Comércio de rua de Balneário Camboriú é parte da história da cidade e um grande complemento ao turismo. (Foto Renata Rutes)

Entre a orla e os arranha-céus: a força do comércio de rua em Balneário Camboriú

Balneário Camboriú é um cartão-postal em movimento. É conhecida por suas nove praias, com destaque para a Praia Central, que virou vitrine internacional depois do alargamento de sua faixa de areia. A obra praticamente “redefiniu” a principal avenida da cidade, a Atlântica.

É também a cidade dos inúmeros atrativos turísticos, dos eventos que movimentam o calendário o ano inteiro, da vida noturna pulsante e dos prédios. Não por acaso, Balneário Camboriú se consolidou como o metro quadrado mais valorizado do país, posto que mantém desde a ‘reconfiguração’ da orla, símbolo de uma cidade que não para de se reinventar.

Os prédios, as praias e os atrativos turísticos são partes importantes de Balneário, mas o comércio também. (Foto Avoc Studio)

Mas, entre arranha-céus, praias e atrativos turísticos, existe um protagonista que acompanha cada fase dessa transformação. Um personagem que atravessa décadas, crises, verões históricos e invernos desafiadores. Um elemento que cresce junto com a cidade, sente suas oscilações e sustenta, no dia a dia, a experiência de quem mora e de quem visita: o comércio de rua.

É ele que ocupa as calçadas das avenidas Brasil, Central, Atlântica, Terceira, Quarta, Quinta, também nas transversais, nos bairros… com muitas histórias! É o comerciante que recebe o turista recém-chegado, que atende o morador toda semana, que vê gerações passarem pelo mesmo balcão. Em meio à verticalização acelerada e às mudanças urbanas, o comércio de rua permanece firme na cidade.

Comércio de rua é tradicional em Balneário Camboriú. (Foto Renata Rutes)

Para entender essa força que resiste e evolui, o Página 3 foi às ruas de Balneário Camboriú. Conversou com empresários, ouviu trajetórias marcadas por coragem, reinvenção e pertencimento, e reuniu nesta reportagem especial histórias reais e inspiradoras de comerciantes que ajudaram a construir, e seguem construindo, a identidade da cidade. Porque, por trás das vitrines, existem vidas. E por trás do crescimento urbano, existe gente que acorda cedo todos os dias para manter a cidade em movimento.


Farmácia Mafra: 60 anos cuidando de Balneário Camboriú

Famárcia Mafra é a farmácia mais antiga em operação em BC. (Foto Renata Rutes)

Em uma cidade que se verticalizou, se modernizou e viu o metro quadrado atingir o topo do país, existe um endereço que atravessa décadas com a mesma essência: cuidar de gente. A Farmácia Mafra, a mais antiga em operação em Balneário Camboriú – com 60 anos de história, e a segunda mais antiga da região, atrás apenas da Farmácia Otto, de Itajaí, que tem 69 anos.

60 anos de balcão, de escuta atenta, de correria para socorrer, de conselho dado com responsabilidade. 60 anos em que a cidade mudou quase tudo ao redor, mas manteve ali um ponto fixo de confiança. “Estamos completando 60 anos de empresa”, diz Ademir Mafra, farmacêutico e proprietário, herdeiro de uma história que começou com o pai e hoje já chega à quarta geração.

A farmácia não está mais no endereço original, em frente ao antigo Mercado Meschke, e hoje fica na Avenida do Estado. Depois da morte do pai, a família vendeu o imóvel e Ademir buscou um ponto o mais próximo possível. “Apesar de ser alugado, graças a Deus a gente está bem aqui”.

Voltar 60 anos no tempo é voltar a uma Balneário Camboriú ainda em formação. Havia poucos médicos, o Hospital Santa Inês estava começando. Não havia Corpo de Bombeiros na cidade.

“Nós tínhamos uma Kombi e uma Brasília que serviam de ambulância. Quando alguém passava mal na farmácia, ou vinha já mal para ali, a gente socorria e levava para o Santa Inês”.

A preocupação com os clientes faz parte do DNA da farmácia, que tem muita história nesses 60 anos. Foto Renata Rutes

Em seis décadas de funcionamento, Ademir fala com orgulho sereno: “Graças a Deus, nunca perdemos ninguém na nossa mão. Em 60 anos, nunca morreu alguém dentro da farmácia ou que a gente tenha socorrido”.

O menino da cobra coral e o porco de presente

Antes mesmo de Balneário, há uma história em Gaspar que a família nunca esqueceu. Uma criança foi picada por uma cobra coral e, naquela época, era permitido aplicar soro na farmácia. O pai de Ademir atendeu o menino. Depois de estabilizá-lo, conseguiram um carro emprestado e o levaram ao Hospital Santo Antônio, em Blumenau. Com pomadas manipuladas na própria farmácia e curativos diários, a pele da perna foi se recompondo. Só o calcanhar, onde ocorreu a picada, ficou com uma marca. O menino sobreviveu. Durante o tratamento, a família levava linguiça, morcilha, queijo, frutas e verduras. No fim, deram um porco de presente.

“Esse porco cresceu, cresceu… e quando o pai resolveu matá-lo foi uma tristeza em toda a família”, lembra Ademir, rindo.

O elefante do circo

Já em Balneário, outra história virou quase lenda urbana: a do elefante do circo. O animal teve uma forte diarreia dias antes da estreia. Veterinários tentaram ajudar, sem sucesso. Foram até o pai de Ademir. “Ele disse: posso fazer um medicamento antigo, mas não posso garantir.”

