Guilherme Carelli contrata PMs de “forma espúria” para “coagir, expulsar e ameaçar” moradores de condomínio

Três policiais militares e o engenheiro civil Guilherme César Carelli foram presos em flagrante na sexta-feira (28), após uma tentativa de retirada forçada de moradores de um edifício em obras na Rua São Caetano, no bairro São Francisco de Assis, em Camboriú. Segundo os registros da ocorrência, os agentes estavam armados.

O jornal teve acesso a um documento que aponta que Carelli teria contratado os três policiais de “forma espúria” com a finalidade de “coagir, ameaçar e expulsar compulsoriamente” os ocupantes do imóvel. As circunstâncias e responsabilidades individuais ainda são investigadas.

A reportagem não conseguiu contato com Guilherme Carelli, mas o espaço está disponível caso queira se manifestar.

Em nota divulgada nesta segunda-feira (31), a Polícia Militar confirmou que ‘os três agentes e um civil’ foram presos após uma denúncia de que homens armados promoviam a retirada de moradores mediante grave ameaça e sem amparo legal.

O civil é descrito pela corporação como um engenheiro apontado como contratante de um serviço particular de segurança destinado à desocupação irregular do imóvel. Conforme a Associação de Proprietários Alameda Provence, imagens de câmeras mostram Carelli chegando ao empreendimento acompanhado de outros homens ainda durante a manhã.

A movimentação teria começado por volta das 7h e se prolongado ao longo do dia. Vizinhos perceberam que algo estava acontecendo na parte dos fundos do condomínio, onde existem câmeras de monitoramento. O fato principal foi registrado no boletim de ocorrência às 10h10.

Moradores relatam invasão e ameaças com armas

Uma moradora declarou à polícia que dormia quando três homens teriam entrado na residência sem autorização, após chutarem a porta. Segundo o depoimento, um deles entrou no quarto, apontou uma arma em direção ao rosto dela e ordenou que saísse.

Ainda de acordo com o B.O., o mesmo homem teria perguntado se havia outras pessoas no imóvel. Ao saber que existiam moradores no apartamento superior, dirigiu-se até o local e apontou a arma para um adolescente que estava deitado, determinando que ele se levantasse.

As pessoas teriam sido obrigadas a deixar o apartamento e acompanhadas até o portão por um dos homens, que permanecia com a arma em punho. O adolescente também afirmou à polícia que estava dormindo quando foi surpreendido e ameaçado.

Os três policiais militares negaram as acusações ou optaram por não prestar declarações naquele momento, conforme consta no boletim.

Um construtor que ocupa a área dos fundos relatou que foi abordado no portão por homens armados. Segundo sua versão, Carelli teria colocado a mão em seu peito e ordenado que ele “saísse fora”.

Documento da prefeitura não autorizava retirada à força

Guilherme Carelli é o sujeito de preto à esquerda da foto.

Carelli declarou à Polícia Militar que é filho do proprietário do empreendimento e que havia ido ao local para desocupar os imóveis. Ele afirmou acreditar que existiria uma tentativa de obtenção da posse por usucapião e mencionou o desaparecimento de portões, aço e outros materiais da obra.

O engenheiro também alegou possíveis condições de trabalho análogas à escravidão e disse estar amparado por um documento emitido pela prefeitura que solicitaria a desocupação.

Nenhum mandado judicial que autorizasse a retirada compulsória dos moradores, entretanto, foi apresentado à guarnição. Os policiais que atenderam à ocorrência orientaram que questões envolvendo posse, propriedade e desocupação fossem resolvidas pelos meios legais.

A nota oficial da PMSC informa que os quatro presos são investigados, em tese, por incitação ao crime, constrangimento ilegal, ameaça, violação de domicílio, constituição de milícia privada, esbulho possessório, uso de documento falso e corrupção ativa. A corporação ressalva que a classificação jurídica poderá ser modificada no decorrer das investigações.

Foram apreendidas três pistolas calibre 9 milímetros, carregadores, munições e aparelhos celulares. Os policiais foram conduzidos às respectivas unidades, onde permaneceram à disposição da Justiça Militar. Carelli foi encaminhado à delegacia.

