(Gemini IA)

Vorcaro: o editor das palavras de alguns jornalistas brasileiros

Há uma mesa que não aparece no expediente. Fica num andar sem placa, e dela sai o que você lê (escuta e assiste) com a pressa do café, acreditando que a manhã é sua.

Segundo mensagens encontradas no celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, ele teria lido e corrigido reportagens antes que elas existissem para o público. Um contrato de R$ 20 milhões com o Metrópoles, em 2024, e então onze de catorze matérias passaram por suas mãos. Pediu ainda a publicação de outras duas. Na véspera de ser preso, ainda pediu ajustes num texto sobre a venda do Master. As mensagens mostram também conversas com o então diretor-geral de O Globo e Valor Econômico, que, depois da repercussão, foi demitido. Somados, os veículos que ele teria influenciado alcançam de 110 a 125 milhões de brasileiros por mês.

Repare no detalhe, que é o que mais assusta: nada mudou na página. A manchete seguia sóbria, a fotografia, correta, o tom, de quem apenas informa. A propaganda, quando bem-feita, tira a própria roupa de propaganda e veste a da notícia. Ninguém desconfia do vizinho que sorri.

É como se o réu ditasse a sentença ao escrivão. Ou como se o time pagasse o apito do árbitro e, ao fim do jogo, o placar parecesse natural, quase meteorológico, coisa que cai do céu.

Notícia verdadeira incomoda alguém, quase sempre quem a assina com o silêncio. Ela ouve os lados, mostra de onde vem, corrige o erro à vista de todos. Já o recado de quem paga a conta nunca arranha o dono da conta.

Por isso, antes de acreditar, pergunte baixinho a cada texto: quem paga este jornal? O que falta aqui, já que o silêncio também é uma forma de editar? Quem foi ouvido, e quem foi poupado? E o que diz, do mesmo fato, o veículo de outro dono?

Informar-se dá trabalho. Mas é o único trabalho que nos devolve a luz da manhã. Quem não escolhe o que lê acaba escolhido por quem escreve.