A mistura foi preparada em um balde. No dia seguinte, o elefante já estava melhor. A família ganhou entrada franca durante toda a temporada, com direito a banco da frente. “Eu acho que era mistura de transporte, calor, alimentação… uma diarreia simples que o remédio resolveu.”

Paradas cardíacas na farmácia

Mas nem todas as histórias são leves. Ademir é formado também em enfermagem, o que, segundo ele, foi fundamental na sua trajetória. “Eu digo que a enfermagem ensina muito. A saúde e a própria medicina não existem sem a enfermagem.”

Ao longo dos anos, ele reanimou ao menos cinco ou seis pessoas em parada cardiorrespiratória, duas delas crianças. Uma sofreu reação grave após injeções aplicadas no hospital. A parada aconteceu em frente à farmácia. Outra, teve parada no trânsito. Ademir fez a reanimação até a chegada do socorro. Há ainda o caso de uma criança do Bairro da Barra, com convulsão febril prolongada, que chegou cianótica. Ele reanimou até a ambulância chegar. No dia seguinte, os pais e avós voltaram para agradecer. O pai da criança perguntou quanto devia. “Eu disse: não deve nada. É nossa função.” Sabendo que ele fazia rocamboles, pediu apenas um para a mãe. Depois vieram sonhos, bolos, pequenas lembranças. “Hoje a criança tem 11 anos.”

“Tu não podes errar”

In memoriam. Antônio, Laura e Júlio Mafra

Ademir cita o pai como seu maior professor. “Ele dizia: tu não podes errar. A margem de erro tem que ser pequeníssima. Trabalhamos com vidas humanas.” E também ensinava algo que segue como regra na Farmácia Mafra: “Se não for competência para ti, manda para o hospital.”

Segundo Ademir, com o passar dos anos, a legislação limitou bastante a atuação das farmácias.

“Coisas simples que poderiam ser realizadas na farmácia hoje acabam indo para posto de saúde ou pronto-socorro e superlotam.” Mesmo assim, recebeu, em 2014, uma comenda do Conselho Regional de Farmácia, em Florianópolis, pelo trabalho prestado. “Então, além de enfermeiro e farmacêutico, sou comendador”, brinca.

Quatro gerações de clientes

Se a família Mafra já está na quarta geração no balcão, os clientes acompanham o mesmo movimento.

“Temos clientes de 50 anos. Alguns de Gaspar ainda vêm aqui. Às vezes ficam dez minutos conversando da época do pai.”

Ademir com o filho, Dudu Mafra

Há famílias que começaram com o avô, passaram pela mãe e hoje trazem os filhos. “É difícil entrar alguém aqui que a gente não conheça ou pelo menos conheça o pai ou o avô.”

Hoje, Balneário Camboriú tem mais de uma centena de farmácias. A maioria pertence a grandes redes. “Não temos como competir com eles. A diferença está no atendimento e na qualidade.”

Ele critica a chamada “empurroterapia” e reforça que indica apenas o necessário. “Se uma pomada basta, é uma. Não precisa duas.”

O pós-venda é parte essencial do trabalho. “Quando a pessoa volta e diz ‘deu certo’, isso é a compensação.”

Saúde além do remédio

Ademir fala de alimentação, atividade física e imunidade com a mesma convicção com que fala de medicamentos. “As duas vitaminas S mais importantes são sujeira e sol”, diz, arrancando risos.

O comércio de rua que resiste

Ademir tem muita história para contar e defende a importância do comércio de rua de BC

Ao longo dessas seis décadas, ele viu a cidade mudar radicalmente. A verticalização, o turismo crescente, o custo de vida elevado, a carga tributária pesada.

“O maior desafio hoje é manter a empresa aberta. Pagar tributos, salários, aluguel alto.”

Ainda assim, ele acredita no futuro da cidade. “Não gosto que digam que Balneário é Dubai. Eu gosto que digam que é promissora.”

Para ele, o comércio precisa acompanhar a modernização, atender o turista, mas nunca esquecer o morador fixo. “Ele constrói Balneário todos os dias.”


Peixaria Oliani: do sogro pescador ao balcão que atravessa gerações

Pesca da tainha em Balneário Camboriú. Foto PMBC

Antes dos prédios altos, antes da orla alargada, antes do turismo em escala internacional, Balneário Camboriú era, sobretudo, mar e rede. Era barco na areia, peixe fresco ao amanhecer e famílias que viviam do que a água devolvia. É desse tempo que nasce a Peixaria Oliani, um comércio que carrega no sobrenome a própria origem da cidade.

Arthur Oliani. Foto Renata Rutes

“A peixaria veio do meu avô”, conta Arthur Oliani, membro da família e gerente do negócio.

“Ele era de Presidente Getúlio. A minha avó é nativa de Balneário Camboriú. O pai dela era pescador daqui. Foi onde meu avô inventou a peixaria: ‘vou comprar do meu sogro e vou fazer a venda do peixe’. E deu certo.”

Deu tão certo que, em 1969, João Oliani Filho estruturou oficialmente o comércio que se tornaria um dos mais tradicionais da cidade. Ele faleceu em 2002, deixando o legado nas mãos do filho, Roberto Oliani, que assumiu a peixaria e deu continuidade à história.

Hoje, já são três gerações envolvidas no balcão, e a quarta desponta entre os pequenos da família.

“É a nossa vida isso, a peixaria. Não é algo que foi criado ontem e vai fechar hoje. A gente tenta manter sempre a tradição da família. É o que a gente sabe fazer.”

Balneário começou pelo peixe

Arthur fala da pesca com a naturalidade de quem cresceu ouvindo histórias de mar.

“Balneário começou através da pesca. O nosso mar aqui em Santa Catarina é super rico. Muitas famílias ainda dependem da pesca.”

