Sobriedade”: estratégia de cuidado em saúde mental no Carnaval em Balneário Camboriú

Em um período tradicionalmente marcado por festas, estímulos intensos e aumento do consumo de álcool e outras substâncias, o Espaço de Saúde Bem Viver Dia, localizado na Praia dos Amores, em Balneário Camboriú, realizou o “Bloquinho da Sobriedade”, iniciativa voltada à proteção da saúde mental e à prevenção de recaídas durante o Carnaval.

A ação integra a campanha “Meu Ritmo, minha Decisão” e propõe um encontro terapêutico direcionado a pacientes em recuperação da dependência química e seus familiares. 

O objetivo é oferecer suporte e orientação para que datas comemorativas possam ser vivenciadas de forma consciente e alinhada ao processo de tratamento.

De acordo com especialistas da área, o Carnaval é considerado um dos períodos de maior vulnerabilidade para pessoas em recuperação, devido à exposição intensa a ambientes e estímulos associados ao uso de substâncias.

“A dependência química não é apenas uma questão de substância, mas de contexto. Ambientes, estímulos visuais, sons e associações emocionais funcionam como gatilhos neurobiológicos capazes de ativar circuitos de memória relacionados ao uso”, explica o psiquiatra da equipe técnica do Bem Viver, Francisco Moraes Mezadri.

Estudos em neurociência das adições indicam que a exposição a estímulos ambientais previamente associados ao consumo pode ativar regiões como o sistema límbico e o córtex pré-frontal, aumentando a fissura e o risco de recaída — fenômeno conhecido como cue reactivity (Volkow & Koob, 2016). Nesse contexto, a criação de ambientes protegidos durante datas festivas é considerada uma estratégia terapêutica relevante.

Ambiente estruturado como ferramenta de prevenção

Foto Bem Viver

O Bloquinho da Sobriedade reuniu grupos terapêuticos, atividades expressivas e momentos de convivência supervisionada. A proposta inclui a identificação de gatilhos comuns do período, o fortalecimento de estratégias de enfrentamento, o incentivo à autonomia nas decisões e a inclusão das famílias no processo de cuidado. 

“Oferecer um ambiente estruturado não significa isolar o paciente da realidade. Significa criar um espaço onde ele possa desenvolver recursos internos antes de enfrentar contextos mais desafiadores”, acrescenta Francisco.

Dados clínicos e experiências em serviços de saúde mental apontam que períodos festivos costumam concentrar aumento de recaídas, internações e crises relacionadas ao uso de substâncias. A ausência de suporte adequado pode transformar datas comemorativas em fatores de risco para pacientes em tratamento.

Por outro lado, a presença de acolhimento, orientação profissional e vínculos de pertencimento tende a reduzir esses impactos e fortalecer o processo de recuperação.

Saúde mental também se celebra

A proposta do Bloquinho da Sobriedade não é negar o período festivo, mas oferecer alternativas seguras para que cada pessoa possa vivenciá-lo de acordo com sua realidade e seu momento de vida.

“Recuperação é construção diária. E proteger essa construção em momentos críticos é um ato de cuidado, não de restrição”, completa o psiquiatra.