Quarta-feira, quase meia-noite. O Senado dissera sim por 75 votos a 1, e em Jaraguá do Sul uma chuva fina molhava a mesa do boteco onde três insones se encontraram, como se o país os tivesse convocado.
— Sessenta dias — disse Aurélio, dono de uma metalúrgica de quarenta empregados, amassando o guardanapo. — Falaram em estudo; eu vi foi pressa e calendário eleitoral.
— Estudo houve, doutor — disse a doutora Marta, advogada que atende patrões e empregados e sabe que a mesma balança pesa os dois pratos. — Em fevereiro o Ipea comparou o impacto ao de antigos reajustes do salário mínimo: o mercado absorveu. Mas pressa também houve. A Câmara correu; o Senado dormiu desde maio e só acordou entre os dois turnos da eleição. A oposição chamou de oportunismo, o governo de dívida histórica. Os dois têm um pouco de razão, que é a pior forma de a verdade aparecer.
Jairo, que pedira café e ganhara conversa, ergueu os dois crachás presos ao cordão: porteiro de dia, vigilante de noite.
— Eu só queria saber da minha folga. Dois dias, doutora?
— Dois dias em cada contrato, Jairo. Não dois dias na sua vida. A lei não soma empregadores: o domingo livre de um pode ser o plantão do outro.
— Então a folga é uma porta — disse ele — e eu preciso de aluguel para atravessar.
Aurélio riu sem alegria.
— E eu pago o sábado como descanso nas comissões, a hora extra encarece, a folha engorda. Vou ter de escolher entre automatizar, demitir ou ficar pequeno. Já tem sobrinho me oferecendo “nota de PJ”.
— Esse é o ladrão que entra quando se abre a janela — disse Marta. — Pequenas empresas precisam de apoio, o 12×36 precisa de negociação coletiva, e o salário de piso precisa de valorização. Sem isso, a conquista vira só texto.
— Se um emprego bastasse, eu usaria a folga para dormir, não para o bico — disse Jairo.
Houve silêncio, desses que só a chuva sabe preencher. Aurélio pagou os três cafés sem que ninguém pedisse. Lá fora, a madrugada fazia o que sempre fez com os pobres e os remediados: esperava que se levantassem cedo.
— O Brasil ganhou um dia — disse Marta. — Resta saber a quem ele pertence.
Jairo olhou o relógio e sorriu: faltavam quatro horas para o primeiro crachá.