Foto: Década de 1960, lance de tainha. Acervo de Antonio Jorge Borba

Dentro da peixaria, uma fotografia antiga de 1945 divide espaço com outra, de 2009. Ambas retratam o desenvolvimento urbano de Balneário Camboriú. Estão ali desde que a unidade atual foi aberta.

“É o desenvolvimento da cidade. Tudo mudou.”

Comércio de rua que resiste

Ao falar do comércio de rua, Arthur reconhece uma característica forte da cidade.

“Balneário se desenvolve, mas o comércio de rua segue forte.”

Ele cita exemplos de estabelecimentos tradicionais que marcaram gerações, como o Restaurante Olho D’Água e o antigo Rancho do Renato. Lembra da Vila Real como um polo com comerciantes antigos, onde a tradição ainda é percebida nas fachadas e nas relações.

A Peixaria Oliani é parte desse grupo que atravessa décadas sustentado por vínculo familiar e fidelidade de clientes. Atualmente, são três unidades de peixaria em Balneário Camboriú e duas da Disk Gelo Oliani, outro braço do negócio que começou há quase 40 anos, também na Vila Real.

O turista que quer o ‘gosto do mar’

Se no passado a clientela era majoritariamente local, hoje o turismo tem papel fundamental no movimento da peixaria.

“Atendemos muitos turistas. Pessoal do Paraná, de São Paulo… acredito que lá eles não tenham essa variedade de pescados que tem aqui na nossa região.”

Segundo Arthur, muitos clientes de Curitiba descem especialmente para comprar peixe fresco. “É clássico: vou pro litoral, vou comer peixe.”

Há os que ficam em hotel e não cozinham, mas há também os que têm casa na cidade ou passam o fim de semana e fazem questão de levar o sabor do mar para a mesa. “Muita gente vem de fora mesmo.”


Tuti’s Pão: a esquina que atravessa gerações na Avenida Brasil

Tuti’s Pão faz parte da história do comércio de BC. Foto Renata Rutes

Na esquina da Avenida Brasil com a Rua 2000 está a Tuti’s Pão, que se confunde com a própria paisagem da cidade, com uma história que começou quando o entorno ainda era quase todo terreno vazio.

“Há mais ou menos 60 anos, quando meus pais se instalaram nesse terreno, a disponibilidade de áreas aqui era muito grande”, conta Ewerton Wegner, administrador da panificadora e representante da segunda geração da família. “Eu acredito que meu pai escolheu essa localização pela proximidade com o que era considerado o centro da cidade na época, que era a esquina da Brasil com a Avenida Central.”

Passado e presente. Foto Divulgação/Tuti’s

A família havia vindo do Mato Grosso e se estabelecido na região da Rua 2300. A avó morava na 1400. A escolha do ponto tinha lógica urbana, mas também tinha raiz familiar. Quando a padaria abriu as portas, em dezembro de 1972, Balneário Camboriú ainda dava seus primeiros passos como destino turístico estruturado. O que era uma aposta se transformou em referência.

Missão que atravessa décadas

Ao falar sobre a permanência da Tuti’s por mais de cinco décadas no mesmo endereço, Ewerton aponta para algo que vai além da localização.

“Eu acho que isso se refere muito ao objetivo da empresa, à missão da empresa, que é servir produtos de qualidade. Essa diretriz começou lá atrás e foi mantida.”

Tuti’s é conhecida pelos moradores e turistas, com tradição desde a década de 70. Foto Renata Rutes

Segundo ele, a longevidade do negócio também acompanha o próprio desenvolvimento da cidade.

“Conforme a cidade foi se desenvolvendo, essa missão da empresa atendia os objetivos da população que se instalou aqui e que visitava Balneário durante todos esses anos.”

A modernização veio com o tempo, o café agregado à padaria, a ampliação da confeitaria, a diversidade de produtos, mas com um cuidado mantido desde o início.

“A gente procura manter uma tradição de produtos de qualidade, com o compromisso de servir as pessoas. Mesmo usando açúcar na confeitaria, por exemplo, a gente evita muitas essências, aditivos químicos e pré-misturas. Isso nunca foi o nosso perfil.”

Comércio que se transforma, tradição que permanece

Instalada em um dos trechos mais movimentados da Avenida Brasil, frequentemente chamada de “shopping a céu aberto”, a Tuti’s acompanhou a transformação do comércio local. “Existe uma transformação que é fruto das tendências e das necessidades”, observa Ewerton.

“Antigamente eram farmácias e imobiliárias que dominavam a avenida. Hoje as farmácias são grandes redes. Salões de beleza migraram para ruas transversais. O comércio da Brasil vai se adaptando.”

Ao redor da padaria, empresas abriram, mudaram, fecharam. A rotatividade é parte da dinâmica urbana.

“Tem comércios mais oportunistas, com produtos que estão na moda no momento. Eles não têm uma previsão de longevidade. Os locais permanecem, mas as empresas vão se modificando.”

A família Wegner. Foto Arquivo pessoal

No caso da Tuti’s, um fator importante contribuiu para a continuidade: o imóvel é propriedade da família.

“Na Avenida Brasil, o aluguel é uma questão muito séria. Às vezes ele é o ponto-chave para o sucesso ou não de um negócio.”

Mas, para além da estrutura, Ewerton reforça que a permanência é fruto de um compromisso diário.

“A missão é diária. Abrir todos os dias, servir o café, fazer o pão, vender o pão. Isso depende de um grupo comprometido. Não é só da direção, é principalmente do grupo inteiro de funcionários.”