A PMSC também instaurou Inquérito Policial Militar para apurar as condutas sob os aspectos disciplinar e penal militar, sem prejuízo das investigações na Justiça comum.

Disputa se arrasta desde 2024

A tentativa de desocupação é mais um capítulo de uma longa disputa envolvendo a área ainda inacabada do condomínio.

Segundo a Associação de Proprietários Alameda Provence, a parte dos fundos da obra foi entregue por Matheus Carelli à Construtora Leal em dezembro de 2024. Um contrato e um comunicado assinados na época atribuíam à empresa a responsabilidade pelo local.

Em janeiro de 2025, a construtora informou que o acesso de funcionários do condomínio àquela área dependeria de sua autorização. A empresa, porém, teria interrompido os trabalhos por falta de pagamento, após organizar o canteiro e remover parte dos entulhos e materiais sem utilidade.

Um antigo mestre de obras e sua família permaneceram vivendo no local (foi no apartamento deles que Carelli e os policiais teriam ido).

Segundo a associação, o construtor, que também mora no condomínio, sustenta que passou a residir no imóvel para preservar a construção diante da falta de pagamento e do abandono (ele não teria recebido da Carelli após o acordo firmado).

A associação afirma que não administra nem tem responsabilidade sobre a área em disputa. O contato atual com a Carelli ocorre apenas por meio de advogados e notificações judiciais. Por isso, segundo a entidade, a presença de Guilherme Carelli no condomínio causou surpresa e preocupação de que o conflito se estenda às torres habitadas – mas teria se resumido no contato com o mestre de obras e o responsável pela Construtora Leal.

Centenas de compradores lesados

O projeto original reúne 384 apartamentos e 102 salas comerciais, totalizando 486 unidades, além das garagens. São mais de mil matrículas imobiliárias. Apenas 128 apartamentos, distribuídos em quatro blocos, foram entregues. Atualmente, mais de 400 pessoas vivem no condomínio. Segundo a associação, as torres habitadas ainda apresentam pendências estruturais e documentais.

O empreendimento foi lançado entre 2013 e 2014, mas parte da construção está parada há aproximadamente cinco anos. Uma das torres dos fundos estaria cerca de 40% concluída, enquanto outras sequer avançaram além das estruturas iniciais.

Há ainda casos de unidades comercializadas para mais de um comprador. A Associação de Proprietários Alameda Provence estima que existam cerca de 540 processos relacionados ao empreendimento, além de dívidas municipais, embargos, problemas com licenças e matrículas atingidas por penhoras.

A entidade afirma que os proprietários precisam comprovar repetidamente que adquiriram os imóveis de boa-fé. Recentemente, o município teria aceitado individualizar o cadastro imobiliário das unidades pertencentes às quatro torres habitadas, o que pode permitir a regularização e o pagamento separado do IPTU.

Também existe há cerca de dois anos e meio um Termo de Ajustamento de Conduta relacionado às pendências entre a Carelli e a associação. O prazo originalmente estabelecido para o cumprimento das obrigações já teria terminado há mais de um ano.

A associação avalia que a conclusão do empreendimento dependeria da entrada de uma nova construtora e da reformulação do projeto.

Entre as possibilidades discutidas estão aportes dos compradores ou a ampliação da área construída, aproveitando mudanças no Plano Diretor, para financiar a conclusão das unidades já vendidas.

Decadência

A Construtora Carelli entrou em decadência quando, em maio de 2017, os sócios Dalmo e Cauey Carelli, pai e filho, foram presos pela Polícia Federal acusados de evasão fraudulenta de divisas e lavagem de dinheiro.

Nessa ocasião as obras de um conjunto de prédios no Bairro São Francisco, em Camboriú, já andavam lentamente e o mercado desconfiava da seriadade da empresa.

Em junho de 2022 o escritório Construtora Carelli, na Terceira Avenida, foi alvo de tiros durante a madrugada, mas o crime não foi elucidado.