“O que os estudantes aprendem e produzem pode chegar a quem está fora da escola?” – foi a partir dessa inquietação que o professor de História, Diego Pacheco, criou o Vozes da Vila, projeto de comunicação do Centro Educacional Municipal (CEM) Alfredo Domingos, no Bairro São Judas Tadeu, em Balneário Camboriú.
Desde abril, alunos assumem microfones, escrevem notícias e entrevistam moradores, profissionais da escola e autoridades, aproximando a rotina escolar da comunidade.
Em entrevista ao Página 3 nesta sexta-feira (16), Diego contou que a iniciativa reúne atualmente cerca de 22 a 23 estudantes, com participação por adesão no contraturno. Além da rádio, o projeto inclui um jornal escolar e o Pod+, podcast com entrevistas em vídeo.
A proposta nasceu de três preocupações do professor: fazer o conhecimento produzido pelos estudantes circular além da escola, melhorar o diálogo com a comunidade e ampliar a participação dos alunos nas decisões.

“Os estudantes normalmente trabalham de maneira muito passiva dentro das escolas, e o que eles produzem de conhecimento é consumido internamente ou praticamente não é consumido”, observa.
Para Diego, abrir espaço para que os alunos produzam e compartilhem informações também é uma forma de fazê-los participar mais ativamente da vida escolar, inclusive das discussões políticas. Nesse processo, a rádio mantém uma relação próxima com o grêmio estudantil, que, segundo o professor, é o único da rede municipal de ensino e tem participação ativa no projeto.
Da pauta à gravação

Os estudantes participaram das decisões desde o início. Nas primeiras reuniões, ajudaram a escolher os nomes, os formatos e a periodicidade dos programas. A proposta é que se envolvam nas diferentes etapas da produção, do planejamento à escrita, gravação e edição.
No ADS Notícias, programa semanal com duração de quatro a cinco minutos, os alunos procuram informações na escola e na comunidade, escrevem pequenas matérias e, após a revisão dos textos, gravam as notícias. O exercício envolve transformar o que apuram em uma linguagem que funcione para quem está ouvindo.
Outros programas exploram diferentes formas de contar histórias. O Lendo e Aprendendo apresenta leituras de livros para incentivar o interesse das crianças dos anos iniciais pela literatura. Já o Nostalgia reúne relatos de alunos do 9º ano sobre as experiências que marcaram sua passagem pela escola.
O Ponto e Vírgula aproxima quem está começando a trajetória escolar de quem já saiu da instituição. As conversas abordam tanto as expectativas das crianças quanto as lembranças e os caminhos de ex-alunos que hoje estão no ensino médio ou trabalhando.
No Pelos Corredores, professores e outros profissionais contam sobre sua formação, trajetória e interesses pessoais, respondendo também às curiosidades dos estudantes.
Comunidade e dinheiro público entram na pauta

A relação com o entorno ganha espaço no Microfone na Rua, programa em que os alunos saem para conhecer histórias e identificar problemas da comunidade.
Segundo Diego, esse trabalho passou a envolver também a educação fiscal, com discussões sobre as necessidades do bairro, a aplicação dos impostos e os destinos do dinheiro público. A iniciativa despertou o interesse da Secretaria da Fazenda, conforme relata o professor.
As entrevistas também se estendem ao Pod+, que já recebeu a prefeita Juliana Pavan, o vice-prefeito Nilson Probst, entre outras ‘personalidades’ da cidade. As conversas são gravadas em vídeo e disponibilizadas no YouTube.
Diego avalia que a aproximação com a comunidade acontece de forma gradual, conforme os conteúdos circulam nos grupos de pais, no site e nas plataformas digitais.
“A participação tem sido crescente, tanto da preocupação dos estudantes com relação à comunidade quanto da comunidade também com a gente”, afirma.
Recursos limitam a expansão

Manter a estrutura funcionando é o principal desafio. O professor cita despesas com o site, a transmissão da rádio durante 24 horas e equipamentos, como microfones, caixas de som e microfones de lapela.
Segundo ele, parte dos custos acaba sendo coberta com dinheiro próprio. A quantidade de equipamentos também limita as atividades: nem todos conseguem produzir ao mesmo tempo, e alguns estudantes precisam esperar para utilizar os recursos disponíveis.
Para 2027, o objetivo é ampliar a estrutura e aumentar a quantidade de programas, dando continuidade ao trabalho iniciado neste ano.
Os conteúdos podem ser acompanhados pelo site vozesdavila.com.br, que reúne a rádio, a grade de programação, fotos e edições do jornal escolar, e pelo podcast Rádio Vozes da Vila no Spotify.