Parte da história da cidade

Perguntado sobre a importância da Tuti’s para Balneário Camboriú, Ewerton responde com cautela, mas reconhece o peso simbólico da marca.

“Eu acho que o legado dela faz parte da história da cidade, se cruza com a história da cidade.”

A padaria se tornou ponto de encontro de moradores e turistas. Gerações passaram por ali. A cidade cresceu, verticalizou, se consolidou como destino internacional e a esquina da Brasil com a 2000 segue igual, com o mesmo cheiro de pão quentinho e as delícias que fizeram (e fazem) a Tuti’s ser reconhecida.


Casa das Chaves: da Kombi ao topo da construção civil de Balneário Camboriú

Luiz Carlos Chaves, Charles Chaves, Chaves Junior

Antes dos arranha-céus, antes das torres recordistas e das fachadas espelhadas, havia uma Kombi. Dentro dela, ferramentas, fechaduras, cópias de chave feitas à mão — e um homem que começava a escrever uma das histórias mais longevas do comércio de rua de Balneário Camboriú.

“Em 1973, meu pai, minha mãe e meu irmão vieram de Lages para Itajaí. Eles se mudaram dentro de uma Kombi”, conta Luiz Carlos Chaves Junior, o Chaves Junior, filho do fundador da Casa das Chaves.

Foto histórica, de 1976

Em Itajaí, o pai abriu o primeiro chaveiro. Dois anos depois, vendeu o negócio e começou a fazer serviços esporádicos em Balneário Camboriú. A família morava onde hoje fica a região da Rua 1301, próximo aos Correios, na esquina com a Avenida Brasil. Do outro lado da rua, alugaram uma pequena sala de madeira para morar.

“Meu pai trabalhava com a Kombi e também de bicicleta. Ele ficava ali pela Rua 1000, 1100, onde era o antigo cinema Cinerama.”

O primeiro chaveiro da cidade

Balneário ainda engatinhava como destino turístico estruturado. Mas uma coisa já era clara: a cidade crescia e precisava de serviços. Por volta de 1975, já conhecido na região, o pai de Chaves Junior alugou uma pequena sala na esquina da Rua 1000 com a 1100, em uma casinha simples de madeira. Ali nasceu oficialmente a Casa das Chaves como loja física.

“Aquela rua era muito movimentada por causa dos hotéis Pires, Rede Sagres… tinha uma ligação forte com o turismo.”

O pai de Chaves Junior foi o primeiro chaveiro de BC, e tinha grande clientela. Na foto, loja da década de 70

E havia outro detalhe importante: ele era o primeiro chaveiro da cidade.

“Acabava que a demanda era alta. Abertura de porta, abertura de cofre, bancos, prefeitura… todo mundo chamava meu pai.”

Na década de 80, com o aumento do fluxo de turistas, especialmente argentinos , filas se formavam para cópias de chaves. Muitos alugavam apartamentos por temporada.

“Meu pai era o único que fazia chave na mão. Depois ele comprou máquina, mas antes era tudo manual.”

Professor de uma geração inteira

Com o tempo, outros chaveiros começaram a surgir na cidade. Muitos deles haviam aprendido com o fundador da Casa das Chaves.

“Vinha muita gente trabalhar com ele. Ele ensinava a profissão e as pessoas acabavam saindo e abrindo as próprias lojas. Meu pai foi um grande professor aqui.”

Família Chaves

No início, a empresa era essencialmente familiar. Nos anos 90, a história deu um novo salto. Mesmo enfrentando um grave problema de saúde, o fundador não se afastou completamente. Trabalhando de casa, atendia por extensão telefônica uma espécie de “home office” antes do termo existir. Foi também nessa década que ele começou a viajar para São Paulo para comprar fechaduras direto das fábricas.

“Ele saía de carro de noite, atravessava a madrugada dirigindo, pegava as fechaduras de manhã cedo, carregava o carro e voltava para Balneário. Ficava dois dias viajando para abastecer o estoque.”

O primeiro prédio da Embraed

San Diego, o primeiro prédio da Embraed

Em 1990, nasce a construtora Embraed. E com ela, um marco na história da Casa das Chaves.

“Meu pai vendeu as fechaduras para o primeiro prédio da Embraed. Isso foi um marco na vida dele.”

A partir daí, a venda de fechaduras para construtoras passou a ganhar força. O irmão de Chaves Junior percebeu uma lacuna no mercado e decidiu investir pesado nesse segmento.

“Vimos que existia uma oportunidade nas fechaduras e começamos a engatar ali.”

A empresa deixou de ser apenas assistência de chaveiro e passou a atuar de forma estratégica na construção civil.

Da Rua 1000 à Quarta Avenida

Após quase 25 anos na Rua 1000, a empresa mudou-se em 2002 para a atual sede, na Quarta Avenida, imóvel próprio. Antes disso, passaram ainda por outros endereços importantes, como uma sala na esquina da Rua 1500 com a Avenida Brasil e outra na Terceira Avenida.

“Hoje aqui é nosso. Isso faz diferença”.

Chaves Junior na frente da atual loja da Casa das Chaves. Foto Renata Rutes

Chaves Junior lembra que, há cerca de 20 anos, a Quarta Avenida era praticamente chão batido. A descentralização do comércio começou ali. O centro ficou adensado e com pouca oferta de salas amplas. A Terceira e a Quarta Avenidas cresceram.

“Hoje você vê grandes empresas na Terceira, lojas de alto padrão, arquitetura, engenharia. A Quarta virou referência.”

Referência estadual e presença nas maiores obras da América Latina

Nos últimos 15 anos, a Casa das Chaves consolidou-se como referência em fechaduras não apenas em Balneário Camboriú, mas em Santa Catarina e além.

“Hoje nós somos referência em fechaduras para construtoras em Santa Catarina.”

A empresa atende presencialmente de Jaraguá do Sul a Florianópolis. A carteira já chegou a quase cinco mil CNPJs de construtoras ao longo de 50 anos.

“Compensa fazer orçamento conosco até comparando com a fábrica. Pelo volume que compramos, conseguimos preço competitivo. Nosso nome hoje está associado a garantia e qualidade de prestação de serviço. Não é só vender fechadura, é dar respaldo depois.”

A Casa das Chaves está presente em empreendimentos como o Yacht House e o One Tower, entre os maiores residenciais da América Latina.

Uma cidade que muda cada vez mais rápido

Aos 42 anos, Chaves Junior diz que acompanha de perto a aceleração do crescimento urbano.

“Antes, meu pai dizia que a cidade mudava de 20 em 20 anos. Depois passou para 10. Hoje parece que em cinco anos tudo já mudou.”

O alargamento da Praia Central é exemplo disso.

“Tem gente que veio há cinco anos e não reconhece mais a praia.”

Para ele, Balneário é hoje um polo nacional da construção civil.

“Grandes feiras do setor estão vindo para cá. O que se faz aqui vira referência para o Brasil.”

Shopping a céu aberto

Sobre o comércio de rua, Chaves Junior é direto e destaca a variedade, os horários estendidos, a facilidade de locomoção e a diversidade de produtos. Cada avenida tem seu perfil: a Brasil mais turística, a Terceira e a Quarta mais voltadas ao morador e à construção civil.

“O turista vai na praia, vai na roda-gigante, mas ele quer ver coisas para comprar.”

Ele cita o Camelódromo, que completa 40 anos neste ano, como símbolo dessa força comercial. Para ele, o comércio é parte essencial da experiência da cidade.

“Balneário tem beleza natural, qualidade de vida, mas também tem comércio de alta qualidade.”


Ótica Itaçu: 35 anos no coração de BC

As três gerações da Ótica Itaçu. Foto Renata Rutes

Quando Balneário Camboriú ainda tinha “mato alto” em volta da Quarta Avenida e a Rua 1500 era estrada de chão, um banquinho na calçada bastava para acompanhar o sol da manhã. Foi nesse cenário, quase difícil de imaginar para quem conhece a cidade de hoje, que a Ótica Itaçu começou a fincar raízes. Em 2026, a empresa completa 35 anos e, para Susann Guimarães, proprietária e filha do fundador, o segredo dessa caminhada está menos em vitrine e mais em presença: dono junto, equipe unida, organização e um tipo de atendimento que trata o cliente como gente de casa.

“Em 1º de novembro de 1991 a gente vai fazer 35 anos”, conta Susann, já no clima de comemoração. “É uma longa caminhada.”

Foto da equipe em 2021, nos 30 anos da Ótica. Foto Divulgação

A Itaçu nasceu do trabalho do pai, Jaimor, óptico desde muito cedo.

“Meu pai aprendeu a profissão com nove anos de idade. Ele ficou órfão de pai. O padrinho dele, o Willy Alfredo Zumblick, que era pintor, chamou ele e disse: ‘vou tentar te ensinar duas profissões. Ou você vai ser pintor como eu, ou vai trabalhar na ótica com a minha família’.”

O pai dela tentou a pintura, mas não se adaptou ao cheiro forte da tinta. Foi para a ótica e ali se encontrou. Mais tarde, viveu em São Paulo, depois em Florianópolis, onde foi sócio no Centro Óptico Florianópolis, que ainda existe. Quando veio para Balneário Camboriú, trabalhou em outra empresa, até abrir a dele.

“No início ele tinha uma sócia, depois comprou a parte dela e começou a tocar.”

Do manual ao digital: de 30 dias para 10 minutos

A trajetória da Ótica Itaçu também é um retrato do quanto o setor mudou. E Susann conta com detalhes.

“Meu pai montava todos os óculos manualmente. Antigamente uma lente demorava 20, às vezes 30 dias para surfaçar e ficar pronta. E como a maioria era em cristal, tinha que quebrar a lente com alicate. Muitas vezes ela quebrava na hora da montagem.”

Jaimor no ‘começo de tudo’

Além do prejuízo, havia o desafio de explicar ao cliente, refazer e esperar novamente. Hoje, a cena é outra.

“Nós temos três máquinas automáticas que montam óculos a cada 10, 15 minutos”, afirma. “Tem lente que, se eu tiver estoque na loja, a gente monta em 15 a 20 minutos.”

Susann e o pai, Jaimor

Até os prazos mais “demorados” mudaram de patamar: um multifocal, que antes podia levar um mês, hoje pode ser entregue em poucos dias, dependendo do tipo e dos tratamentos.

“Hoje o prazo mais demorado é dez dias. No máximo.”

A tecnologia acelerou, mas Susann faz questão de lembrar que nem tudo virou botão. A coloração, por exemplo, segue artesanal, como um trabalho de ateliê.

“A coloração ainda é feita manualmente. Fazer degradê, descolorir lente… é artesanal.”

A sucessão que virou escolha

Enquanto muitos negócios tradicionais enfrentam a dificuldade de manter sucessores, Susann diz que a Itaçu caminha na direção contrária: já está preparando a terceira geração.

“Eu estou ensinando esse moço que saiu aqui, que é o meu filho”, diz, com orgulho de quem vê a continuidade ganhar forma. “Ele já está aprendendo, já está trabalhando no financeiro.”

E o detalhe que emociona é que não foi uma imposição.

“Eu falei: vai trabalhar com outras coisas, vai viver tua vida. E ele disse: ‘não, não, não. Eu vou ficar aqui com vocês e vou ajudar a organizar a loja’.”

“Nos primeiros cinco anos a gente dividiu o sanduíche”

Quem vê hoje uma empresa consolidada talvez não imagine o peso do começo. Susann não romantiza: ela lembra do aperto, da insistência, do trabalho construído dia após dia.

“Muita gente abre, muita gente fecha. E eu entendo, porque pagar aluguel, ter despesas…”, diz. “A gente brinca, eu e meu pai, que nos primeiros cinco anos a gente dividiu o sanduíche pra depois colher frutos. O conselho que eu dou é insistir o máximo que conseguir. Não é do dia pra noite que se faz uma clientela.”

Ótica Itaçu tem tradição familiar. Foto Renata Rutes

E, no caso da Itaçu, há um detalhe que derruba um mito comum: a família não é a dona do prédio.

“Não, não é nosso. Vai fazer 35 anos que nós somos inquilinos”, conta. A locação é da família de dona Mirna, que construiu os dois prédios próximos, e a Ótica Itaçu foi crescendo ali dentro até alugar o edifício inteiro. “Hoje o prédio todo é a ótica.”

O segredo dos 35 anos

Perguntada sobre o que sustenta um comércio por tanto tempo em uma cidade conhecida pela rotatividade, Susann vai direto ao que acredita ser o “núcleo duro” da longevidade.

“Eu acho que é os donos estarem juntos. Formar uma boa equipe. Funcionários que têm amor pelo que fazem. Dedicação. E tratar bem os funcionários. Organização é tudo.”

Mas há um ponto que ela repete e parece ser a alma do negócio: humanização.

“O que a gente ouve dos clientes é isso: a Ótica Itaçu olha o cliente como ser humano, como alguém da sua família.”

Ela conta que orienta a equipe a tratar o cliente como gostaria de ser tratada, e cita exemplos práticos do dia a dia que viram fidelização: pequenos consertos sem custo, ajustes, troca de plaquetas, limpeza.

“Muitos lugares cobram. A gente faz gratuitamente, porque sabe que o cliente quer estar sempre com o óculos bonitinho, limpinho.”

Horário estendido e ‘porta aberta’ no almoço

A Itaçu também se diferencia pela rotina, com um horário que “casa” com a vida real de quem mora e trabalha na cidade. “Nós abrimos às 7h30 da manhã”, explica.

“E eu divido a equipe no almoço. Metade vai, metade fica. Eu consigo manter o comércio aberto na hora do almoço.”

Ela lembra de um caso recente: um palestrante que estava no Hotel Marambaia, com os óculos caindo, sem conseguir trabalhar. Passou na ótica, ajustaram na hora e, ao perguntar o preço, se surpreendeu com a resposta.

“Quando eu disse que não custava nada, ele ficou impressionado. Disse que foi muito bem atendido.”

Turista volta para “fazer óculos em casa”

Embora a clientela seja majoritariamente local, Susann diz que a Itaçu atende turistas e, mais que isso, cria vínculo a ponto de alguns se tornarem clientes “de retorno” todo ano.

“Tem turista que vem passar férias, conhece nosso trabalho e todo ano volta pra fazer compras na Ótica Itaçu.”

Foto: Equipe Itaçu

Ela cita famílias de argentinos e paraguaios que mantêm esse hábito, além de casos curiosos de pessoas que eram de Balneário, se mudaram para outros países e voltam à ótica sempre que visitam a cidade. E tem aquele tipo de fidelidade que vira história para contar.

“Essa semana mesmo um cliente se mudou para Florianópolis. Disse que levou a receita em várias óticas e não se sentiu em casa. Aí veio de moto de Florianópolis para Balneário só pra fazer o óculos aqui.”

Comércio de rua como essência da cidade

No contexto da reportagem sobre a importância do comércio de rua, Susann defende que esse formato é parte da experiência de Balneário Camboriú, tanto para moradores quanto para visitantes. Ela lembra que, para quem está hospedado em hotéis centrais, o comércio de rua permite circular a pé e resolver a vida: comprar, ajustar, consertar, experimentar, “se distrair”.

“Quantas famílias saem dos hotéis e vão caminhar na Avenida Brasil pra comprar coisas, ou até mesmo pra passear… Isso faz parte.”

Para ela, grandes redes não são ameaça quando existe diferencial humano. “Se você fizer um trabalho diferenciado, mais humano, o teu cliente vai te procurar.”

E conclui com uma frase que resume não só a ótica, mas o próprio espírito da pauta. “Comércio de rua faz parte de Balneário Camboriú. Eu sou apaixonada pelo nosso comércio de rua.”


Comercial Pereira: 38 anos em Camboriú

Nelson Pereira. Foto Renata Rutes

Quando se fala em comércio de rua com legado na região, Balneário Camboriú costuma puxar os holofotes. Mas a força comercial também está em Camboriú, que possui lojas reconhecidas, clientelas de décadas, que mantém um tipo de relação que a internet não consegue copiar: olho no olho, confiança e presença diária.

É nesse cenário que o Comercial Pereira, comandado por Nelson Pereira, completa 38 anos de história e ajuda a contar um pedaço importante do desenvolvimento econômico do município. Para ele, o comércio de rua segue sendo um pilar porque dá ao cliente algo que nenhum carrinho online entrega: certeza.

“O comércio de rua é uma coisa muito importante para os clientes e para os lojistas. Através do comércio de rua as pessoas têm acesso diretamente ao produto, podem verificar, têm chance de conhecer o produto mais de perto. Pela internet a pessoa compra, mas não tem certeza se é aquilo que ela quer.”

No Comercial Pereira, a proximidade virou marca. A loja é conhecida na cidade, tem variedade ampla e um atendimento que, segundo Nelson, é quase um traço cultural do comércio camboriuense.

“Nós temos loja aqui há 38 anos. A loja também é grande, tem uma variedade de produtos muito grande. E é tradição das lojas de Camboriú atender bem, trazer o melhor para o cliente.”

De 14 mil habitantes a uma nova realidade urbana

Nelson descreve Camboriú como uma cidade que mudou “muito mesmo” em menos de quatro décadas. Quando abriu a loja, o município tinha, na estimativa dele, cerca de 14 mil habitantes. Hoje, acredita que já ultrapassa a casa dos 120 mil. “Camboriú, quando eu comecei a loja, tinha acho que 14 mil habitantes. Hoje tem mais de 120 mil.”

Comercial Pereira é famoso em Camboriú. Foto Renata Rutes

A transformação não foi só demográfica. Ela veio com novos bairros, novos hábitos de consumo e, sobretudo, com um motor econômico que, na avaliação dele, faz Camboriú ganhar um protagonismo cada vez maior.

“Camboriú hoje é a bola da vez… Balneário faz a propaganda e Camboriú cresce junto.”

Para Nelson, enquanto Balneário Camboriú se consolida como vitrine turística, Camboriú se fortalece como base de sustentação urbana e produtiva. 

“Tem que matar um leão todo dia”: o desafio de manter a porta aberta

Se Balneário Camboriú é conhecida pela rotatividade de pontos comerciais, Nelson faz questão de dizer que a dureza de empreender não é exclusividade da cidade vizinha. “Pra tocar um comércio hoje em dia não é fácil. Tem que matar um leão todo dia.”

O segredo, para ele, não tem glamour: é pé no chão, administração e trabalho direto do dono. “Tem que ter os pés no chão, bem administrado. O proprietário tem que trabalhar. Se ele não trabalhar, ele não consegue tocar um comércio hoje. Pra tocar um comércio hoje tu tem que ser muito bom. Tem que administrar bem. Dá trabalho. Dá muito trabalho.”

O papel do Sindilojas e a força do associativismo

Nelson é parte da nova diretoria do Sindilojas

Além de empresário, Nelson participa do movimento associativista e integra a diretoria do Sindicato do Comércio Varejista e Atacadista (Sindilojas), que representa Balneário Camboriú e Camboriú. E aqui ele muda o tom: fala com a sinceridade de quem está há décadas tentando convencer o setor de que entidade forte não existe sem participação coletiva. Para ele, o Sindilojas é uma ferramenta essencial do comércio, justamente por atuar onde muitos empresários só percebem quando o problema já está na mesa: convenção coletiva, negociações trabalhistas, regras do setor e representação.

“Todo comerciante devia ser associado. É ali que tem a convenção coletiva, é ali que brigamos por salários, é ali que fazemos a coisa acontecer.”


Evidence e Carmen Confecções: tradição e experiência na Avenida Brasil

Evidence e Carmen Confecções dividem as esquinas da Rua 2.000. Foto Renata Rutes

Na esquina da Avenida Brasil com a Rua 2000, um dos cruzamentos mais simbólicos do comércio de Balneário Camboriú, duas fachadas contam uma história que atravessa gerações. De um lado, a Evidence. Do outro, a Carmen Confecções. Ambas da mesma família, ambas clássicas da cidade e há mais de três décadas consolidando o que muitos definem como a alma comercial da Brasil: variedade, atendimento e porta aberta quase todos os dias do ano.

“Além de proporcionar oportunidades de emprego, nós estamos há mais de 36 anos aqui”, resume Diego Bolaño Faria, gestor comercial das lojas.

O negócio é familiar e antigo. A origem remonta há mais de 70 anos, em Rio de Sul, e hoje está na terceira geração.

Avenida Brasil: o shopping a céu aberto

Para Diego, o papel do comércio de rua na experiência turística da cidade é indiscutível.

“Quando o turista vem, além de apreciar toda a beleza natural, eu acho que a Avenida Brasil tem uma importância gigante dentro do cenário. É um shopping a céu aberto.”

Diego destaca a importância do comércio de rua de BC. Foto Renata Rutes

A comparação não é exagero. A variedade de lojas, as marcas nacionais e internacionais, os cafés, os horários estendidos, tudo compõem um circuito que funciona como um grande centro comercial ao ar livre. Para Diego, essa dinâmica é parte da engrenagem que mantém o turismo girando não apenas no verão, mas ao longo do ano.

Ponto próprio: diferencial que garante permanência

Em uma cidade onde o metro quadrado está entre os mais caros do país, a questão do ponto comercial é determinante. E, nesse aspecto, as lojas têm um diferencial importante.

“O ponto da Evidence é nosso. Na Carmen Confecções, cerca de 30% não é nosso, mas o restante é.”

A propriedade do imóvel, segundo ele, ajuda a atravessar momentos de oscilação e a planejar no longo prazo.

“A gente vê essa mudança de mercado. Abre loja, fecha loja, porque realmente é um custo fixo muito alto.”

Carmen fica em esquina famosa de BC. Foto Renata Rutes

Ao redor da esquina da 2000, Diego viu muitas vitrines mudarem de nome.

“Muita loja já passou por aqui. Mas a gente está aqui firme e forte.”

Mais de 60 marcas e um time que segura a chave

Se o ponto é estratégico e as marcas são fortes, hoje são mais de 60, entre nacionais e internacionais, como Clavin Klein Jeans, Animale, Farm, Le Lis Blanc, Ellus, Tommy Hilfiger, Diesel, Lacoste, dentre outras. Mas Diego faz questão de dizer que isso não basta.

“Não adianta ter loja linda, na Avenida Brasil, com o metro quadrado mais caro, se não tem o nosso time.”

Ele destaca que a equipe é um dos maiores patrimônios das lojas. “Nosso time é extremamente dedicado. A gente tem funcionários com mais de 10, 15 anos de casa.”

Em um cenário onde a rotatividade no varejo é alta, especialmente em uma cidade dinâmica como Balneário Camboriú, manter colaboradores por tanto tempo é um diferencial competitivo. “Muitos clientes conhecem nossos vendedores pelo nome.”

Para Diego, essa continuidade cria vínculo.

“Hoje você entra numa loja, amanhã volta e aquele vendedor não está mais. A gente sabe que é difícil reter. Mas a nossa equipe abraça a causa. A gente entrega a chave na mão deles e eles tocam o negócio.”

Diego está há 14 anos na cidade, mas foi tempo suficiente para perceber uma mudança profunda.

“Com a chegada dos cruzeiros, os eventos, a organização da cidade, a população sente segurança. A cidade está transformada literalmente. Balneário deixou de depender apenas da alta temporada. O fluxo se distribuiu, o comércio respira melhor, ainda que os desafios permaneçam”.

A experiência que a internet não substitui

Perguntado se o comércio de rua continuará relevante, mesmo com o avanço da tecnologia e das vendas online, Diego não hesita.

“Com certeza. A internet pode vir, as tecnologias podem chegar, mas o contato com o cliente, a experiência, o nosso cafezinho, o nosso sofá…”

Ele relata que há clientes que entram apenas para conversar e tomar um café. “A venda é consequência.”

Para ele, tocar na peça, provar, experimentar, levar para casa para decidir essa experiência física é insubstituível. “A loja de rua sempre vai existir. Ainda mais em Balneário Camboriú.”


Carioca Calçados: tradição no calçadão que cresceu junto com Balneário

Loja Carioca é ‘patrimônio’ do Calçadão de BC. Foto Renata Rutes

No Calçadão da Avenida Central, fica a Carioca Calçados.

“A história da Carioca Calçados se confunde com a de Balneário Camboriú”, resume Renan Constantino, sócio-diretor do Grupo Oscar.

A marca nasceu em 1985 e, ao longo das décadas, cresceu e se consolidou como uma das mais conhecidas de Balneário. E, em 2021, viveu um dos capítulos mais marcantes de sua trajetória: a entrada no Grupo Oscar.

“Foi um momento de grande destaque. Mostrou a força da marca e permitiu expandir a atuação para outras cidades da região Sul do país.”

Comércio de rua como identidade da cidade

Renan. Foto Divulgação

Para Renan, o comércio tradicional tem papel central na identidade de Balneário Camboriú.

“É de muita importância. O comércio tradicional aproxima as pessoas, permite que o cliente a região. Em uma cidade com uma veia turística tão forte quanto Balneário, esse contato é fundamental para reforçar a identidade da região e sua vocação para o comércio e serviços.”

Um cliente mais exigente e mais atento

Renan opina que, ao longo dos anos, o perfil do consumidor mudou junto com a cidade.

“Com certeza o cliente atual é mais exigente”, afirma. “Busca não só boas promoções, mas atrativos que justifiquem a ida à loja, como uma boa experiência de compra, atendimento diferenciado e ágil, que combine com o dinamismo da rotina, e produtos de qualidade que se encaixem ao seu dia a dia.”

Reforma para acompanhar o novo ritmo da cidade

Em 2025, a ‘Carioca do Calçadão’ passou por uma reforma. O objetivo não era apenas modernizar o espaço, mas alinhar a loja ao novo ritmo de Balneário Camboriú, sem perder a essência construída ao longo de quase quatro décadas.

“Essa atualização buscou criar uma experiência de compra mais acolhedora, inspiradora e prática aos clientes.”

Loja Carioca está há muitos anos no Calçadão da Central. Foto Divulgação

Segundo Renan, o projeto foi pensado para equilibrar tradição e modernidade.

“O ambiente se conecta com o novo ritmo da cidade e, ao mesmo tempo, mantém a sensação de estar em uma unidade da rede Carioca Calçados.”

Comércio de rua como atrativo turístico

Se Balneário Camboriú é frequentemente chamada de “shopping a céu aberto”, é porque o comércio faz parte do roteiro de quem visita a cidade. E, na visão da Carioca, esse papel é real e estratégico.

“O comércio de rua faz parte da história de Balneário Camboriú. Muitos turistas frequentam esses espaços justamente para conhecer um pouco mais a região e levar para casa um pedaço de Balneário. A Carioca nasceu no comércio de rua e esse modelo permanece muito importante para a marca.”

Loja passou por reforma em 2025. Foto Renata Rutes

Diante da concorrência do e-commerce e dos shoppings, o desafio do varejo tradicional é claro. Mas, para Renan, a internet não ‘matou’ o comércio de rua, mas obrigou-o a evoluir.

“O e-commerce obrigou o varejo de rua a se reinventar, mas também mostrou que o comércio tradicional não morreu. Ele segue existindo e segue forte. Hoje, os clientes estão atentos a tudo, não só a preços. Em cada loja da Carioca buscamos garantir uma experiência diferenciada, criar um ambiente acolhedor e construir um mix de produtos que atenda às necessidades do cliente. Só com esse olhar, voltado às necessidades do cliente, é que o comércio de rua vai continuar sendo parte importante da economia de Balneário”, completa.